A guerra dos metais raros

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Reproduzimos uma Nota de leitura sobre o livro de Guillaume Pitron, “A Guerra dos metais raros: a face escondida da transição energética e digital”, da editora «As ligações que libertam», publicada no número 909 da “Carta de A Verdade” (1), de 23 de Agosto de 2018.

Este livro é o resultado de uma investigação sobre a guerra travada entre as principais potências imperialistas pelo controlo das terras raras. O autor apresenta a sua abordagem em relação com as discussões sobre a transição energética e digital. Ele apoia-se sobre estudos que puseram em questão os discursos dominantes. Os sectores industriais das ferramentas digitais e das chamadas energias renováveis são grandes consumidores de metais raros, cujas propriedades foram recentemente descobertas. É assim que as baterias, os ímanes e os componentes electrónicos que são integrados em geradores eólicos de energia ou em painéis solares, tal como nos computadores ou nos telemóveis mais sofisticados, utilizam muitos metais raros. Portanto, é absurdo falar de energias renováveis como se só o vento e o Sol fossem utilizados. Aliás, é uma ilusão pensar que o carro eléctrico é não poluente. De facto, embora não liberte CO2 quando se movimenta, ele utiliza electricidade produzida com grande dispêndio de terras raras, ou de petróleo, de gás e de carvão, e a sua cadeia de fabrico é mais produtora de CO2 que a de um carro a gasóleo ou a gasolina.

O autor parte, portanto, à procura dos locais em que existem essas minas de extracção dos preciosos metais raros. Ele mostra que, a pouco e pouco, a China conseguiu tornar-se no principal fornecedor destes metais, e que ela possui não somente as terras raras como as técnicas sofisticadas para separar das toneladas de terra as poucas gramas de metal raro que nelas se encontram. Porquê? Simplesmente porque as multinacionais deste sector consideraram ser mais rentável deslocalizar a sua produção, na década de 1990, para um país onde não havia regras de segurança obrigatórias e onde os salários eram muito baixos. A extracção remove quantidades imensas de terra e a separação dos metais é muito poluente. O autor dá o exemplo dos EUA que deslocalizou esta indústria, mas também da França que dispunha da tecnologia para a transformação e a privatizou.

E refere, ainda, que no período de 2005 a 2010, houve pânico dos governos, com o consumo dos metais raros a acelerar devido ao grande desenvolvimento da utilização do digital, numa situação em que a China detinha o monopólio e podia fazer subir os preços, ou mesmo – como é prática de qualquer bom capitalista – fazer um pouco de chantagem. Isso levou a uma contra-ofensiva dos EUA, e mais timidamente da Europa, para diversificar as fontes de exploração das terras raras e retomar o controlo da situação.

O autor sugere que a China reagiu de forma suave. Mas o método chinês não tem nada de original: ela limitou-se a seguir o mesmo caminho dos EUA, em atraso em relação à Inglaterra, no século XIX – passar de fornecedor de matéria-prima a fabricante de produtos pouco complexos e, em seguida, alargando a gama da produção a montante e a jusante, controlar as cadeias de fabrico, inclusive dos produtos mais complexos.

Mas se isto é considerado normal quando se trata de uma grande potência, é totalmente inadmissível quando se trata de um país que “tem a obrigação” de vender barata a sua mão-de-obra…

O autor conclui a sua investigação mostrando as disposições guerreiras que os diversos Estados, como o fizeram com o petróleo no século XX, estão a tomar em relação a estes metais no século XXI para os controlar. Sendo os oceanos uma reserva considerável destas terras raras, eles são objecto de um feroz combate nos bastidores para tomar conta e repartilhar as plataformas continentais.

A ocupação do Mar da China pela Marinha dos EUA não é um acaso. Nem a promoção do antigo Chefe da CIA, Pompeo, para a Administração de Trump. Nem as zonas de combate no Congo ou a ocupação-reocupação, com forças especiais, de outras zonas de África.

Algumas observações

Se os dados fornecidos pelo autor são interessantes, e o alerta sobre as mistificações relativas à transição energética e digital é útil, a sua análise é um pouco primária. A denúncia da China percorre todo o livro. Ele pretende ser mais um alerta para uso dos capitalistas do que um meio para alertar os trabalhadores sobre as ameaças de guerra ligadas ao funcionamento do imperialismo.

A revista francesa La Recherche publicou um número, em Janeiro de 2018, sobre as principais descobertas de 2017. Ela refere duas descobertas científicas que constituem também proezas tecnológicas e industriais: a medida das ondas gravitacionais e a ligação quântica entre a Terra e um satélite.

Ora se a medida das ondas gravitacionais foi conseguida por aparelhos sofisticados construídos por investigadores dos EUA e europeus, a ligação quântica foi realizada por um satélite chinês e uma equipa científica da China. Sabemos que o Pentágono e os seus

generais são muito ciosos de demonstrar o avanço tecnológico dos EUA em todos os domínios militares. Estamos longe do tempo em que o primeiro Spoutnik (lançado pela URSS) surpreendeu o Estado-Maior dos EUA. É por isso que a China deixar de ser um simples atelier de fabricação, a baixo custo, de T-shirts e de brinquedos, assegurando lucros fabulosos às multinacionais norte-americanas, é para eles bastante inquietante.

O imperialismo norte-americano está a procurar reconfigurar o seu dispositivo de dominação, e a análise de Lenine continua plenamente actual: época de guerras e de revoluções, o imperialismo é o estádio supremo do capitalismo onde as grandes potências procuram partilhar e repartilhar o mundo.

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(1) A responsabilidade desta publicação é da Secção francesa da IVª Internacional.

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