As mobilizações em Barcelona e as suas consequências políticas

“Até que eles caiam. Nada a perder. Tudo a ganhar.”, na manifestação em Barcelona, a 27 de Fevereiro de 2021.

Desde 16 de Fevereiro, continuaram as mobilizações, nomeadamente na Catalunha, mas também em todo o resto do Estado espanhol. Sem dúvida, o ponto de inflexão foi a manifestação massiva que teve lugar no sábado, 27 de Fevereiro, no centro de Barcelona.

A manifestação desse dia operou a junção entre a exigência da recuperação da liberdade de expressão – bem como da libertação do cantor Pablo Hasél – e um conjunto de reivindicações sociais, veiculadas através da participação de organizações que lutam contra os despejos de casas (que cresceram no último período), de manifestantes pró-Saúde pública e de outros. O que explica, sem dúvida, que esta manifestação tenha sido a maior desde 16 de Fevereiro. No entanto, estas manifestações – que rompem com as restrições impostas pelo estado de alarme – são o pretexto para uma campanha desenfreada, que está a ser liderada pelas fileiras da direita franquista, para exigir a sua proibição pelo Governo.

UMA PROVOCAÇÃO BEM ORGANIZADA

Meia hora após o final da manifestação de sábado, ocorreram confrontos entre um pequeno grupo e a Polícia, em frente de um Posto policial municipal (a sul do bairro de “Las ramblas”) que, curiosamente, não estava protegido e, também por coincidência, contou com a presença de “jornalistas”. Logo naquela noite de sábado começou a ser lançada uma campanha, ao nível de todo o país, contra o “terrorismo de rua”. Os jornais mais directamente franquistas, como é o caso do ABC, estão a exigir inclusivamente a proibição de organizações que eles acusam de provocarem a violência, em particular da organização de juventude da Candidatura de Unidade Popular (Arran). E mais uma vez, como um retrocesso ao passado, é referida a existência de “agitadores estrangeiros” (dois ou três italianos, um francês ou um escocês, que estavam a passar por lá!).

Esta campanha mediática foi concebida com o objectivo, imediato, de obrigar os partidos catalães – que, após as eleições de 14 de Fevereiro, devem formar um governo na Catalunha – a declararem, antecipadamente, a sua defesa incondicional da chamada Polícia catalã, em especial da Brigada móvel anti-motim (o Brimo), conhecida pela sua brutalidade e implicada em muitos casos de violência policial e de expulsões.

UMA QUESTÃO BÁSICA: A DECOMPOSIÇÃO DO REGIME

A “condenação” das manifestações de Barcelona é também utilizada para tentar restaurar a “unidade nacional” em defesa do Regime monárquico. Com efeito, a cada semana que passa, novos elementos são publicados na Imprensa sobre a corrupção que atinge a Casa Real (1).

Para além disto, a grande crise que está a atravessar o Partido Popular (PP) – representação política institucional herdada do Regime franquista – que, na sequência da sua derrota eleitoral na Catalunha, expõe cada vez mais publicamente as dissensões internas entre as diferentes famílias que o compõem e se confrontam entre si.

Pela sua parte, o Governo socialista de Sanchéz está a tentar fazer um pacto com o PP, ao mesmo tempo que a sua própria crise o impede de fazê-lo; isto obriga-o a ter de assumir, directamente e quase sozinho, a defesa do Regime monárquico corrupto e a implementar as exigências do capital financeiro.

As grandes empresas estão a anunciar que o desemprego parcial – introduzido desde que começou a pandemia – tem de transformar-se, no final de Maio, em plano de ajustamento, implicando nomeadamente despedimentos. Elas consideram que os Fundos europeus – que ainda têm de ser desbloqueados – devem ser utilizados para financiar estes planos de ajustamento.

A junção na rua destas manifestações em defesa das liberdades e das reivindicações sociais estabelece, assim, a ligação entre os manifestantes e os trabalhadores ameaçados de perder os seus empregos. Além disso, a 1 de Março, houve novas concentrações em todas as cidades do país – apesar das restrições do estado de alarme – em defesa do Sistema público de pensões, com o apoio da maioria das plataformas de aposentados.

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(1) A 26 de Fevereiro, por exemplo, foi anunciado que que o Rei-pai (Juan Carlos I) voltou a pagar aos cofres do Estado uma verba de 4,4 milhões de euros, relativa a despesas não declaradas.

Nota de Angel Tubau, publicada no semanário francês “Informations Ouvrières” – Informações operárias – nº 644, de 3 de Março de 2021, do Partido Operário Independente de França.

França: Queremos viver, ser livres, estudar, trabalhar!

Nos cartazes pode ler-se: “Faculdades fechadas; estudantes esquecidos” e “Queremos estudar e não continuar confinados”.

Por iniciativa do Comité de Ligação dos Jovens pela Revolução, em França, dezenas de universitários de vinte universidades e estabelecimentos do Ensino superior, estudantes do Ensino secundário de dez escolas e jovens trabalhadores reuniram-se no dia 13 de Fevereiro.

Perante os ataques, jovens franceses reúnem-se para organizar a resistência

Uma mesma rejeição ao estado de emergência “sanitária” que os priva de liberdade e de direitos. Eles dizem: “As nossas escolas estão fechadas. Estamos condenados a cursos à distância que não nos ensinam nada”. A precariedade na juventude está a aumentar. As filas em frente aos bancos de alimentos estão a crescer.

E quando, como na Grécia, os jovens dizem “não” e se mobilizam, a resposta é uma só: a repressão organizada pelo Estado. “Nós denunciamos a repressão selvagem e as brutalidades policiais que ocorreram em Atenas e Salónica, causando muitos feridos e dezenas de prisões” – destacou, em saudação ao Encontro dos jovens franceses, a Juventude Libertação Comunista, da Grécia, que defende as manifestações em defesa da Educação no seu país.

Em França, desde há um ano que Macron e o seu governo estão a usar o Covid para desferir ataques. Suprimem as camas e os serviços dos hospitais. Para benefício de uns poucos, eles estão a usar a situação tanto contra os jovens como contra os trabalhadores.

“Não é o vírus que nos está a matar, é a política deste Governo”

Os jovens participantes no Encontro recusam este mundo podre em que os governos, sob as ordens do capital financeiro, querem mergulhá-los. Como disse Mathias, estudante da Sorbonne: “O Sistema capitalista é o causador dos problemas…”.

Na Grécia, no Líbano, na Argélia,… cresce a revolta contra as medidas de confinamento e as suas consequências destrutivas. Nesta batalha pela vida, os jovens estão na vanguarda.

Estas lutas pela retoma imediata das aulas presenciais encontram obstáculos, em particular das lideranças sindicais, que aumentam a listagem de condições para a reabertura das universidades e deixam o governo Macron impor o seu estado de emergência.

Organizar a resistência

No final da reunião, foi decidido redigir e publicar um Apelo político, para discutir com todos os que estão nas Faculdades e nos Colégios (Liceus) e não aguentam mais a situação, para ajudar a organizar a resistência. Irão ser preparadas reuniões – o mais amplas possível – para dar conta das conclusões do Encontro, tendo como objectivo reagrupar, organizar e estruturar uma força.

Ficou previsto um novo Encontro nacional, mais representativo e com mais participantes.

Correspondente de “O Militante Socialista”

Covid-19 em França: Propaganda e realidade

De acordo com um estudo do INSEE (1), parece ter havido um excesso de mortalidade de 54 mil cidadãos em 2020, em comparação com 2019. Mas as estatísticas do INSEE dizem respeito apenas ao número de mortes e não às suas causas, porque estas, protegidas pelo sigilo médico, só podem ser fornecidas ao INSERM (2). Este último, com base em certificados médicos, pode estabelecer as causas de morte, mas os resultados do INSERM são geralmente conhecidos apenas um ou dois anos após a realização do estudo. Pode-se considerar que este excesso de mortalidade esteja relacionado com a Covid, ou casos de comorbidade associados à Covid (3).

Num artigo publicado no jornal Le Monde, Hervé Le Bras, demógrafo e historiador (foi Director do Laboratório de Demografia Histórica do CNRS – Centro Nacional de Investigação Científica), escreveu: “Em 2020, o número de mortes aumentou 7,3% em França. As pessoas mais velhas foram particularmente atingidas pelo surto de Covid-19. De acordo com o INSEE, na segunda vaga a mortalidade aumentou 19%, entre Setembro de 2020 e Janeiro de 2021, para as pessoas com idade superior a 75 anos. De acordo com a Santé publique Franceo site oficial do Ministério da Saúdede meados de Março de 2020 a meados de Janeiro de 2021, 59% das pessoas que morreram por causa da Covid-19 tinham mais de 80 anos, enquanto este grupo etário representa apenas 6% da população total (…).

Como é que mais 7,3% de mortes podem corresponder apenas a um decréscimo de 0,7% na esperança de vida (0,55 anos em 82,5 anos)? Isto é devido ao elevado risco anual de morte das pessoas idosas a quem restam, portanto, poucos anos para viver (…).

O risco de morte de uma pessoa com 75 anos de idade tornou-se o mesmo que uma com 75,6 anos de idade, quando não havia o Covid-19 (…). Em detalhe, isto significa que os riscos de mortalidade quase não variaram até aos 65 anos de idade. (…) O risco de morte de um idoso de 82 anos de idade em 2020 era, portanto, o mesmo que o de um idoso com 82,7 anos, na ausência do surto de Covid-19.

Estes cálculos minimizam a gravidade da epidemia. Eles conduzem a um paradoxo: o medo gerado pelo vírus parece estar relacionado, de forma inversa, com a letalidade da epidemia.”

Na verdade, o epidemiologista Martin Blachier – médico especialista em Saúde Pública e feroz opositor do professor Didier Raoult (4) – num debate televisivo, disse: “Concordo a 100% com Didier Raoult no ponto em que ele afirma: «Sou contra a teoria do medo. Acho que estamos a assustar demasiado as pessoas, e isso é aterrador.».

De facto, utilizando a pandemia – que é uma realidade e faz vítimas – o Governo dramatiza, deliberadamente, a situação com uma campanha de propaganda destinada a aterrorizar a população e levá-la a aceitar a lei do estado de emergência sanitária e as outras medidas liberticidas e, assim, fazer passar todas as suas contra-reformas destrutivas.

Publicámos, na edição desta crónica da semana passada, a mesma propaganda e mentiras de Estado na Alemanha. Em França, passa-se a mesma coisa, com a cobertura do pseudo-“Conselho Científico” e do “Conselho de Defesa”.

Para combater a pandemia, existem com certeza algumas medidas básicas sanitárias e, acima de tudo, é preciso acabar com a eliminação de camas e a supressão de postos de trabalho nos hospitais, é preciso reabrir as camas para reanimação e as outras, deve ser parada a desprogramação das operações clínicas já marcadas, medida cujo resultado seria um agravamento do número de mortes.

O Governo não pode fazer isso, porque a sua política não é proteger as populações, mas sim proteger o capital. Vemos o resultado dessa política de enormes verbas concedidas a grandes empresas, com o anúncio altamente simbólico da farmacêutica Sanofi que – em plena pandemia – anunciou o despedimento de quatro centenas de investigadores. Vemo-lo também na decisão do Governo, no meio de uma pandemia, de encerrar os hospitais de Beaujon e de Bichat.

Portanto, nenhuma confiança, nenhum apoio – seja de que forma for – a este Governo.

Crónica de Lucien Gauthier, publicada no semanário francês “Informations Ouvrières” – Informações operárias – nº 643, de 14 de Fevereiro de 2021, do Partido Operário Independente de França.

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(1) Instituto Nacional das Estatísticas e dos Estudos Económicos, o equivalente do INE em Portugal.

(2) Instituto Nacional da Ciência e da Investigação Médica.

(3) Existem também os números fornecidos pela Saúde Pública de França, mas isto só diz respeito a mortes nos hospitais, e há 47% de defuntos fora do sector hospitalar.

(4) Didier Raoult é um médico e microbiologista francês que leciona doenças infecciosas na Universidade de Aix (em Marselha).