Estivadores de Setúbal mostram o caminho!

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Trabalhadores na cidade portuária de Emden (Alemanha) recusam-se a descarregar um navio procedente de Setúbal, em solidariedade com a greve dos estivadores portugueses.

A actividade no Porto Setúbal – quase parada durante praticamente um mês, porque a esmagadora dos jornaleiros que, há anos seguidos, assegura a carga e descarga da maioria dos barcos, decidiu unir-se e ficar indisponível para trabalhar – ficou, no momento em que se escreve este artigo (1), totalmente paralisada, já que os poucos que são efectivos decidiram entrar em greve, em acção solidária com todos os outros.

Esta foi a sua resposta à acção do Governo que, com uma força policial, forçou a abertura do caminho para que o grupo de trabalhadores não pertencente ao Porto de Setúbal – transportado de autocarro para o porto paralisado – efectuasse um carregamento de automóveis fabricados na AutoEuropa.

E é com todos os estivadores paralisados que a ministra do Mar foi obrigada a reunir, à mesma mesa, dirigentes do Sindicato dos Estivadores e da Atividade Logística (SEAL), representantes das duas Centrais sindicais e os representantes das empresas que apostam em manter os trabalhadores à jorna, e até agora recusavam a negociar fosse o que fosse, com os estivadores indisponíveis para trabalhar.

As reuniões continuam, estando o SEAL em vias de conseguir um acordo para o contracto colectivo de trabalho, a tempo indeterminado, de imediato para 56 trabalhadores; bem como a aceitação da exigência de uma situação semelhante para os restantes 37, que deverão ficar por enquanto a trabalhar por turnos, mas com uma situação já regularizada.

“Nem um passo atrás”, dizem os trabalhadores em luta

Uma luta que não irá parar, mesmo se os patrões cederem em Setúbal. Pois, como afirma o Presidente do SEAL, António Mariano (AM), ela inscreve -se num processo global para enfrentar a ofensiva contra o conjunto dos estivadores, que não aceitam diferenciações nos seus salários e condições de trabalho, como não aceitam o trabalho precário, como continua a acontecer na maioria dos portos do nosso país. Tal como não aceitam a descriminação negativa dos trabalhadores do Porto de Leixões, por estarem sindicalizados no SEAL.

“O Governo procura intoxicar a opinião pública, fazendo coro com os patrões, sobre os prejuízos destes. Não sabemos quais são esses prejuízos, pois as suas contas são obscuras; mas sabemos calcular a angústia de quem chega ao fim do mês sem dinheiro na conta, para poder viver, como aconteceu já a trabalhadores do Porto de Leixões, que se viram obrigados a deixar a sua casa por não terem dinheiro para a renda. Tudo isto por pagar uma quota para o SEAL.”, afirmou AM, em conferência de imprensa.

É um passo muito importante, numa luta por parte de quem afirma: “A precariedade não é para estivadores, nem para ninguém”.

Uma luta solidária que mantem ligados, actualmente, os trabalhadores de todos os portos portugueses sindicalizados no SEAL, em greve ao trabalho extraordinário, até os patrões recuarem na discriminação dos trabalhadores em Leixões.

Uma luta que custa, neste momento, processos disciplinares contra os trabalhadores dos portos da Região Autónoma da Madeira.

Mas estes trabalhadores afirmam, com o seu sindicato: Nem um passo atrás!

Os acontecimentos com os estivadores de Setúbal, com o seu sindicato, e a actuação do Governo, permitem tirar muitas conclusões. Esta greve é certamente motivo de debate no seio dos militantes organizados que lutam nos seus sectores, com as maiores dificuldades. Muitos se hão-de questionar sobre a natureza de um Governo, assente em acordos à esquerda, quando não hesita em atacar aqueles que elegeram as forças políticas que o sustentam, para garantir que continue a exploração desenfreada dos grandes capitalistas. Muitos se hão-de questionar sobre como é possível apenas criticar e fazer perguntas ao Governo, sobre um ataque desta envergadura. Um ataque que é expressão de todas as medidas de destruição dos direitos laborais – nomeadamente o Banco de horas, a caducidade dos contratos colectivos e a Lei dos despedimentos – que o governo de António Costa se recusa revogar e, pelo contrário, se prepara para acentuar com base no novo Acordo da Concertação Social.

Trata-se de uma reflexão que precisamos de partilhar uns com os outros, sabendo todos que não nos resta outro caminho senão a luta para ajudar a desenvolver a iniciativa da nossa classe, para a mobilização generalizada e unida com as organizações sindicais, como maneira de impedir que os ataques prossigam e retomar todas as conquistas sociais produto da Revolução do 25 de Abril, dos direitos laborais aos sociais.

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(1) Este artigo foi publicado no jornal “O Militante Socialista”, nº 138 (de 3 de Dezembro), editado sob a responsabilidade do POUS.

 

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