Coletes amarelos: Exigências vitais que continuam colocadas

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Transcrevemos o Editorial do semanário Informations ouvrières (Informações operárias) nº 532, de 6 de Dezembro, escrito por Maryse Launais, membro do Secretariado nacional do Partido Operário Independente (POI), que é responsável pela sua publicação.

Desde há três semanas, um movimento profundo atravessa o país. Originado pela rejeição da subida dos impostos sobre los combustíveis, coloca agora exigências democráticas e sociais vitais. Centenas de milhares de trabalhadores, de jovens e pensionistas dizem: “Basta de salários e pensões congelados, basta de baixa do poder de compra que não pára de diminuir. Basta das consequências das políticas aplicadas por todos os governos, desde há dezenas de anos, que destroem os empregos, que liquidam os serviços públicos,…”

Aos milhares, eles exigem a demissão de Macron que concentra nele toda a indignação. No mesmo momento, a imprensa informa sobre as exigências estabelecidas, em todo o lado, pelos coletes amarelos. Alguns jornais escrevem: “Deputados de França, fazemos chegar as directivas do povo para que as transponham em leis (…). Acatai a vontade do povo. Fazei aplicar essas directivas.” Toda a gente pensa nos cadernos de queixas da Revolução Francesa. A miúdo, é colocada a defesa de algumas conquistas operárias: “O sistema de pensões deve continuar a ser solidário e, portanto, socializado. Não à aposentação por pontos.”

Todos dizem: “Não queremos este Governo, esta política.” Não esperam nada desta Assembleia sem poderes. O que se expressou nas últimas eleições, sob a forma do “dégagisme” (1) ressurge agora de maneira explosiva, fazendo abalar o poder. É isto que semeia o pânico nas altas esferas.

Em Paris, no passado dia 10 de Novembro, 2500 militantes procedentes de todos as regiões de França, convocados pelo Comité Nacional para a Resistência e a Reconquista, reunimo-nos em defesa de todas as conquistas arrancadas em 1936 e 1945, mas também das da República. Para ajudar à resistência, construir em toda a parte comités e forjar, em conjunto, uma autêntica força política para a satisfação de todas as reivindicações.

Naturalmente, muitos de nós temos estado actualmente nas barricadas e nas manifestações, com Informations ouvrières, para dialogar.

Por mais que desagrade a todos os que hoje caluniam este movimento, a luta de classes não é um cenário escrito de antemão.

Ao mesmo tempo que o movimento se expressa, sob uma forma que ninguém tinha previsto, as exigências vitais de milhões e milhões expressam-se também nas organizações sindicais, através da vontade de colocar as reivindicações. “É o momento”, dizem com razão os militantes, como mostram as contribuições que chegaram a Informations ouvrières. Compreenderam-no os estudantes dos liceus que exigem a retirada de Parcoursup (2) e da reforma do bac (bacharelato), que pretende excluir milhares de jovens do direito a prosseguir os seus estudos.

Macron, o patronato e os defensores do sistema estão alarmados. No meio deste pânico, Macron – sem deixar de desencadear a repressão, em particular contra a juventude – anunciou a 4 de Dezembro, através do seu Primeiro-ministro, o que a imprensa qualifica como um primeiro retrocesso. Mas as exigências expressas em todo este levantamento continuam colocadas.

Nesta situação, multipliquemos – nos bairros e nas empresas – as reuniões ao apelo do Comité Nacional de Resistência e de Reconquista.

(1) Recusa de votar nos partidos franceses tradicionais.

(2) Prova final do bacharelato e de acesso à universidade.

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Irrupção da juventude

Uma imensa indignação expressa-se no país. E, neste contexto, centenas de jovens estudantes do Secundário saem às ruas convocados inicialmente pelo sindicato estudantil, união nacional dos estudantes liceais (UNL), a que se juntou depois o Sindicato Geral de Estudantes de Bacharelado (SGL). Muitos dizem: “Os coletes amarelos são nossos pais, nossos avós…”. As suas palavras de ordem são: “Demissão de Macron”, “Não ao Parcoursup”, “Não à reforma do bacharelato”,… O Governo julgava que essas contra-reformas eram um assunto já resolvido. Mas os jovens não querem o futuro de exploração que este sistema capitalista e este Governo lhes reservam. Rejeitam a desqualificação, a subida das propinas universitárias. Querem poder seguir os estudos da sua escolha. Não querem as reformas de Macron. Têm razão.

Em Nice, na segunda-feira 3 de Novembro, foram fechadas com cadeados as grades do Tribunal de Primeira Instância. Uma multidão de estudantes agrupa-se em frente das grades. Mais de quatro mil manifestam-se no Departamento contra a reforma do bacharelato, a lei O.R.E. [Orientation et réussite des étudiants, ou Orientação e sucesso dos estudantes, em tradução livre] e do Parcoursup. “Protestamos contra la subida das propinas universitárias. Reclamamos o aumento do montante das bolsas de estudo”, declaram.

“Esta reforma mete medo”, diz uma estudante de Marselha. “De qualquer modo, será finalmente o Parcoursup a decidir. Um programa informático decidirá o nosso futuro”. “E, numa palavra, haverá um bac para os bairros chiques e outro para os bairros do norte”.

A 30 de Novembro, em Lorient, 800 estudantes dirigiram-se ao depósito petrolífero da cidade para apoiar os coletes amarelos. Um estudante explica: “Em Maio de 1968, o poder cedeu para tentar recuperar tudo a seguir. O problema é o sistema.”

Em Rhône, a 3 de Dezembro, os alunos reuniram-se em frente às portas do seu Instituto. Preocupa-os a desaparição de algumas opções. “Os que vivemos em zonas rurais, não temos as mesmas opções que os urbanos. Não podemos fazer mais 20 quilómetros para cursar os estudos da nossa preferência.”

Em Tarbes, a 30 de Novembro, mais de mil estudantes manifestaram-se nas ruas gritando “Macron demissão” e “Não queremos o Parcoursup”. Denunciam as dificuldades para aceder ao ensino superior, a subida das propinas universitárias e o incerto futuro profissional que os espera no departamento de Hautes-Pyrénées: este departamento sofreu, nos últimos trinta anos, uma desindustrialização massiva, tem uma taxa de desemprego que está entre as mais elevadas da região, e também cortes generalizados nos serviços públicos. Os estudantes, a que se juntaram os coletes amarelos e delegações da União Departamental CGT 65 e da União local de Tarbes, prometem continuar a sua mobilização.

Tomadas de posição dos sindicatos e repressão

A 3 de Dezembro, o ministro de Educação Nacional, Jean-Michel Blanquer, declarou: “Muitas pessoas tentam meter-se no protesto dos coletes amarelos para tudo, para qualquer coisa.” Nesse mesmo momento, em todo o país, o Governo envia os CRS (Companhias Republicanas de Segurança) contra os estudantes. Uniões departamentais e federações sindicais denunciam a repressão e tomam posição para que esta cesse.

Hoje foi conhecida a vergonhosa actuação das “forças da ordem” contra 146 jovens estudantes em Mantes la Jolie, cidade da periferia de Paris, detidos e obrigados a ajoelhar-se com as mãos na cabeça.

Em Rennes, foi estabelecida a ligação

A ligação foi estabelecida entre os “coletes amarelos” e as organizações sindicais operárias (CGT, CGT-FO, FSU e alguns militantes de Solidaires).

Quando, no dia 1 de Dezembro, às 11h, estava a realizar-se uma concentração intersindical (ao apelo das Uniões departamentais da CGT, da FO e da FSU), centrada sobre as reivindicações – aumento dos salários, das pensões de aposentação e do rendimento social mínimo – juntaram-se aos 300 manifestantes várias centenas de coletes amarelos, que foram aplaudidos pelos sindicalistas. Alguns “coletes amarelos” quiseram protestar, mas o conjunto dos participantes gritou: “Todos juntos! Unidade!”.

Os responsáveis sindicais tomaram a palavra. A seguir, os “coletes amarelos” partiram em manifestação – gritando palavras de ordem contra a baixa do nível de vida e fazendo um apelo aos sindicalistas para que se manifestem com eles, apelo a que respondeu uma boa parte dos militantes sindicais: coletes amarelos e vermelhos desfilaram lado a lado.

Última hora

 Depois da publicação do editorial e das reportagens que reproduzimos, a “moratória” de seis meses, anunciada pelo Primeiro-ministro, da subida dos impostos sobre os combustíveis transformou-se, em 24 horas, em anulação, anunciada por Macron a 5 de Dezembro. “Enquanto Edouard Philippe estava na tribuna da Assembleia Nacional, o Palácio do Eliseu deu a conhecer que a linha de orientação mudou”, resume o jornal Le Figaro. Mas “para quase 8 de cada 10 franceses, os anúncios do Governo não respondem às expectativas expressas pelos «coletes amarelos»”, segundo a Agência France Press. Nas altas instâncias há um clima de loucura. “Tudo pode virar-se”, diz alarmado o jornal L’Opinion, em vésperas das novas manifestações de 8 de Dezembro.

Um exemplo, entre muitos outros, que mostra até que ponto é fundado esse alarme e como, efectivamente, o preço dos combustíveis não foi mais que a fagulha que incendiou a fogueira da indignação, é o caderno reivindicativo elaborado pelos coletes amarelos em Saint-Nazaire (Loire-Atlantique): “Demissão de Macron; descida dos preços dos produtos de primeira necessidade (combustíveis, água, gás, electricidade, habitação, etc.); aumento dos salários, das pensões e dos salários mínimos, sem decréscimo das quotizações sociais; restabelecimento do ISF (Imposto de Solidariedade sobre as Fortunas) e luta contra a evasão fiscal para financiar os serviços públicos e a transição energética; repartição igualitária das riquezas; desenvolvimento das energias renováveis; nacionalização do sector energético, dos bancos e das autoestradas; direito de retirar o mandato aos representantes eleitos, a todos os níveis; subsídios para estes eleitos de acordo com o rendimento médio; dissolução do Governo e refundação da nossa República pelas assembleias representativas do povo; respeito pelos direito das crianças (educação, saúde, etc.); tradução na prática da nossa divisa: liberdade, igualdade, fraternidade.”

 

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