As Jóias da Coroa Britânica: a que preço?

“O Sol nunca se põe no Império”. Esta fórmula, que passou à posteridade, resume o facto de que, no início do século XX, o Império Britânico – primeira potência imperialista mundial – abrangia 23% do planeta e detinha um quarto da população mundial sob a sua tutela. Começando pela Irlanda martirizada, nas imediações do Reino, até aos territórios mais longínquos (Índia, Austrália, África, América, Nova Zelândia, Médio Oriente,…).

CÚMPLICE NO TRÁFICO DE ESCRAVOS, MAS NÃO SÓ

Um especialista sobre a questão colonial, o professor Trevor Burnam (da Universidade de Hull), recorda que, já no século XVI, Elizabeth I financiou a primeira viagem dos navios para tráfico de escravos. Ele assinala que países independentes acusam a Monarquia britânica, desde há anos, de ter sido “cúmplice das atrocidades do tráfico de escravos”. Isto é absolutamente verdade, é claro. Mas não só cúmplice, o que já seria um crime. Ela foi promotora, actora e beneficiária da pilhagem geral do mundo, em conjunto com as outras potências europeias. Como símbolo hediondo, a coroa que acaba de mudar de cabeça contém o maior diamante talhado do mundo: pesa 106 gramas, está incrustada no ceptro real e proveio das minas da colónia da África do Sul. Sobre uma das coroas, outro diamante, Koh-i Nor, foi “apanhado” durante a guerra na Índia. No total, os ‘crachás reais’ consistem em 23.578 pedras preciosas, muitas das quais foram extraídas nas colónias. Diz-se que valem mais de três mil milhões de libras esterlinas.

Depois de Portugal e Espanha, com a França e os Países Baixos, sem esquecer a Suécia, a Monarquia britânica esteve no centro do tráfico de escravos. Já no século XVI, a Companhia Real Africana – estabelecida em 1660 por essa Monarquia – obteve imensos lucros com o tráfico de escravos. Só no período entre 1672 e 1731, a Companhia transportou mais de 187.000 escravos de África para as colónias das Américas.

Desde essa altura, o tráfico de escravos, a colonização, o trabalho forçado e a pilhagem em geral têm sido orquestrados e protegidos pela Monarquia e pelo Parlamento britânicos. Os lucros desse comércio contribuíram, poderosamente, para a revolução industrial. A City de Londres não teria o seu lugar central nas finanças internacionais sem esta “acumulação primitiva“, de que Marx falou em meados do século XIX.

Não é, portanto, difícil de compreender por que razão a ‘altamente civilizada’ e cínica classe capitalista britânica reverencia tanto a ‘Sua Graciosa Majestade’.

Muito oficialmente, o novo Monarca herdará 430 milhões de libras esterlinas… livres de impostos. Os seus assuntos são de um excepcional calibre, especialmente porque ele e o seu séquito custarão a bagatela de 100 milhões de libras esterlinas por ano para os manter. Tudo pago pelos contribuintes britânicos. Para já não mencionar outras regalias reais que permitem que os fidalgotes de todos os tipos sejam regados generosamente.

A Monarquia britânica (tal como a sua irmã espanhola) – corroída por escândalos que são difíceis de disfarçar – está actualmente a receber as homenagens dos poderosos de todo o mundo e dos seus apoiantes. Todos eles sabem, na realidade, que o Reino e o sistema que o acompanha são extremamente frágeis, e que não se trata apenas o fim de um reinado, mas do fim de uma era.

REINAR SEM GOVERNAR?

“O monarca reina, mas não governa”, aprendemos nos livros de História. Mas a realidade é mais complexa. A Monarquia britânica e o Parlamento estão associados, os seus interesses estão estreitamente interligados (as multinacionais, a propriedade fundiária, a Bolsa de valores, os bancos, os paraísos fiscais, os cargos e as prebendas que os acompanham).

Portanto, há uma longa história de superação das suas contradições, ligada ao lugar de cada um no edifício constitucional, numa partilha do trabalho necessário para a defesa dos seus interesses comuns, os da classe capitalista. Tudo sob a égide da Igreja Anglicana, a religião estatal e um dos principais proprietários de terras (latifúndios) do Reino.

As ‘jóias da coroa’ na testa do cognominado Carlos III são muito mais do que emblemas. São o resultado do sangue, suor e lágrimas de inúmeros povos em todo o mundo, para já não falar dos trabalhadores do país, tais como os mineiros do País de Gales e da Escócia, os estivadores de Liverpool, os republicanos irlandeses assassinados, e muitos outros.

As pompas fúnebres dispendiosas não podem esconder a realidade da situação e a ansiedade de dignitários de todos os tipos. Há a desestabilização geral aberta pelo Brexit, e poderosas greves dos trabalhadores de diversos sectores têm tido lugar nas últimas semanas. Tendo como pano de fundo uma crise política, económica e social que está a afectar todos os membros da Commonwealth (1).

Em França, o editorialista do Journal du dimanche (10 de Setembro) fala de “canto do cisne”. Com desgosto e amargura.

Não cantámos o God save the Queen (Deus salve a Rainha), e não iremos cantar o God save the King (Deus salve o Rei).

Crónica da autoria de Gérard Bauvert, publicada no semanário francês “Informations Ouvrières” Informações operárias – nº 723, de 14 de Setembro de 2022, do Partido Operário Independente de França.

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(1) A Commonwealth é uma associação voluntária de 53 Estados soberanos. A maioria são ex-colónias britânicas, com exceção de Moçambique (antiga colónia portuguesa) e o Ruanda, que aderiu em 29 de Novembro de 2009.

VASSALAGEM

É para prestar a sua vassalagem a esta Coroa que o Governo português (do PS!) acaba de decretar 3 dias de luto nacional…

A NATO, ontem e agora (1ª parte)

Tanques pesados norte-americanos são colocados na base do Prabade, na Lituânia, em Outubro de 2019, sob a supervisão de soldados do Exército dos EUA.

A guerra na Ucrânia trouxe para primeiro plano da actualidade esta Aliança militar, fundada e liderada de facto pelo governo dos EUA, cujo campo de acção não parou de evoluir.

O Tratado do Atlântico Norte, que criou a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN, ou NATO na sigla em Inglês), foi assinado em Washington, a 4 de Abril de 1949, por doze países: Bélgica, Dinamarca, França, Islândia, Itália, Luxemburgo, Países Baixos, Noruega, Portugal, Reino Unido, EUA e Canadá. No início deste processo (1941-1945), os EUA – a espinha dorsal desta Aliança – já não desejava estar directamente envolvido no Velho Continente, contando com o Reino Unido para aplicar a Carta Atlântica, assinada a 14 de Agosto de 1941. Foi realizada em Washington uma Conferência, entre 22 de Dezembro de 1941 e 14 de Janeiro de 1942, que definiu em detalhe os aspectos militares da Aliança: as áreas de operação foram identificadas e submetidas a um Comando interaliado, e foi constituído um Estado-Maior conjunto (com sede em Washington).

Entre as conferências de Teerão (Dezembro de 1943), Yalta (Fevereiro de 1945) e Potsdam (Julho de 1945), os EUA, o Reino Unido e a URSS de Estaline dividiram a Europa e o resto do mundo em zonas de influência. O acordo tácito continuou sempre a ser evitar que a guerra – “um acelerador vigoroso da História” (Lenine) – não transforme a raiva dos povos em revolução. Nesta partilha geográfica, a Europa tornou-se mais uma vez um desafio. A criação da NATO – uma estrutura militar – corresponde à afirmação do domínio imperialista dos EUA. A pretexto de defesa, esta coligação militar é transformada numa aliança, para dissuadir o eventual agressor: a URSS, bem como todos os países que erradicaram o capitalismo.

Em 1947, o Presidente Truman dos EUA apelou à “contenção do avanço comunista”, e a NATO tornou-se no braço-armado da política norte-americana. Tira a sua “legitimidade” do Artigo 5 do Acordo do Tratado do Atlântico Norte. “Uma segunda função é uma função implícita: a integração dos Estados aliados. De facto, a Aliança Atlântica criou uma interdependência entre os Estados-membros e imbuiu as suas elites governantes de uma cultura comum” (1). A “cultura comum” é a defesa do capitalismo, o regime da propriedade privada dos meios de produção. O primeiro Secretário-Geral da NATO declarou que o seu papel consiste em “manter os Russos de fora, os Americanos dentro e os Alemães sob tutela”. Face à NATO, a burocracia estalinista criou o Pacto de Varsóvia. Entre 1947 e 1989, houve uma subida em flecha das tensões e do sobre-armamento, especialmente em armas nucleares.

“UMA NOVA ERA”

Se ainda hoje o Conselho da NATO é apresentado como uma assembleia de nações com a mesma capacidade de decisão, ele não é nada disso. “Durante a Guerra Fria (…), o equilíbrio militar das potências era o denominador comum entre os Aliados da NATO e a sua linha de acção dominante, com os EUA a desempenharem o papel de líder único da Aliança” (2).

Porque é que a NATO não desapareceu com o fim do Pacto de Varsóvia?

Em 1991, a NATO publicou um artigo intitulado “Antigos adversários tornam-se novos parceiros”: “Seis dias antes da dissolução da URSS, a NATO já tinha reunido os seus membros e os países do antigo Pacto de Varsóvia, em torno da mesma mesa na Sede da NATO (…). Uma nova era estava a começar.” A era da “nova ordem mundial” de Bush sénior: a década de 1990 com mais de 80 conflitos, assegurando assim o escoamento das reservas de armas fabricadas durante a “guerra fria”; e, acima de tudo, onde cada conflito se tornou na bolha de oxigénio necessária à perenidade do Sistema capitalista, e de um dos seus pilares – o complexo militar-industrial.

A NATO esteve envolvida em bombardeamentos e operações terrestres nos Balcãs, no Afeganistão e na Líbia. A existência da NATO está, portanto, organicamente ligada ao uso da força e ao assegurar da manutenção do Sistema capitalista. Trinta países são agora membros desta Aliança.

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(1) Histoire de l’Otan, Charles Zorgbibe, éditions Complexe.

(2) La fabrique de l’Otan, Julien Pomaréde, éditions Sciences politiques de l’université de Bruxelles.

Crónica da autoria de David Gozlan, publicada no semanário francês “Informations Ouvrières” Informações operárias – nº 717, de 3 de Agosto de 2022, do Partido Operário Independente de França.

Privados que engordam com a guerra

Tropas e material de guerra transportados por privados de Lisboa para a Roménia.

Segundo o Diário de Notícias, de 15 de Abril, por “ausência de recursos próprios”, o Exército português contratou transportadoras privadas para levar militares, blindados e outros materiais para as forças nacionais destacadas na Roménia, no âmbito da missão da NATO “Tailored Forward Presence”. A factura é superior a um milhão e 200 mil euros.

PR diz serem necessários sacrifícios…

Presidente da República, referindo-se à Proposta de OE para 2022: “Eu diria que a guerra tem efeitos próprios, em Portugal e na Europa; enquanto durar tem efeitos e isso implica alguns sacrifícios”, e acrescentou que ninguém “deseja que dure para sempre”. (Expresso de 15 de Abril)

“Sacrifícios” pedidos a quem? O PR não está a dirigir-se, seguramente, àqueles que engordam com a guerra…