EUA: O que está em jogo nas próximas eleições

No dia 3 de Novembro, terão lugar nos Estados Unidos da América (EUA) as eleições presidenciais, assim como uma série de actos eleitorais ao nível dos Estados e algumas eleições locais, e também de uma parte dos membros do Senado (34 em 100). O papel dos EUA no mundo, como garantes da “ordem”, torna estas eleições importantes para além das suas fronteiras nacionais.

A forma como a campanha eleitoral tem sido conduzida, particularmente o “debate” televisivo entre Trump e Biden, é uma expressão clara da crise da classe dirigente dos EUA. Recordemos que ambos os partidos (o Republicano e o Democrata) reflectem os interesses da classe dirigente – toda subordinada ao grande capital – embora eles se apoiem em diferentes sectores desta classe, que por outro lado está profundamente dividida.

E a origem desta divisão combina duas questões. A primeira é a profunda crise económica, sem precedentes desde o colapso de 1929, sendo a pandemia simplesmente o seu elemento acelerador.

O segundo elemento, inesperado, foi a explosão revolucionária que tem abalado a sociedade norte-americana desde o assassinato de George Floyd, no passado dia 25 de Maio. Uma mobilização contínua e persistente em centenas de cidades de todo o país, a seguir a este assassinato racista, que tem conseguido juntar a rejeição do racismo sistémico com as exigências sociais de camadas crescentes das classes trabalhadoras, que são massivamente precárias, em particular a juventude. Esta explosão social aumentou as contradições e os confrontos no seio da classe dominante e dos seus partidos.

E uma das suas consequências é que o Estado norte-americano já não pode nem quer desempenhar o papel de gendarme mundial em defesa da ordem capitalista que tem assumido desde a Segunda Guerra Mundial. E o seu efeito diferido é que isto tem um impacto em todos os Governos, à escala mundial, que sofrem as exigências do capital financeiro para desmantelarem todas as conquistas sociais e democráticas.

É impossível compreender a forma que assume a crise no nosso país (em Espanha tal como em Portugal – NdT) sem ter em conta este elemento essencial. Ganhe quem ganhar as eleições nos EUA, a crise vai continuar e será um apelo directo à resistência.

Angel Tubau, 10 de Outubro

Crise sanitária? Crise política!

Um imperativo determinou a política de Trump desde o início do Covid-19. Ligado aos sectores industriais do imperialismo norte-americano, ele tem exercido toda a sua influência para manter abertas as fábricas. Trump tem constantemente minimizado o risco do vírus, rejeitando ostensivamente quaisquer medidas de protecção. O seu sucesso nas eleições de 2016 é, em grande parte, explicado pelo voto de um sector de trabalhadores brancos das regiões desindustrializadas em redor dos Grandes Lagos, que foram seduzidos pelo seu programa de reindustrialização. Quatro anos depois disso, ele ainda precisa do seu voto para ser reeleito, e toda a sua gestão de crise é um apelo a este sector da população dos EUA.

Agora Trump apanhou o Covid-19. É difícil dizer que efeito terá este episódio na campanha. Trump não é o único Republicano que contraiu o vírus. Uma boa parte da sua equipa da Casa Branca está também infectada. Após a morte de Ruth Bader Ginsburg, juíza do Supremo Tribunal, coube a Trump nomear a sua sucessora, mas o Senado tem de a confirmar. Os Democratas – que afirmam que a sucessão deve ser decidida pelo futuro presidente – votarão contra a confirmação, e dois senadores do Partido Republicano já anunciaram que partilham o ponto de vista dos Democratas. Assim, o presidente precisa que todos os restantes votos republicanos para a sua candidata, Amy Coney Barrett, sejam confirmados.

A audição de Barrett perante o Comité de Justiça, no Senado, deve ter lugar dentro de duas semanas. Sendo a eleição no dia 3 de Novembro, esta audição não pode ser adiada. Mas a sua realização é incerta, uma vez que dois senadores republicanos desse Comité estão infectados com o Covid-19.

Ao mesmo tempo, em Nova Iorque, o presidente da Câmara democrata, Bill de Blasio, apela ao encerramento das lojas em 9 bairros de Queens e Brooklyn, o que é rejeitado por Andrew Cuomo, Governador democrático do Estado de Nova Iorque.

Por seu lado, a American Airlines prepara-se para despedir 19.000 dos seus empregados, após ter adiado esse plano de despedimentos em troca de ajuda federal. Os planos de reestruturação vão atingir os trabalhadores e isso provocará reacções. E as manifestações de protesto contra o Sistema e o racismo nos EUA continuam.

A epidemia continua também, a crise económica agrava-se. Esta crise está enraizada na do capitalismo. Wall Street está preocupada com a situação “a qual mergulhará o país na incerteza” (Les Échos, 1 de Outubro de 2020).

Devan Sohier, 8 de Outubro

Artigos publicados no periódico Información Obrera – Tribuna livre da luta de classes em Espanha – Suplemento especial nº 19, de 14 de Outubro de 2020.

EUA: “O próximo presidente herdará uma nação – e um mundo – em crise”

A um pouco mais de um mês das eleições, a campanha das Presidenciais nos EUA está a acelerar. O New York Times, apoiante de Biden, publicou a 27 de Setembro um artigo sobre as declarações de rendimentos do Presidente dos EUA, que este sempre se recusou a tornar públicas, ao contrário da tradição norte-americana.

Estas declarações mostram que as suas empresas – cuja gestão ele sempre elogiou como prova da sua capacidade para dirigir bem os assuntos de Estado dos EUA – perdem milhões de dólares todos os anos.

Elas também mostram declarações de despesas comerciais (não tributáveis) cuja legalidade parece questionável: 70.000 dólares em honorários de cabeleireiro, algumas centenas de milhares de dólares pagos à sua filha como consultora,…

Como resultado, ele não pagou nenhum imposto federal sobre o rendimento durante vários anos, e tanto em 2016 (o ano da sua eleição) como em 2017, pagou $750, menos do que um norte-americano médio. Isto é anedótico, mas revela a crise em que está mergulhado o aparelho de Estado dos EUA. Donald Trump foi eleito em 2016 como expressão desta crise e só contribuiu para a aprofundar. Ameaça agora usar a lei de 1807 contra insurreições, para subjugar as manifestações Black Lives Matter.

Esta lei, que permite ao Presidente utilizar os militares para reprimir um movimento insurrecional, foi utilizada amplamente ao longo da década de 1860 durante a luta para impor os direitos civis no Sul e, depois, para reprimir violentamente os movimentos pelos direitos civis quando os cidadãos recusaram ficar satisfeitos com a fachada de igualdade que as leis aprovadas lhes deram.

Trump também ameaça não reconhecer o resultado de 3 de Novembro, se ele não lhe for favorável. Tradicionalmente, o voto por correspondência representa 25% dos votos nas eleições norte-americanas e, com as restrições decorrentes do Covid, espera-se este ano uma subida exponencial desta percentagem: Trump coloca em dúvida, com antecedência, a autenticidade destes resultados, e diz-se pronto a contestá-los.

A sua decisão de nomear, na sequência da morte de Ruth Bader Ginsburg, uma nova juíza reaccionária para o Supremo Tribunal, a meio da campanha presidencial, aparenta-se a um golpe de força, apoiado por senadores republicanos, que há quatro anos recusaram que Obama tivesse feito o mesmo oito meses antes das eleições.

Neste contexto, Biden conseguiu o apoio de centenas de diplomatas e de oficiais superiores das Forças Armadas dos EUA, os quais, segundo o New York Times, “teriam apoiado qualquer membro do Partido Republicano, desde que não se chamasse Trump”.

Na sua carta de apoio, eles declaram: “O próximo presidente herdará uma nação – e um mundo – em crise (…). Apenas FDR (1) e Abraham Lincoln (2) ocuparam os seus postos face a crises mais monumentais do que o próximo Presidente.”

E é um facto. O Covid fez explodir a crise económica, latente desde 2008, com o seu cortejo de desempregados e despejos (os quais – proibidos desde 4 de Setembro, na sua maioria – serão retomados de novo a 1 de Janeiro). As manifestações Black Lives Matter continuam, e até recuperaram intensidade, depois de ter sido anunciado que os agentes da Polícia que mataram Breonna Taylor não seriam incomodados.

Por outro lado, as contra-manifestações de grupos violentos de Brancos radicais estão a multiplicar-se. A nível internacional, a guerra comercial com a China está ao rubro, enquanto a situação no Médio-Oriente continua a agravar-se. As sondagens prevêem uma vitória de Biden – mesmo se a experiência de 2016, quando a vitória de Clinton parecia garantida, incita à máxima cautela. Uma reeleição de Trump aprofundaria imediatamente a crise, tanto ao nível interno como internacional. Mas uma vitória de Biden não resolveria, de modo nenhum, os problemas com que o imperialismo norte-americano está confrontado.

A luta da classe operária pela igualdade real entre Negros e Brancos, por um Sistema universal de cuidados de Saúde, em prol de empregos reais com salários adequados está a ter lugar e continuará a seguir a estas eleições, independentemente do seu resultado.

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(1) Franklin Delano Roosevelt, eleito em 1932, em plena crise económica, foi Presidente durante toda a Segunda Guerra Mundial.

(2) Lincoln, eleito em 1860, foi Presidente dos EUA durante a Guerra Civil de Secessão.

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Análise de Devan Sohier publicada no semanário francês “Informations Ouvrières” – Informações operárias – nº 624, de 31 de Setembro de 2020, do Partido Operário Independente de França.

EUA: o caos…

As duas faces da mesma moeda

Quando faltam oito semanas para as eleições presidenciais, é uma estranha campanha eleitoral que tem lugar nos EUA, entre um presidente candidato à reeleição que fala demais, e o seu principal oponente que procura dizer o mínimo possível.

Esta situação é o resultado da fuga para a frente desenvolvida tanto pelos Republicanos como pelos Democratas, que procuram uns e outros trazer de volta estabilidade a um sistema político profundamente abalado pela crise económica que o Covid-19 veio agravar.

Por um lado, Trump apoia-se nos instintos mais abjectos de uma camada de Brancos marginalizados pelo Sistema para lançar a culpa de todos os problemas sobre os imigrantes. Por outro lado, Biden está a tentar tirar partido deste posicionamento de Trump para se apresentar como a encarnação do progressismo.

Mas, no final, Trump propõe um programa que, em quatro anos como presidente, ainda não conseguiu margem de manobra para aplicar, enquanto Biden se inscreve na continuidade da política norte-americana dos últimos vinte anos.

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