SRI LANKA: “Sair de 74 anos de mentalidade de escravo!”

Militantes manifestam-se em Colombo, a 16 de Julho, para exigir a libertação dos prisioneiros políticos recentemente detidos recentemente.

Damos a palavra a Marisa de Silva, coordenadora da Aliança Popular pelo Direito à terra (Parl)

O que aconteceu a 9 de Julho?

O 9 de Julho (ver o nosso post de 14 de Julho – NdR) não pode ser visto sem ter em conta a situação anterior. O 9 de Julho é o ponto culminante. Se olharmos para ele a partir do início da luta, vêem-se meses de frustração; mas, se olharmos para ele de uma forma mais ampla, está a sair-se de setenta e quatro anos de mentalidade de escravo. Setenta e quatro anos de insatisfação, traição e raiva contra os políticos que falharam, que os oprimiram, que não os conseguiram proteger.

O 9 de Julho deve ser visto como um ponto culminante, porque a jornada foi conduzida pela juventude. O povo do Sri Lanka só quer que a sua voz seja ouvida. Houve um apelo feito da Galle Face (a praça central em Colombo) para que o país saia para a rua, venha para Colombo, de todas as formas possíveis. O objectivo era acabar com a situação actual, provocar um confronto, tendo como resultado político acabar com este Governo, expulsar do poder este Presidente e este Primeiro-Ministro.

O Governo está a tentar limitar o número de manifestantes. Para o fazer, instituiu um recolher obrigatório policial, o que é ilegal, porque a Polícia não autorizada a fazê-lo. Depois também utilizou os sindicatos governamentais para impedir que os comboios entrassem em Colombo. Mas, teve de recuar perante a massa de pessoas que queria apanhar o comboio. E assim os comboios estavam a circular na manhã seguinte. Para o recolher obrigatório ilegal, havia advogados no processo de luta, pessoas e influenciadores das redes sociais de todo o país que – meia hora após o Governo ter anunciado essa decisão – utilizaram as redes de comunicação social e disseram às pessoas para virem, explicando porque é que o recolher obrigatório era ilegal. Isso espalhou-se como um rastilho de pólvora e, claro, vieram muitas pessoas. Havia uma enorme lacuna entre o que o Governo dizia e a realidade.

De manhã até à noite, as pessoas afluíram a Colombo. Vinham em camiões, vinham em “tuktuks”, vieram em qualquer meio de transporte possível. Estávamos determinados a vir-nos manifestar, qualquer que fosse o oque o governo nos pôs à frente. De facto, havia milhões de pessoas a querer invadir os palácios do Governo e o palácio presidencial.

O que é que os manifestantes exigem? Estão os sindicatos representados? E os partidos políticos?

A ocupação dos palácios aconteceu em seguida. Principalmente porque o Presidente e o Primeiro-ministro não as reivindicações, mas sobretudo porque eles já não tinham o mandato do povo. Rajapaksa (o Presidente) procurou, até ao último momento, um acordo que lhe permitisse sobreviver. A ocupação da Presidência, do palácio presidencial e da residência oficial do Primeiro-ministro pôs fim a essa ilusão. O povo ocupou os palácios governamentais não para que cada indivíduo utilizasse essas residências, mas sim como um meio de pressão. Neste sentido, o 9 de Julho foi o culminar de vários meses de luta económica, de uma crise humanitária onde não houve combustíveis (nomeadamente gasolina) nem medicamentos adequados. As pessoas têm dificuldade em sobreviver. As pessoas estão a morrer. As famílias estão a desmantelar-se. Há pessoas a suicidar-se. É uma época horrível, mas ela é o resultado de décadas de dirigentes que têm oprimido sistematicamente as pessoas.

Os manifestantes são um reflexo da sociedade: em grande parte, o cidadão médio, os jovens, os anciãos. Todos liderados pelos jovens. Há, evidentemente, as organizações de massa, os sindicatos, a sociedade civil, os partidos políticos (os pequenos e grandes partidos). Dentro da luta, eles foram identificados através dos seus grupos de jovens, dos seus estudantes. A classe operária estava representada em todos os seus componentes: grupos de mulheres, Tâmiles (1), Muçulmanos, trabalhadores das plantações. Inicialmente, houve uma relutância das populações do Norte e do Leste em participarem, porque estiveram sujeitos a muitos problemas, durante inúmeras décadas, e o Sul ignorou-os em grande parte ou não os apoiou.

Mas a crise económica está também a afectá-los, e se as coisas mudarem no Sul são geralmente as minorias que suportarão as consequências. Eles apoiaram o apelo amplo para avançarem para os centros de poder, não apenas por razões económicas, mas também por outras razões tais como crimes de guerra, raptos e desaparecimentos que os Tâmiles e os Muçulmanos têm enfrentado ao longo das décadas. Havia uma ampla representação deles nesta luta.

E que se passa com o Governo? O que é que fazem a Polícia e o Exército?

Obviamente que o actual Governo não é estável. Há um Primeiro-ministro sem mandato, que foi agora nomeado Presidente. Tudo repousa sobre o Parlamento, com um anúncio de eleições a realizar muito em breve, uma vez que é esta a principal exigência dos manifestantes.

Este é o primeiro passo para a estabilidade política de que necessitamos para resolver a crise económica e humanitária que estamos a enfrentar. Portanto, eu diria que o Governo deve demitir-se, porque não tem mandato do povo, não tem mandato político. Isto tem de ser feito. O actual Regime presidencial deve ser abolido. Muitas medidas devem ser tomadas, entretanto, por um Governo provisório e, claro, medidas urgentes para lidar com a crise económica.

No que diz respeito à Polícia e ao Exército, das suas prioridades anunciadas parece ser a formação de um “Comité composto por oficiais militares e policiais para manter a ordem pública”. Nós sabemos como isto pode ser interpretado e, obviamente, utilizado para reprimir os manifestantes, que continuam a protestar. A Polícia está a reforçar a segurança dos membros do Parlamento que possam apoiar o seu Comité, se isso for necessário. Percebe-se que este tipo de Comité militarizado sirva para intimidar e suprimir qualquer dissidência.

A 16 de Julho, os militares continuavam estacionados nas ruas. Não sabemos se isso vai durar.

E agora, em que fase está a mobilização?

Os manifestantes pedem a demissão imediata dos governantes e o anúncio de eleições num futuro muito próximo. Acabam de ser formados Conselhos populares, com representantes de todo o país, que será um órgão de poder, de contrapeso, que validará as leis aprovadas pelo Parlamento. Deste modo, isto dará essencialmente poder ao povo e indicará onde o Parlamento não poderá agir. Está a começar a ser elaborado um novo documento, baseado nas reivindicações, que servirá de suporte para a acção destes Conselhos.

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(1) Trata-se de um grupo étnico nativo de Tâmil Nadu (um Estado da Índia) e da região nordeste do Sri Lanka.

Entrevista concedida ao semanário francês “Informations Ouvrières” Informações operárias – nº 715, de 20 de Julho de 2022, do Partido Operário Independente de França.

SRI LANKA – “É a revolução”: Milhares de manifestantes assaltam a residência do Presidente, a 9 de Julho (The Straits Times, 10 de Julho de 2022)

Com o Presidente Gotabaya Rajapaksa em fuga, os manifestantes assaltam o Palácio presidencial, em Colombo.

“É uma situação revolucionária”; “Revolução em curso no Sri Lanka”; “Revolta massiva” – Estes são os termos usados pela imprensa internacional para descrever os recentes acontecimentos na capital do país, Colombo.

Reunindo-se durante meses na Praça Galle Face, os trabalhadores (especialmente urbanos), os sindicalistas e os militantes partidários têm contribuído para manter este movimento que exige:

– a saída imediata dos corruptos – incluindo o presidente Gotabaya Rajapaksa e o Primeiro-ministro Ranil Wickremesinghe – que organizaram o massacre dos Tamiles;

– o estabelecimento de um sistema de distribuição de bens de primeira necessidade, o congelamento dos preços, a suspensão do pagamento da Dívida externa;

– o estabelecimento de investigações contra a corrupção e a fuga de capitais e bens pertencentes ao país, e, portanto, ao povo.

A 9 de Julho, enquanto o Regime de Rajapaksa só tem conseguido aguentar-se através da repressão policial, centenas de milhares de trabalhadores quebraram o último dique que os separava do Poder. Eles entraram no recinto do secretariado da Presidência, em Colombo.

Minutos antes, o Presidente da República tinha fugido do Palácio presidencial, tendo o Presidente do Parlamento anunciado que ele se demitiria a 13 de Julho. Não é claro se isto se verificará, o que acentua a raiva dos manifestantes.

Cenas de alegria atravessaram as redes sociais: há manifestantes deitados na cama de Gotabaya, outros a nadar na sua piscina ou a utilizar o seu ginásio e os jardins luxuosos, mas é certamente o vídeo com manifestantes no Palácio presidencial, em torno de uma mesa de reuniões – simulando discussões entre o Presidente do país e o Fundo Monetário Internacional – que foi o mais marcante. No final, o representante do FMI diz “Eu amo este país”, e o Presidente entrega-lhe as chaves do país. Isto diz tudo.

O povo do Sri Lanka existe há muitos anos. Ainda a 7 de Julho, o Governador do Banco Central do Sri Lanka, Nandalal Weerasinghe, tinha aumentado os juros dos empréstimos, numa tentativa para conter os preços recorde que têm alimentado a inflação mais alta da Ásia. Entretanto, o Primeiro-ministro Ranil Wickremesinghe diz que as conversações com o FMI são complicadas, porque o país está falido. Desde há meses que o povo está a sofrer e que este Governo de corruptos se mantém, vendendo a potências estrangeiras o país, as terras e as infra-estruturas.

Desde 9 de Julho, o Sri Lanka tem feito tremer a ordem mundial imposta pelos imperialistas. Na capital Colombo – como noutras cidades do país, tal como Jaffna – “muitos políticos vêem o chão desmoronar-se sob os seus pés”. Avaliando a dimensão do terramoto, o Departamento de Estado dos EUA “apela ao Parlamento do Sri Lanka para abordar a situação com um firme compromisso de melhoria do país”.

De facto, o Parlamento continua a ser o último dique para preservar os interesses imperialistas. Percebendo que a data de 13 de Julho é muito longínqua, “o Presidente do Parlamento, Mahinda Yapa Abeywardana, informou Rajapaksa sobre as decisões tomadas numa reunião de emergência de líderes partidários, a 9 de Julho, convocada em resposta aos protestos de massa em Colombo. A carta solicitava a demissão imediata de Rajapaksa e de Wickremesinghe, e previa a convocação do Parlamento no prazo de sete dias para nomear um Presidente interino.”

A determinação do povo do Sri Lanka permanece inabalável, e a vontade das castas no Poder de aliviar a pressão, bem como de esvaziar o Palácio presidencial das centenas de manifestantes que o ocupam, parece não ter qualquer influência. Tanto mais que o Presidente em fuga nunca confirmou que iria demitir-se a 13 de Julho. O Exército permanece cauteloso e anunciou, a 10 de Julho, que não iria intervir.

Como afirma o financeiro Lionel Zinsou, ex-Primeiro-ministro do Benim e conselheiro de vários governos de países emergentes: “O que está a acontecer no Sri Lanka pode repetir-se. Esta revolução popular preocupa-nos e não nos deve deixar indiferentes. (…) O que a crise do Sri Lanka mostra é que a bússola dos países emergentes está actualmente enlouquecida. Com todos os riscos que isso implica” (jornal diário suíço).

Crónica de Dharesh Hake publicada no semanário francês “Informations Ouvrières” Informações operárias – nº 714, de 13 de Julho de 2022, do Partido Operário Independente de França.