Cazaquistão: Levantamento popular e intervenção russa

A revolta no Cazaquistão, na sequência de outras mobilizações populares nas Repúblicas da Ásia Central, como o Quirguizistão, ameaçam o equilíbrio nesta região. A Ásia Central é rica em matérias-primas e fica próxima da Rússia, mas também do Irão e do Afeganistão. A chegada dos Talibãs ao poder no Afeganistão tem causado grande preocupação entre os governos da Ásia Central, mas também da Rússia e do Irão. Foi perante esta situação e as suas repercussões na região e na própria Rússia que Putin decidiu enviar tropas para restabelecer a ordem no Cazaquistão. A União Europeia e os EUA estão a manifestar preocupação com esse país, mas na realidade eles estão preocupados com as repercussões regionais e globais desta situação. Sobre este assunto, publicamos um artigo de Anton Poustovoy, o nosso correspondente na Rússia.

Desde a independência do Cazaquistão, há trinta anos, a economia desta República tem sido uma das mais bem-sucedidas na Ásia Central. É verdade que tudo isto foi conseguido graças à venda de minerais: cerca de 40% das reservas mundiais de urânio estão no Cazaquistão e a principal razão para o crescimento económico é a venda de petróleo.

No entanto, apesar desta entrada de dinheiro fácil no país, ele é desigualmente distribuído pela sociedade, onde a maioria da população é pobre. Para além das desigualdades sociais, a corrupção e o nepotismo florescem na República.

Hoje, os 162 Cazaques mais ricos já se apoderaram de mais de 55% da riqueza nacional. E isto passa-se no contexto de um regime político cujos rostos não mudaram desde a ditadura da nomenclatura dos partidos soviéticos.

Os protestos começaram a 2 de Janeiro na aldeia operária de Zhanaozen, no oeste da República. Os trabalhadores foram para as ruas contra a subida para o dobro do preço do gás, que é utilizado pela maioria dos automóveis na Ásia Central. Estas manifestações pacíficas espalharam-se rapidamente a todas as regiões do país.

Após a violenta repressão feita pela Polícia, os manifestantes também começaram a reagir. O número de manifestantes aumentou bastante mais do que o número de polícias, os manifestantes desarmaram a Polícia e levaram com eles as suas munições.

O saque de edifícios de escritórios e de lojas de venda de armas começou. Os manifestantes agora têm armas. Oficiais da Polícia e do Exército ter-se-ão colocado ao lado dos manifestantes.

As autoridades máximas da República, longe de compreender a gravidade da revolta, agiram com desprezo. A sua primeira reacção foi responder às exigências do povo, que, após as exigências económicas, se voltou fortemente para exigências políticas – em particular a demissão do Governo, a 5 de Janeiro, assegurado pelo partido Nur Otan (Luz da Pátria). Mas a mobilização continuou, e a segunda acção das autoridades foi apelar a uma intervenção militar externa, da Rússia e dos países da Organização do Tratado de Segurança Colectiva (CSTO), apelo ao qual o Kremlin reagiu rapidamente, concordando em enviar as suas tropas para reprimir os protestos no país.

O bloco militar da Organização do Tratado de Segurança Colectiva (assinado pela Federação Russa, a Bielorrússia, a Arménia, o Tajiquistão, o Quirguizistão e o Cazaquistão) nunca tinha funcionado até agora.

Apenas uma vez, em 2010, o presidente deposto do Quirguizistão, Kurmanbek Bakiyev, tinha feito apelo ao bloco militar para reprimir a agitação étnica no sul da República, mas sem sucesso. Depois das tropas do bloco militar terem começado a chegar, o presidente do Cazaquistão (Tokaev) mudou radicalmente a sua retórica e chamou aos manifestantes “terroristas”, com os quais não havia espaço para discussão, apenas a necessidade de “atirar a matar”.

A 5 de Janeiro, as tropas do bloco militar da CSTO começaram a entrar no país. No entanto, pelo menos até hoje, 8 de Janeiro, os combates continuam entre o Exército e os rebeldes.

E aqui é importante dizer que, ao longo da existência do Cazaquistão como nação independente, toda a oposição e livre expressão de opinião têm sido duramente reprimidas. O antigo Partido Comunista, por muito desmoronado que esteja, é proibido no Cazaquistão.

Como resultado, hoje em dia, no Cazaquistão, não há uma única força legal que possa representar pelo menos uma parte das grandes multidões em protesto. Em vez disso, temos um forte protesto amplo – correspondente à mentalidade calorosa do povo cazaque – mas com um carácter completamente selvagem. Os manifestantes tiveram força suficiente para invadir edifícios administrativos, bem como estações de televisão e de rádio, mas falta-lhes a força proveniente da unidade e da disciplina. Se a tivessem, então o poder estaria nas mãos desta força unificadora.

O que une todos os países do bloco militar da CSTO? Todos eles têm regimes políticos com as mesmas características: corrupção, nepotismo, monarquia, restrição da actividade das associações da sociedade civil (incluindo os sindicatos dos trabalhadores).

Qualquer manifestação lá é ilegal, mas por outro lado é contagiosa. Uma sociedade que não tem a possibilidade de protestar recorre, rapidamente, a métodos agressivos, porque não sabe outro modo de agir. Com a manutenção dos regimes nas antigas repúblicas soviéticas, a perseguição dos militantes irá agravar-se em todas elas, após a repressão da revolta do Cazaquistão, e a reacção czarista reinará durante muitos anos.

Assim, levanta-se uma questão importante: a que custo é que o presidente Tokaev manteve o seu poder e que preço é que o povo cazaque irá pagar ao Kremlin?

Crónica do russo Anton Poustovoy, publicada no semanário francês “Informations Ouvrières”Informações operárias – nº 688, de 12 de Janeiro de 2022, do Partido Operário Independente de França.

Rússia: Vírus e eleições

A “Rússia milenar”, como Putin lhe chama, está rodeada de inimigos. Pela enésima vez. E cada vez mais. Hoje, está ameaçada… no contexto das vacinações e das eleições legislativas!

Mas o inimigo não levará a melhor! A vacinação obrigatória foi decretada em dez grandes regiões do país; nas outras regiões, está a ser tornada “voluntariamente” obrigatória.

Dezenas de milhares de pessoas não vacinadas são oficialmente contactadas, todos os dias. Foi posto em prática um sistema de certificados de vacinação, que dá direito a continuar a trabalhar, a viajar para o estrangeiro ou, simplesmente, a ir ao restaurante.

Mas, por alguma razão, alguns cidadãos não querem ser vacinados com a vacina “Putin” e preferem comprar um certificado, cujo preço subiu de 3.000 para 7.000 rublos (de 35 para 81 euros) em Moscovo, numa semana.

Ao longo de mais de um ano, as medidas de Putin não têm tido qualquer relação com a propagação ou o declínio da epidemia. Na terceira vaga, foram montadas zonas de fãs para jogos de futebol, festas,…

MILITANTES PRESOS E SEVERAMENTE CONDENADOS

Ninguém nega que o Estado russo reprime severamente a ausência de máscaras e de qualquer reunião com muita gente. No entanto, isto aplica-se quando se trata de política. Um único piquete de Igor Glanov em Novokuznetsk, de Victoria Abramova em São Petersburgo, ou de Marina Shiryaeva e Yevgenia Smetankina, no mesmo local, foi severamente reprimido, com detenções e buscas judiciais: todos eles foram acusados de violação do Código Administrativo, por terem infringido as normas sanitárias durante a sua detenção. Por este motivo, muitos militantes foram presos e acusados de crime.

Falta cerca de um mês para as eleições legislativas na Rússia. O partido Rússia Unida, de Putin, caiu muito nas sondagens; por isso, é importante para as autoridades silenciarem e liquidarem aqueles que se opõem ao partido. As listas por ele apresentadas incluem militantes de vários partidos, contra os quais foram iniciados processos criminais em várias ocasiões.

Outras pessoas foram impedidas de concorrer, por causa das novas leis que proíbem a eleição de cidadãos que tenham pertencido a organizações “indesejáveis” e “extremistas”. A lista de tais organizações inclui não só organizações russas (as quais, contudo, não têm objectivos revolucionários), mas também organizações internacionais. De acordo com as estimativas da organização pública Golos, nove milhões de pessoas foram assim privadas do direito a candidatar-se às eleições na Rússia. É quase um eleitor em cada dez.

PUTIN APERTA AINDA MAIS O CERCO

O antigo Parlamento, 87% do qual era constituído por dirigentes da Rússia Unida, estava bem preparado para que as novas eleições o tornem tão reaccionário quanto possível. Putin pediu ao Rússia Unida para obter mais de 40% da votação. As eleições, agendadas para 19 de Setembro, serão novamente distribuídas por três dias (tal como aconteceu com a votação sobre o referendo para alterar a Constituição).

Houve um projecto de lei, apresentado pelo Partido Comunista da Federação Russa, para tornar a vigilância vídeo obrigatória durante as eleições, a fim de prevenir a fraude. Mas este projecto foi rejeitado.

Os próprios observadores públicos não estão em medida de poder controlar a legalidade das eleições, durante três dias, especialmente porque os boletins de voto permanecem nas assembleias de voto durante a noite (geralmente realizadas em edifícios escolares) e sem qualquer segurança. Portanto, é previsível que o resultado não provoque uma mudança da situação actual. E Putin está a apertar o cerco repressivo e liberticida contra o seu próprio povo, num contexto onde é possível, através dos conflitos militares, atiçar os sentimentos chauvinistas.

Crónica do correspondente russo Anton Poustovoy, publicada no semanário francês “Informations Ouvrières”Informações operárias – nº 667, de 11 de Agosto de 2021, do Partido Operário Independente de França.

Federação russa: “A Revolução falhada de Fevereiro de 2021”

As concentrações e manifestações que têm tido lugar em toda a Federação Russa são as maiores das últimas décadas.

O principal chefe de orquestra dos eventos é um político liberal, o Sr. Navalny. Alexey Anatolyevich. Trata-se de um ex-militar, de 44 anos de idade, da família dos proprietários da Kobyakovskaya Vine Weaving Factory – LLC (Fábrica de produção de Vinhos), na região de Moscovo, e um accionista maioritário da holding aeronáutica Aeroflot (a maior companhia aérea russa). É também o líder do partido “Rússia do futuro” (social-liberal e pró-União Europeia), que o Governo russo se tem recusado a legalizar desde há vários anos.

Em Janeiro passado, no seu regresso da Alemanha, onde Alexey estava a recuperar de um envenenamento, utilizou um voo de uma filial da sua empresa, a Pobeda, e foi preso quando passou pelo controlo de passaportes. Depois disso, a sua equipa publicou um filme sobre o “Palácio de inverno de Putin”, perto de Gelendzhik, palácio construído, como diz o filme, “ilegalmente e com dinheiro proveniente da corrupção”.

Seguiram-se três vagas de manifestações, através da Rússia: 23 de Janeiro, 31 de Janeiro e 2 de Fevereiro.

Por uma questão de princípio, na Rússia, as manifestações e as marchas são de facto proibidas. É necessário comunicar a manifestação ou reunião, indicando os seus objectivos: depois, as autoridades podem validá-las ou não. Os participantes são sistematicamente fotografados por agentes da Polícia que arquivam esses registos e constituem “dossiers”. Esta base de dados é utilizada para efectuar detenções preventivas, que é o que a Polícia faz.

A repressão começou a 23 de Janeiro, depois de terem sido realizadas grandes manifestações em todo o país. A Polícia utilizou os seus “registos” para convocar para interrogatório todas as pessoas que tinham sido vistas em ajuntamentos de protesto nos anos antes, acusando-os de participarem nestes.

A Imprensa também tem estado sob pressão: funcionários dos gabinetes editoriais foram presos, tendo mesmo havido casos de espancamentos. Outros jornalistas ou simples cidadãos foram presos por mencionar o local e o momento do início das concentrações sobre as suas páginas pessoais em redes sociais.

Mas uma nova geração está a surgir, a abandonada pelo Estado, a dos jovens diplomados do Ensino superior que se encontram a trabalhar nomeadamente em caixas do McDonald’s. Eles participaram em grande número nas concentrações e desfiles. Eles expressaram – e isso é inédito – que “algo está errado no Sistema”, dando um outro conteúdo às mobilizações.

Após o anúncio do veredicto da prisão de Navalny, a 2 de Fevereiro, novas manifestações tiveram lugar. Todos esperavam que as manifestações continuassem, mas alguns dias mais tarde, o quartel-geral de Navalny – representada pelo Sr. Volkov – anunciou que os desfiles foram “adiados para a Primavera ou o Verão”. Revolução falhada.

Nota de A. Masurine publicada no semanário francês “Informations Ouvrières” – Informações operárias – nº 641, de 11 de Fevereiro de 2020, do Partido Operário Independente de França.