Espanha: Cresce a resistência

Milhares de trabalhadores da hotelaria e da restauração manifestaram-se no domingo, 8 de Novembro, em Bilbau, em conjunto com pequenos empresários, contra as medidas restritivas anti-democráticas e anti-sociais promulgadas pelo Governo do País Basco, tomadas em nome da luta contra a pandemia (uma justificação em que, ao que parece, vale tudo).

Na Catalunha, de sexta-feira até à madrugada de segunda-feira, é imposto um confinamento municipal – que também já atinge a Andaluzia, a Cantábria e o País Basco – enquanto, nos outros dias da semana, os transportes públicos estão a abarrotar.

E tudo isto quando, nos estabelecimentos de restauração, segundo o Ministério da Saúde, houve desde Junho um total de 135 surtos, com 2.167 infectados, e nos centros de trabalho 1.511 surtos, com 18.103 infectados.

Em Madrid, continua o confinamento dos bairros operários. Neste país, dividido em 17 autonomias, aplicam-se medidas diferentes – muitas delas com escassa “lógica sanitária” – mas muitas com um objectivo comum: culpabilizar a população, sem dotar de meios suficientes a Saúde Pública, esgotada e sem recursos.

O que pretendem?

Sem dúvida pretendem evitar uma explosão social, pois fazem a população trabalhadora sofrer estes ataques de forma selectiva. E, além disso, o Governo – pretensamente progressista – satisfaz, acima de tudo, as exigências do grande capital e da Monarquia. A imprensa especializada não hesitou em enumerar as grandes empresas que irão beneficiar com os “Fundos europeus”, enquanto os assalariados perdem entre 15 e 20% do seu poder de compra.

Os porta-vozes do Governo não hesitam em qualificar os que se manifestam contra as medidas restritivas como provocadores e agentes da extrema-direita, velha acusação contra quem defende as reivindicações “governe quem governe”. Claro está, uma boa parte da indignação está a expressar-se sem um quadro organizado onde manifestar-se, por causa da recusa e da renúncia das organizações maioritárias dos trabalhadores em defender as reivindicações, escudando-se muitas vezes na pandemia. Neste último fim-de-semana, vimos manifestações de todo o tipo, algumas delas directamente organizadas, de facto, por provocadores de todos os matizes, como a dos “polícias pela liberdade”.

Klaus Schwab, fundador do Fórum Económico Mundial de Davos (que reúne, anualmente, os magnatas financeiros de todo o mundo) refere: “O que me preocupa é o risco de explosão de uma crise social”. Com efeito, é isto que se está a incubar no nosso país e as diversas manifestações da semana passada – em 20 cidades – são, sem dúvida, os primeiros sinais. É claro que existirão provocadores da extrema-direita, mas eles não são a causa: em muitos casos, apenas se aproveitam das convocatórias. O que é facto é que a indignação social existe – e cresce – e não é o produto artificial de nenhuma “mão negra”.

Das reivindicações à necessária mudança política

O que se torna evidente é que a crise é utilizada para liquidar os direitos existentes, para destruir os contratos colectivos, os salários e os serviços públicos. As promessas tardias do Governo – como a anulação do artigo 315.3 da Constituição contra o direito à greve (que teve lugar depois do combate desenvolvido desde há 6 anos) e algumas outras medidas – são somente o produto das manifestações incessantes do pessoal da Saúde e da campanha desenvolvida, durante anos, nomeadamente em defesa do direito à greve. Isto demonstra que uma atitude decidida das organizações sindicais, em vez da defesa incondicional do Governo, permitiria avançar na satisfação das reivindicações.

A indignação social não encontra canais, perante a não apresentação de qualquer saída pelos partidos e dirigentes sindicais. Por isso, a proposta lançada pelo Encontro do Comité pela Aliança dos trabalhadores e dos Povos para unir a luta pelas reivindicações, as liberdades e os direitos com o combate por uma mudança social e política, pela República, procura ajudar a dirigir a indignação para uma saída democrática positiva.

Publicado no periódico Información Obrera – Tribuna livre da luta de classes em Espanha – Suplemento especial nº 20, de 13 de Novembro de 2020.

Líbano: Qual é a jogada de Macron?

Desde o Sahel até à costa turca, passando pelo Líbano, vimos Macron nas últimas semanas a dar publicamente as suas ordens aos governos; vimo-lo a desfilar, fazer avançar aviões de combate e a Marinha de guerra, financiados por aumentos substanciais do Orçamento militar. Será que ele pensa que voltou ao tempo do grande império colonial, alimentando guerras e tensões num contexto de cobiça e de pilhagem dos recursos destes países?

Ou procuraria ele ganhar, a milhares de quilómetros de distância, uma estatura que está a ser cada vez mais desafiada em França, um artifício corrente dos “chefes” perante a hostilidade e rejeição no seu próprio país?

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Bielorrússia: “Vai-te embora!” é o grito unânime de dezenas de milhar de manifestantes

Desde a noite de domingo (9 de Agosto) e da publicação da primeira estimativa oficial dos resultados da eleição presidencial, milhares de Bielorrussos manifestaram-se nas ruas e não somente em Minsk, a capital. Estas manifestações tiveram lugar em 33 localidades de todo o país. Em vários locais, os manifestantes tentaram levantar barricadas.

Em seguida, as manifestações não pararam durante toda a semana. Os sindicatos do país têm assumido um papel activo na mobilização, tendo havido uma primeira greve logo a 11 de Agosto.

Mas, logo desde a primeira noite, tem havido uma repressão feroz sobre os manifestantes, já tendo sido presas cerca de 3 mil pessoas. Em Minsk, os manifestantes foram atacados pelas forças policiais com gás lacrimogéneo, granadas atordoadoras e balas de borracha. Em Brest, uma das principais cidades do país, situada na fronteira com a Polónia, os polícias atacaram com balas reais. Os manifestantes presos foram amontoados às dezenas em células estreitas, privados de água, de alimentação e de sono, espancados e torturados. Segundo um dos prisioneiros, detido 24 horas entre 2ª e 3ª feira da semana passada, “as pessoas estavam deitadas no chão, como se fossem um tapete vivo, num mar de sangue”.

No entanto, esta repressão selvagem não conseguiu parar a mobilização. Pelo contrário, ela só a fez aumentar ao longo de toda a última semana. Militares despiram ostensivamente os seus uniformes e demitiram-se como sinal de protesto.

E esta mobilização cresceu até à manifestação gigantesca do passado domingo (16 de Agosto), onde dezenas de milhar de Bielorussos exigiram a saída do presidente Loukachenko, gritando “Vai-te embora! Vai-te embora”.

É certo que as manobras imperialistas se multiplicam, desde há alguns dias. Assim, a 17 de Agosto, os chefes de Estado ou de governo do Reino-Unido, da Alemanha e da França declararam dar o seu apoio aos manifestantes. E, por outro lado, uma Cimeira extraordinária dos 27 países da União Europeia foi convocada para hoje (19 de Agosto), com carácter de urgência, para discutir a situação na Bielorrússia.

De qualquer modo, a mobilização em curso nesse país – um verdadeiro levantamento do povo e da classe operária – não pode, de maneira nenhuma, ser assimilada à “revolução laranja” da Ucrânia, em 2004, totalmente instrumentalizada pelo imperialismo e em particular pelos EUA.

De facto, o que domina a situação na Bielorrússia é a entrada em movimento da classe operária. Cada vez mais fábricas entram em greve, nomeadamente fábricas absolutamente determinantes para a economia do país, como é o caso da empresa de fabrico de automóveis, Belaz, ou dos operários de uma fábrica de tractores, que se manifestaram em Minsk a 14 de Agosto. Na passada 2ª f (17 de Agosto), operários em greve juntaram-se a uma manifestação que estava a realizar-se em frente da Sede da televisão pública em Minsk. Estas greves que se ampliam dão o conteúdo social do levantamento em curso e da palavra de ordem unânime: “Vai-te embora!”.

Correspondência de Minsk

A Bielorrússia é um dos raros países da ex-URSS que conservou um carácter “soviético”, em termos de política interior: as fábricas e as herdades colectivas continuam a funcionar e a produzir. Apesar da abundância de capitais internacionais, a economia nacional mantém-se a funcionar “segundo os planos de desenvolvimento”, ou seja, a economia é planificada. E aquilo que está em curso é a privatização lenta da propriedade do Estado… sob o controlo do Estado.

Além da própria agricultura, a indústria de transformação é importante para a República desde a época da URSS – quer dizer que as matérias-primas são fornecidas pela Rússia. Este factor torna a Bielorrússia frágil e dependente da Rússia. O presidente Loukachenko deu passos para a “independência económica” do país, em relação ao capital russo, no decurso da última década. Este processo culminou com a não-renovação, em Janeiro de 2020, dos contratos de importação de petróleo russo.

Alexandre Loukachenko está no poder desde 1994, e candidatou-se para assumir um sexto mandato. Por várias vezes, o Kremlin tem feito campanha contra Loukachenko, aquando da realização de eleições presidenciais. E, em particular, aquando da de 2010, onde uma das cadeias de televisão russas, a NTV, difundiu o filme “O Padrinho”, acompanhado de críticas imperialistas pró-russas e de calúnias contra a Bielorrússia e Loukachenko. No lançamento da sua campanha eleitoral em 2020, Loukachenko tinha denunciado uma “ingerência russa”. E, ao mesmo tempo, lançou duas queixas penais contra o ramo russo do gigante Gazprom na Bielorrússia (um quasi-Estado dentro do Estado na Rússia, acima das leis), o que contribuiu para atiçar o conflito com a Rússia.

As eleições presidenciais na Bielorrússia têm sido palco, habitualmente, de manifestações contra o Presidente. As que têm tido lugar agora denunciam a irregularidade dos resultados. E têm sido realizadas em muitas cidades.

Greves nos sectores-chave

A partir de 11 de Agosto, nas grandes empresas do país há trabalhadores que se puseram em greve. Eles organizaram piquetes em frente das fábricas, apelando ao resto dos seus colegas para se juntarem a eles: “Deixai o trabalho! Juntem-se a nós!”. Têm-se multiplicado as concentrações e manifestações.

A 17 de Agosto, foi lançado um apelo à greve geral nacional, subscrito por trabalhadores de cerca de quarenta empresas de todo o país. Loukachenko foi encontrar-se com eles – facto raro –, o que constitui um sinal da preocupação das autoridades quanto à situação actual.

Interrompido rapidamente por gritos de “Vai-te embora!”, o Presidente abandonou o seu discurso debaixo de apupos.

Qual será o futuro da Bielorrússia?

Não podemos adivinhar, actualmente, qual o desenlace deste confronto. Há vários elementos que são importantes e mesmo determinantes nesta situação: a Rússia a procurar “engolir” a Bielorrússia e o facto de uma grande parte das forças de produção da Bielorrússia estar nas mãos do Estado, havendo um combate para o seu controlo. Muitos gostariam de conseguir ganhos com a privatização dos bens do povo bielorrusso – e, em particular, os capitais russos, perante os quais o Regime bielorrusso é vulnerável.

E, portanto, existem duas questões importantes que estão colocadas: Qual é a força do Regime político da Bielorrússia? As manifestações acabarão quando Loukachenko deixar oficialmente a Presidência?

Reportagem publicada no semanário francês “Informations Ouvrières” – Informações operárias – nº 618, de 19 de Agosto de 2020, do Partido Operário Independente de França.