Itália: A crise governamental atinge o seu clímax

O homem: Draghi, “o banqueiro político”, ou “Sr. BCE”, como ele é conhecido. Os meios: a união sagrada (nacional) em toda a sua essência. Todos os partidos estiveram presentes desde o primeiro dia. A começar pela Liga de Matteo Salvini, que dantes proclamava que “Draghi é o partido do PIB”. É seguramente esta uma das razões por que – depois de ter passado anos, dentro e fora do Governo, a utilizar uma retórica veemente contra Bruxelas – se apressou a juntar-se ao novo Presidente do Conselho de ministros. Ele não é o único.

Por unanimidade, os partidos fizeram fila em frente à casa de Draghi, que afirma: “A solução para os nossos problemas está na Europa”. Todos aderiram a esta escolha providencial que vai ditar ao país como usar os 209 mil milhões de Fundos europeus.

A caça aos ministérios tem sido uma luta furiosa. Grillo, em nome do Movimento Cinco Estrelas, foi o primeiro, nesta “grande orgia”, a reagir e a obter quatro postos no Governo, incluindo um para Di Maio, que se mantém nos Negócios Estrangeiros. Mas há postos para todos, em particular para os chamados ministros técnicos. Inclusive para o físico que gerou indignação ao criar o primeiro Centro de investigação público-privado, ao qual foi atribuído o Ministério do Ambiente – uma novidade na gama de ministérios italianos – que irá gerir os 70 mil milhões de euros que lhe competirão e que, de acordo com a UE, a Itália deve investir no sector. O grande patronato já se declarou pronto para a conversão ecológica.

Mas muitos editorialistas advertiram: em França, a política de unidade nacional de ecologia de Macron produziu os Coletes Amarelos. A Liga de Salvini (de extrema-direita e separatista, recordemo-lo) obtém três ministérios, incluindo o Ministério do Desenvolvimento Económico. O Sul (Mezzogiorno) está muito preocupado com o facto de o desenvolvimento em questão não chegar até ele. A Forza Italia, de Berlusconi, também obteve três pastas no Governo, que também arriscam provocar tumultos na população: a dos Assuntos Regionais e das Autonomias, bem como a do Sul e da Coesão Territorial. Estes postos, unidos com aos da Liga, reforçam as posições das regiões ricas do Norte. De facto, Salvini e Berlusconi tinham feito um pacto entre si durante as consultas para a formação do Governo. E por fim, ataques, é quase certo que haverá principalmente na Administração Pública, uma vez que é o terceiro ministério que Forza Italia obteve.

A União Sindical de Base qualificou, imediatamente, esta atribuição a Brunetta (o ministro indigitado para este último cargo) como uma bofetada aos funcionários do sector público. Com efeito, este teórico do neo-liberalismo tinha – na altura em que esteve no governo de Berlusconi – lançado os maiores ataques contra a Função pública. O Partido Democrata também obteve três pastas ministeriais, incluindo a do Trabalho, uma espécie de ilusão de óptica.

DRAGHI IRÁ EXECUITAR A DANÇA SOZINHO…

No entanto, sabemos que Draghi irá liderar sozinho dança, juntamente com a Comissão Europeia, e que os ministros serão seus garantes.

Mas as fissuras nos partidos já se estão a ver. O Movimento Cinco Estrelas – cujo fundador, Beppe Grillo, não poupou esforços para convencer os seus membros – já se dividiu em dois (59% para a linha de Grillo e 41% para aqueles que recusaram a entrada no governo com a extrema-direita, mas não têm líder).

É especialmente no Sul que a raiva tem dificuldade em ser contida, porque é aí que o Movimento Cinco Estrelas tinha produzido mais ilusões, recolhendo até 60% dos votos. “Vão ter de agradecer aos céus por sermos não violentos, pois foi uma decisão a que era preciso ter respondido com bastões e tacos”, diz uma responsável de Nápoles. Pelo seu lado, o Partido Democrata está um pouco desconfortável e já perdeu algumas cabeças de cartaz, como é o caso da antiga ministra Rosy Bindi, acusando-o de “suavidade”, enquanto outros membros consideram que a promiscuidade com a direita e a extrema-direita no Governo é um pouco difícil de engolir.

Os partidos não são os únicos que responderam como um só homem ao convite de Draghi. As três confederações sindicais (CGIL, CISL e UIL) – aconselhadas pelo Secretário-Geral da CGIL, Landini – participaram na “consulta aos corpos intermédios” com Bonomi, o Presidente da principal Confederação patronal, a Cofindustria. À saída da reunião, Bonomi declarou ao jornal Il Sole 24 ore, contente: “Agora, temos de agir bem e depressa!”. E o quotidiano da finança conclui que Draghi tem o apoio de todos os parceiros sociais. Landini, pela sua parte, acrescentou: “É bom discutir com os parceiros sociais, o que não acontecia desde há muito tempo”. Notemos que o Secretário-Geral da principal Central sindical italiana – que conta com de mais de cinco milhões de membros – não se tem poupado, especialmente nos últimos meses, na sua oferta de serviços ao governo de Conte e agora ao de Draghi. A propósito, não afirma Draghi que a unidade é um dever?

Assim que a nomeação de Draghi foi anunciada, o pequeno partido Risorgimento socialista-Lega socialista lançou um apelo público contra este Governo. É também o caso do Potere al popolo (Poder ao Povo) e da Unione sindacale di base (União Sindical de Base) que afirma estar a trabalhar para a “construção da mobilização”.

O programa de Draghi baseia-se principalmente na utilização do Fundo de incentivo para o trabalho. Entendamos para os patrões. E para a transição ecológica. Entendamos para os patrões. As grandes empresas dos sectores da energia e dos transportes já estão na grelha de partida. Nada sobre Saúde pública, que está exangue; nada para a Educação, que está de joelhos.

A comunidade empresarial já está a avisar que vai ser difícil governar. Ela já está preocupada sobre quem “saltará primeiro para fora” (do Governo). O ex-primeiro ministro Conte já está a preparar a sua emboscada. Mas, mais importante ainda, existe em todo o lado uma cólera surda, num país onde 35% dos jovens (aqueles que são chamados “a geração perdida”) estão no desemprego.

Mas este Governo tem, acredita ele, tudo planeado. Para além do consenso e do forte apoio que lhe oferece a Direcção da CGIL, um dispositivo será mecanicamente activado: o único partido da oposição – porque há um – assumirá automaticamente as presidências-chave, a da RAI (Rádio e Televisão Italiana), a da Caixa dos Depósitos e Empréstimos, e a da Comissão parlamentar para a segurança da República. Trata-se do partido fascista, Fratelli d’Italia.

Assim, o dispositivo de guerra contra os trabalhadores, o povo e a República está posicionado em ordem de batalha.

Análise de Veronica Delle Ginestre, publicada no semanário francês “Informations Ouvrières” – Informações operárias – nº 642, de 18 de Fevereiro de 2021, do Partido Operário Independente de França.

Europa: A revolta cresce

Em muitos países da Europa estão a ter lugar manifestações contra as leis de emergência (chamadas “sanitárias”) e, nomeadamente, em tempos recentes, em Itália e na Alemanha. Imediatamente a imprensa – particularmente em França – ficou em alvoroço, acusando a extrema-direita em Leipzig e a Camorra (Máfia) em Nápoles de serem os instigadores e líderes destas manifestações. Para esses “comunicadores”, cada Alemão é potencialmente um nazi, e cada Italiano potencialmente mafioso.

A realidade é bastante diferente. Roberto Saviano, um escritor anti-Máfia, pronunciou-se sobre as manifestações na sua cidade de Nápoles, que ele descreveu como “manifestações de desespero”. As manifestações estão a ter lugar em muitas cidades italianas (Milão, Roma,…), juntando pequenos comerciantes, assalariados do comércio, desempregados e precários, mas também em Génova, onde jovens, famílias, reformados e estudantes declararam conjuntamente: “Este confinamento é para benefício exclusivo de algumas mega-multinacionais”. Em Roma, no dia 17 de Novembro, os estudantes concentraram-se diante do Parlamento. Eles denunciaram a esquerda e a direita que se sucederam no Governo, cortando 2,3 mil milhões de euros do Orçamento para o Ensino superior durante os últimos 12 anos. E um representante estudantil declarou, no seu discurso: “Não há equipamento, nem instalações, nem professores, nem sequer um banco para nos sentarmos. Exigimos dinheiro para a educação; somos contra o ensino à distância, que cria estudantes da série A e estudantes de série B!”.

Houve também muitas manifestações na Alemanha, inclusive em Leipzig, cidade da antiga República Democrática Alemã (RDA), situada numa região atingida pela desindustrialização e cuja população foi atirada para a miséria.

Foi este evento, a 7 de Novembro, que foi denunciado como sendo de “extrema-direita”. Mas dezenas e dezenas de milhares de pessoas juntaram-se, submergindo os bloqueios montados pela Polícia no caminho para o “Leipziger Ring”, a famosa alameda circular desta cidade da Alemanha Oriental onde tiveram lugar as “Manifestações das segundas-feiras” em 1989. É claro que há confusões, ilusões, activistas de extrema-direita, charlatães.

Mas quando dezenas de milhares se manifestam no “Ring”, a cantar – tal como em 1989 – “Nós somos o povo! Revolução pacífica 2.0!”, eles estão a procurar religar-se aos acontecimentos revolucionários que derrubaram a burocracia da RDA e o Muro de Berlim! Eles querem reapropriar-se desse ponto de viragem de 1989, 31 anos exactos após a demissão do Conselho de Ministros da RDA. É verdade: a 6 de Novembro de 1989, centenas de milhares ocuparam o “Ring” e, três dias mais tarde, a 9 de Novembro, o Muro caiu.

As actuais manifestações são de facto contra a política governamental em Itália e, na Alemanha, contra a coligação SPD-CDU.

E o que estão a fazer as cúpulas das confederações sindicais, perante a política dos governos que utilizam a pandemia e o confinamento para organizar um verdadeiro massacre social?

Em Itália, as confederações sindicais assinaram um pacto social com o Patronato e o Governo. Na Alemanha, as cúpulas da DGB (a principal Confederação sindical) submetem-se à “Grande Coligação”. Esta política é contraditória com a vontade de muitos sindicalistas e dirigentes intermédios que procuram organizar a resistência.

Nestas manifestações está integrada a massa dos menos favorecidos, reduzidos a nada, que saem fora dos quadros tradicionais. Teriam eles que pedir autorização às cúpulas das confederações? Estes movimentos são um indicador da rejeição das políticas seguidas durante décadas; elas fazem parte integrante da raiva que cresce no seio dos trabalhadores e das populações.

Usando a presença de alguns activistas da extrema-direita, no início do movimento dos Coletes amarelos, houve quem explicasse que “sob os coletes amarelos, havia as camisas castanhas”. Este movimento dos Coletes amarelos, que surgiu de fora das estruturas tradicionais, fazia parte do movimento geral contra o Governo, como atesta a sua participação massiva ao lado dos sindicalistas na mobilização contra a reforma das pensões de aposentação.

Em todos os países, a revolta dos que “morrem de fome” está a crescer. Os seus gritos anunciam a tempestade.

Tal como Lenine defendia, os “operários avançados” devem participar nestas mobilizações para as unir e ajudar a que se voltem, consciente e resolutamente, contra os governos e o capital.

Assim, com o nosso semanário Informations ouvrières, vamos agir nessa via!

Crónica de Lucien GAUTHIER, publicada no semanário francês “Informations Ouvrières” – Informações operárias – nº 633, de 2 de Dezembro de 2020, do Partido Operário Independente de França.

Itália: greve na ArcelorMittal defende os empregos

FIOM

A siderúrgica ArcelorMittal aproveitou a pandemia para aumentar o número dos seus empregados na Itália em situação de desemprego técnico (redução da jornada de trabalho e de salários). Isso ameaça a continuidade dos contratos de trabalho. Em resposta, os trabalhadores da empresa iniciaram um movimento de greve, a 15 de Maio. E, no dia 18, realizaram uma manifestação sindical unitária em Génova, com distanciamento social e uso de máscaras. Em virtude da lei de emergência sanitária, organizaram um “desfile” até à Câmara municipal.

A empresa, que pretende fechar as suas sucursais em Itália, ameaça colocar todos os 1002 empregados em desemprego técnico, caso a greve não seja interrompida. Continuar a ler