Em todos os territórios da Palestina, ergue-se um só povo

Cartaz à entrada de um parque de diversões no Estado de Israel, com a legenda em hebraico: “Domingo, terça e quinta para judeus. Segunda e quarta para árabes.”

Traduzimos um artigo de Awad Abdelfattah, da coordenação da Campanha por um só Estado Democrático, escrito no final de um mês de insurreição sem precedentes do povo palestiniano, em todo o território histórico da Palestina (1).

Denegridos e insultados pelos líderes árabes e os seus lacaios, incluindo os do Autoridade Palestiniana, contornados ou ignorados pelos defensores em todo o mundo da pseudo-solução de dois Estados, os Palestinianos do Interior – cidadãos de segunda classe “israelitas” – afirmaram a unidade de todo o seu povo.

Combinações eleitorais israelitas – que procuram apresentar Netanyahu como responsável pela crise – estão votadas a reproduzir os mesmos efeitos, porque elas defendem as mesmas causas. A repressão contra os Palestinianos do Interior está ao nível do choque sofrido pelas autoridades israelitas face a mobilizações de uma escala sem precedentes.

Os contactos entre os jovens do Interior de Israel, da Cisjordânia e de Gaza também assumiram uma dimensão sem precedentes. Começaram a unificar-se, e as informações recebidas dos nossos correspondentes mostram que vão continuar.

“É difícil prever como as coisas teriam acontecido se os movimentos de resistência na Faixa de Gaza não se tivessem juntado à batalha do povo em Jerusalém e na Palestina ocupada desde 1948″, observa Awad Abdelfattah, que elabora um primeiro balanço dos resultados do levantamento.

“Como era de esperar, perdemos vidas preciosas, o inimigo exterminou famílias inteiras e – com a sua habitual brutalidade – multiplicou o sofrimento humano. Mas o que não era esperado era a vitória estratégica, traduzida em vários resultados, os mais importantes dos quais são os seguintes:

1) A difusão da consciência universal de que é uma só Palestina e um só povo (…). Esta é a maior e mais importante conquista, porque a fórmula do colonialismo foi a fragmentação deste povo e o apagamento da sua consciência (…).

2) A resistência em Gaza conseguiu inverter o plano adoptado pelos Israelitas desde a sua retirada da Faixa em 2005 visando isolar Gaza da questão da Palestina e de Jerusalém, o que constitui um grande revés para os líderes da entidade colonial.

3) A percepção do conflito colonial na Palestina pela opinião mundial mudou. Isto é ilustrado, a nível popular, pelas manifestações de massa e pela cobertura das redes sociais e dos grandes meios de comunicação social, nos EUA e em muitos países ocidentais (…).

Esta batalha, através das legiões da juventude palestiniana, virou a opinião mundial contra contra o colonizador israelita (…). O movimento de boicote, activo durante os últimos quinze anos, intensificou-se e espalhou-se de uma forma notável e impressionante.

4) A confiança da comunidade dos colonos sionistas na capacidade da sua entidade e do seu Exército para garantir a sua segurança pessoal e colectiva foi desestabilizada. Isto é acompanhado pelo aparecimento de Relatórios israelitas e internacionais sobre direitos humanos que desintegram os mitos sionistas e redefinem Israel como um regime de apartheid, minando ainda mais a legitimidade deste projecto agressivo.

5) O colapso do poder na Cisjordânia, que parecia desprovido de toda a legitimidade para a sua sobrevivência política e nacional, que tanto falava sobre o absurdo da luta armada a favor da resistência popular, mas quando as lutas populares eclodiram, foi forçado, sob a pressão do leal movimento Fatah, a ignorá-las. No entanto, após o cessar-fogo, regressou ao papel de colonialista, ou seja, a detenção dos militantes da resistência popular, com a ajuda de legitimidade externa e dos seus homens treinados pela CIA.

6) A limitação da tendência à normalização (com o Estado de Israel), o isolamento dos sistemas de aliança de segurança com o colonizador e o regresso da causa palestiniana na consciência da população árabe.

PARA ONDE CAMINHAMOS A PARTIR DAQUI?

(…) O povo palestiniano não é o Hamas: do Jordão até ao Mediterrâneo, nos campos de refugiados e na diáspora, ele é mais poderoso do que qualquer facção (…).

As heróicas lutas populares que as filhas e os filhos do nosso povo travaram, de tronco nu, na cidade de Jerusalém e nos seus bairros, dentro da mesquita al-Aqsa e em Lod, Jaffa, Haifa, Acre,… , e que se espalharam pela Cisjordânia, constituem um exemplo influente do processo de libertação e de construção, e a mais bela forma de acção revolucionária (…).

As forças populares e os segmentos dos intelectuais revolucionários, adultos e jovens, especialmente os que actuam fora das estruturas da liderança oficial, facciosa e partidária, estão agora a enfrentar grandes desafios em toda a Palestina histórica e na diáspora. O mais importante para eles é responder à questão: como e para onde ir a partir daqui?

(…) É hora de agir, o tique-taque do relógio acumula acção revolucionária, perseverança, resistência e paciência.”

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(1) Artigo, com o título “A batalha começou”, publicado no semanário francês “Informations Ouvrières” – Informações operárias – nº 658, de 10 de Junho de 2021, do Partido Operário Independente de França.

O “Direito internacional” na Palestina é o apartheid

Uma imensa multidão manifestou-se em Chicago, a 13 de Maio, contra os bombardeamentos israelitas.

O cessar-fogo implementado a 21 de Maio, após onze dias de intensos bombardeamentos contra a população da Faixa de Gaza, foi sentido em toda a Palestina como uma vitória.

Realizaram-se concentrações massivas em cidades e aldeias palestinianas. Durante estes bombardeamentos, famílias inteiras foram massacradas, centros de saúde visados, instalações dos meios de Comunicação social bombardeadas.

A resistência unida da população palestiniana – combinada com a onda de indignação internacional (ver foto) que varreu o Partido Democrata dos EUA, o partido de Joe Biden, mas também sectores da classe dominante norte-americana preocupada com a marcha para o caos – impôs este cessar-fogo.

No entanto, todos os problemas persistem.

O bloqueio de Gaza continua a matar, as atrocidades do assalto colonial sionista continuam na Cisjordânia e, pela primeira vez, prolongando-se agora dentro do Estado de Israel, onde desde o dia 24 de Maio a repressão está a cair sobre os jovens palestinianos organizadores da mobilização.

O lugar dos palestinianos da Palestina de 1948 é reconhecido em todo o território e torna-se uma questão importante para todo o movimento de resistência nacional. É por esta razão que o Estado israelita acaba de decidir para lançar a sua operação “Lei e Ordem”.

A unidade geográfica e demográfica do movimento actual é óbvia, e a greve geral apenas o confirmou. Há, de facto, um só povo palestiniano entre o mar Mediterrâneo e o rio Jordão. No entanto, ouvimos, uma e outra vez, os representantes dos grandes poderes e as suas variantes políticas de esquerda proclamam que não haverá solução “fora do direito internacional e do reconhecimento do Estado da Palestina”, ao lado do Estado de Israel, ratificando assim a divisão da Palestina e do seu povo.

Um dos actos fundadores do “Direito internacional”, que sempre foi o do mais forte, foi o reconhecimento da divisão da Palestina pela ONU, em 1947, o que permitiu o desencadear Nakba (“a catástrofe”, nas palavras dos Palestinianos) antes da criação do Estado de Israel, em Maio de 1948. Quanto ao Estado da Palestina, expressão diplomática moderna, ele foi sempre concebido em termos do dogma da “segurança de Israel”.

Os Acordos de Oslo, em 1993, sob a égide dos Estados Unidos, abriram o caminho para uma pretensa solução de dois Estados. Durante muito tempo, uma grande parte dos Palestinianos rejeitaram esta “solução”, que é apenas o legitimar do Estado israelita opressor.

Estas últimas manifestações demonstram, mais uma vez, o fracasso dos Acordos de Oslo. Em Gaza, na Cisjordânia, no Estado de Israel, ou nos campos de refugiados, há apenas um único povo.

O caos da ordem internacional e do apartheid ou a igualdade de direitos num único Estado: não há outra alternativa.

Crónica de François Lazar, publicada no semanário francês “Informations Ouvrières” – Informações operárias – nº 656, de 26 de Maio de 2021, do Partido Operário Independente de França.

Palestina: A Intifada da reunificação

15 de Maio em Jerusalém, uma concentração de manifestantes judeus e árabes contra a violência e as ameaças de expulsão.

Há mais de uma semana que um novo dilúvio de bombardeamentos tem chovido sobre a Faixa de Gaza.

Edifícios inteiros estão a ser destruídos por bombas de força considerável, que já causaram a morte de mais de 200 civis, incluindo 75 crianças. Mais uma vez, a população palestiniana da Faixa de Gaza está a ser objecto de um ódio destruidor. Na Cisjordânia, a revolta em massa da juventude, apesar de um sistema de controlo policial violento e sofisticado, constitui o eco do mesmo movimento de revolta da juventude palestiniana dentro do Estado israelita.

Tal como acontece nas ditaduras, a Polícia dispara para matar, a repressão é sangrenta. Apesar disso, a mobilização torna-se mais forte de dia para dia.

Mais uma vez, os órgãos da Comunicação social ao serviço do Sistema estão a tentar justificar a matança. Eles estão longe da posição tomada pelo jornalista israelita Gideon Levy que denuncia aqueles que – jornalistas e especialistas em segurança – estão “sedentos de sangue” e se deletam com insinuações abertamente racistas, nunca lhes faltando argumentos para explorar o anti-semitismo ou para justificar os piores horrores.

Não há qualquer vontade da “comunidade internacional” em avançar numa resolução democrática da situação na Palestina.

O “democrata” Biden, seguindo os passos dos seus predecessores, acaba de vetar uma condenação na ONU, por mais tímida que seja, da acção de Israel… ao mesmo tempo que aprova, como nos recorda o Washington Post, um novo envio de armamento para Israel, no valor de 735 milhões de dólares, e, em simultâneo, apela ao “cessar-fogo”. Sempre a mesma hipocrisia.

O veto contra o povo palestiniano é uma mensagem permanente enviada pelo imperialismo aos povos de todo o mundo. A tentativa para expulsar as famílias do bairro do Cheikh Jarrah, em Jerusalém, é apenas o último episódio da “Nakba” (catástrofe) de 1948.

É para ocultar a responsabilidade israelita que foi inventada a expressão “processo de paz”. Uma fórmula caracterizada, no seu tempo, por Henri Siegman – ex-líder do Congresso Judaico Americano – como “a maior mistificação na história da diplomacia moderna”. Uma expressão que se assemelha à posição do Governo francês, que diz pretende “encontrar uma solução de estabilização duradoura para a região”.

Nesta situação, apesar dos obstáculos, o povo palestiniano – em Gaza, na Cisjordânia, bem como no interior do Estado israelita – acaba de reafirmar a sua unidade, num movimento sem precedentes em 75 anos. É a afirmação da falência dos Acordos de Oslo e da pseudo “solução de dois Estados”.

Este movimento – pela liberdade e igualdade em todo o território histórico da Palestina – está a avançar para a solução de um único Estado democrático, no qual todas as suas componentes populacionais (árabes e judias) terão direitos iguais.

Iniciou-se a Intifada da reunificação.

Crónica de François Lazar, publicada no semanário francês “Informations Ouvrières” – Informações operárias – nº 655, de 19 de Maio de 2021, do Partido Operário Independente de França.