França: Carta aos abstencionistas

A todos aqueles que resistem, que estão fartos e que querem mudança

Dentro de alguns meses terão lugar as eleições presidenciais em França. Quem escolher?  Há certezas, dúvidas e perguntas.

Que Macron, Le Pen, Zemmour, Pécresse – cada um à sua maneira – queiram prosseguir a política nefasta já implementada, é uma certeza.

Que Hidalgo, Jadot, Roussel, Montebourg,… – em total contradição com os ideais de “esquerda” de que se reclamam – acabem por fazer ou apoiar a mesma política que os seus partidos praticaram enquanto estavam no poder, é uma certeza.

Eles mal o escondem.

É por isso que, de uma eleição para outra, cansados de reviravoltas e de promessas não cumpridas, nos abstivemos massivamente. E fizemos bem.

Porquê continuar a votar naqueles que, uma vez eleitos, fazem o oposto do que prometeram para ser eleitos? Porque é que continuamos a confiar naqueles que, “de esquerda”, uma vez eleitos, fazem uma política “de direita” contra nós? Recordamos os apelos inflamados de Hollande, “para mim o inimigo é a Finança”. Hollande, que era apoiado pelos líderes do Partido Socialista, do Partido Comunista, dos Verdes e ainda de outros.         

Sabemos o que aconteceu à sua “luta” contra a Finança: os principescos presentes aos mais ricos, e também a política dos seus vários governos, com a lei El Khomri, o uso do Artigo 49-3 (da Constituição) e finalmente as declarações repugnantes de Valls, a proposta de perda de nacionalidade dos imigrantes (cuja situação terrível é hoje bem visível).

Não há dúvida de que nos abstivemos em plena consciência e com pleno conhecimento dos factos.

Depois, em 2017, com milhões de outros, votámos em Mélenchon.

Fomos sete milhões a votar a favor desta possibilidade de romper com este mundo adulterado de submissão aos poderosos, sempre partidários do “não podemos fazer de outro modo” e sempre contra os homens e mulheres da população trabalhadora que só têm o seu trabalho para viver. Ou os que, sem trabalho, mal sobrevivem e cada vez pior.

Depois, na segunda volta das Presidenciais de 2017, abstivemo-nos novamente.

E isto, apesar da propaganda desenfreada, e da pressão considerável de todos os lados da quase-totalidade dos partidos, do PC, do PS, dos Verdes… com o objectivo de nos fechar na “armadilha da extrema-direita” inteligentemente organizada. Ao contrário de todos eles – e numa ruptura com o que se tornou numa tradição trágica – A França Insubmissa (LFI), o Partido de Esquerda e Mélenchon não nos exortaram a votar em Macron, ou seja, a votar contra os nossos próprios interesses, uma vez que Macron tinha mostrado, desde a sua participação no governo de Hollande, os seus objectivos anti-sociais e anti-trabalhadores. Recusámos esta armadilha sem saída, ao ponto de Macron ter sido eleito por apenas 18% do eleitorado.

E aí, mais uma vez, tínhamos razão.

O que aconteceu desde então?

Juntos, homens e mulheres de todas as camadas sociais, militantes sindicais ou políticos, cidadãos comuns, laicos, republicanos – pondo de lado as nossas diferenças ou mesmo as nossas divergências – juntámo-nos para resistir e lutar.

Em acções, em greves e manifestações, em protestos e rejeições de todo o tipo, neste movimento prático e concreto de liberdade de consciência, de liberdade de escolha e de livre confronto. Estas acções são afinal o principal vector da luta pela mudança radical.

Com os Coletes Amarelos, com os nossos sindicatos contra a reforma das pensões de aposentação, para rejeitar o uso vergonhoso que Macron e este Governo fazem da crise sanitária para os seus próprios fins, pela laicidade, contra as leis liberticidas, contra o uso das religiões para nos colocar uns contra os outros, contra a destruição dos serviços públicos, da Escola e da Universidade, contra os despedimentos e a destruição de hospitais, contra a repressão estatal, com os jovens a manifestarem-se gritando “Fim do mundo, fim do mês, mesma luta contra Macron”.

Em todas as principais circunstâncias, a LFI, o Partido da Esquerda e Jean-Luc Mélenchon têm estado ao nosso lado. De cada vez, durante estes cinco anos, eles estiveram lá, juntos, connosco.

Eles tentaram mesmo – com o seu grupo parlamentar na Assembleia Nacional – ser o canal desta mobilização, propor, resistir. Sem grandes hipóteses de sucesso. As instituições da Vª República foram moldadas de modo a proibir qualquer exercício de verdadeira democracia. Elas tendem a concentrar todos os poderes nas mãos de uma única pessoa. Tanto assim é que, desde há meses, somos “governados” por um Conselho de Defesa – encabeçado pelo presidente Macron – cuja composição é desconhecida, cujas deliberações são proibidas de ser divulgadas e que decide o que temos de aceitar. É disso que as instituições da Vª República se ocupam. Sem as eliminar, sem nos livrarmos delas, nenhuma ruptura fundamental será possível. Foi o povo mobilizado que, na Revolução de 1789, eliminou o Antigo Regime e permitiu o advento de uma Assembleia Constituinte soberana, a única forma de alcançar a mudança radical e a democracia.

De cada vez agindo connosco – e também recusando comprometer-se – a LFI, o Partido de Esquerda e Jean-Luc Mélenchon estiveram entre as poucas forças políticas a recusar a operação de Macron de utilizar a Polícia para obter apoio para as suas políticas. Hidalgo, Jadot, Roussel, Montebourg,… prestaram-se a isso.

O que vai acontecer entre este momento e as eleições?

Não sabemos. Mas note-se que os acontecimentos na Guadalupe e na Martinica dão uma indicação do que está a amadurecer em profundidade, à escala mundial. De tal forma que provocam relutância e preocupação. Mas não para nós.

Mas quaisquer que sejam os acontecimentos, e estamos todos muito atentos a eles, é evidente que mais uma vez, como em 2017, a candidatura de Mélenchon é sentida como portadora de um desejo de rejeição e de ruptura. Mais uma vez, como em 2017, e em ligação com todas as batalhas que travámos juntos, não nos absteremos e procuraremos unir-nos. Iremos votar em Mélenchon.

O que resultará destas eleições em Abril de 2022?

É claro que não sabemos e ninguém o pode prever, tanto torna a situação instável a resistência que fez Macron recuar na sua reforma das pensões de aposentação.

Gato escaldado de água fria tem medo, todos nós conhecemos o famoso ditado “as promessas só comprometem aqueles que acreditam nelas”. Significa isto concordar com tudo o que a LFI, o Partido de Esquerda e Mélenchon afirmam e propõem? Estando ou não de acordo, temos a concepção da livre discussão e da capacidade de nos convencermos uns aos outros. Trata-se de passar um cheque em branco a alguém? Não, de forma alguma. Temos a concepção da Comuna de Paris, de representantes eleitos que são mandatados e revogáveis, a qualquer momento.

Mas temos uma certeza. Temos uma oportunidade, mesmo através das eleições, de nos unirmos, de nos reagruparmos, de dizer: estamos aqui, estamos a resistir, estamos a recusar, estamos a procurar reagrupar as nossas forças com toda a consciência, com toda a liberdade de crítica, para os eliminar a eles e às suas instituições, para resistir, para viver. E assim mostrar a força e o poder desta rejeição, com que todos terão de contar. Do outro lado, eles também se irão reagrupar.

Connosco, com a vontade política de tomar a ofensiva, com o Partido Operário Independente (POI), vote também em Mélenchon.

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Esta “Carta aos abstencionistas” foi aprovada, por unanimidade, no 8º Congresso do Partido Operário Independente (POI), realizado em Paris, a 11 e 12 de Dezembro de 2021.

Biden anuncia acordo contra a China

Biden está a colocar em prática o que disse aquando da retirada dos EUA do Afeganistão: concentrar-se sobre a China. É o que significa o anúncio feito por ele da constituição de uma aliança estratégica entre os EUA, a Austrália e o Reino Unido (Aukus), a 18 de Setembro, quando também informou que os EUA forneceriam à Austrália submarinos – movidos a energia nuclear – capazes de atingir rapidamente águas territoriais chinesas.

O Primeiro-ministro australiano confirmou esse acordo e disse que, em função do mesmo, ficava rompido o contrato de 52 mil milhões de euros – firmado com a França em 2016 – para a compra de submarinos convencionais.

Aliança estratégica militar dos EUA com a Austrália e o Reino Unido

Esta ruptura provocou clamores em França, que denunciou a atitude traidora dos EUA e da Austrália, “uma punhalada nas costas”, como disse Le Drian, ministro dos Negócios Estrangeiros, ao anunciar a chamada a Paris dos embaixadores franceses nesses dois países para consultas.

Deste acontecimento ressaltam duas coisas: os EUA, ao obrigar à ruptura do contrato da Austrália com a França para o fornecimento dos submarinos, ocupam o mercado; por outro lado, ao afastar a França desse acordo estratégico, os EUA indicam claramente qual o lugar que está reservado na região, apesar da presença de colónias francesas na mesma.

A reacção da China

A China, evidentemente, protestou de maneira vigorosa, ameaçando essa aliança estratégica e qualificando-a como uma operação de guerra. Também sublinhou que é a primeira vez que uma potência nuclear fornece submarinos dessa categoria a uma potência que não é nuclear. O Governo chinês denunciou assim uma situação que pode ver multiplicar-se, em diferentes países, o fornecimento pelos EUA de embarcações militares nucleares.

Após a retirada do Afeganistão, os EUA estão obrigados a concentrar todas as suas forças para enfrentar a concorrência a que estão submetidos os seus monopólios num mercado mundial saturado e para organizar os meios que lhe permitam concorrer eficazmente com a China.

A França, tal como os demais velhos países imperialistas de segunda ordem, está agora prevenida de que a política dos EUA é privilegiar, antes e acima de qualquer outra coisa, a defesa dos seus próprios interesses.

Crónica de Lucien Gauthier publicada no semanário francês “Informations Ouvrières”Informações operárias – nº 673, de 23 de Setembro de 2021, do Partido Operário Independente de França.

França: Declaração de guerra de um Governo suspenso no vazio

Fiel à sua odiosa lógica de acusação, o Governo lança a caça aos não vacinados contra o Covid-19, o que mais uma vez conduzirá a múltiplos controlos que acompanham o certificado sanitário, já obrigatório nos cafés, nos Centros culturais e nos restaurantes, ou simplesmente para ir à escola ou para ir às compras. O certificado é obrigatório para aqueles que querem viajar de comboio, mas não para aqueles que apanham todos os dias o Metro ou os transportes para a periferia das cidades. O certificado é obrigatório, mas os testes para detectar aqueles que estão doentes com Covid-19 e limitar o contágio ainda são pagos.

Por outro lado, o Governo mantém o rumo das suas contra-reformas. Relativamente ao subsídio de desemprego, por exemplo, anuncia que – a partir de 1 de Outubro – ele será reduzido em 17%. Ao mesmo tempo, o próprio Macron anuncia que houve mais 300 mil desempregados num ano.

Continua com a liquidação dos serviços públicos e a reforma das funções sociais da Estado, levando ao encerramento de centenas de Centros e de agências. Ao anunciar que “está a modificar completamente o Sistema e as posições estabelecidas, os rendimentos e os estatutos”, ele pretende manter a sua vontade de liquidar o Estatuto geral da Função pública, bem como os estatutos particulares, para continuar a sangria do pessoal e dos serviços públicos.

Existe apenas uma lógica por detrás das ordens e contra-ordens deste Governo, rejeitado pela esmagadora maioria da população. Quer se trate do ataque às pensões de aposentação, do encerramento de hospitais, ou da vacinação, tudo passa para ele por um único meio: imposição, repressão e coerção para se manter no poder. Ele pretende ir até ao fim da sua ofensiva contra os direitos e conquistas dos trabalhadores, para manter o que tem sido o seu rumo político desde o início. Macron e o seu Governo estão a lançar-se numa fuga para a frente, porque sabem que as suas políticas são massivamente rejeitadas e que estão a caminhar sobre um barril de pólvora. A multiplicação de greves e mobilizações que têm vindo a decorrer, desde há semanas em França, é um sintoma da maturação dos processos de resistência.

Com base nestes elementos, os delegados do CNRR (1) propuseram uma iniciativa à escala nacional: “Entre a abstenção em massa (nas últimas eleições regionais – NdT) e as mobilizações – ainda limitadas, nesta fase – que estão a irromper em muitos sectores, há uma estreita ligação: a procura de uma saída política para a catástrofe a que o capital e o Governo ao seu serviço estão a conduzir o nosso país. A fim de contribuir para alimentar e organizar esta procura, os delegados dos comités locais do CNRR, reunidos a 3 de Julho, decidiram lançar uma iniciativa a nível nacional no próximo Outono.”

Mais do que nunca, há que parar esta ofensiva contra os nossos direitos e as nossas pensões, há que pôr fim às medidas liberticidas que procuram dividir os trabalhadores deste país.

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(1) Comité Nacional de Resistência e de Reconquista (CNRR) – Pela defesa das conquistas conseguidas pelo povo francês em 1936 e 1945.

Crónica de Kevin Cayeux no periódico Información Obrera – Tribuna livre da luta de classes em Espanha – nº 360 (Suplemento) de 22 de Julho de 2021.