Reino Unido: O movimento de greves está a crescer

Manifestação de professores das escolas em frente de Holyrood, o Parlamento escocês, em Edimburgo.

O movimento grevista está a ganhar força e confiança, enquanto o Governo aparece cada vez mais isolado e desacreditado, depois de doze anos de austeridade, mergulhando numa assustadora miséria muitos sectores da sociedade.

Na Educação: “Os estudantes apoiam a greve dos professores”

Na semana passada, ao apelo do sindicato UCU (University and College Union), mais de 70.000 funcionários de 150 universidades, em todo o Reino Unido, entraram em greve a 24 e 25 de Novembro – e vão fazer greve de novo a 30 de Novembro – exigindo um aumento salarial em função da inflação (que foi de 11,1%, em Outubro, numa base anual), melhores condições de trabalho e melhores pensões.

Estas greves são as maiores da história do Ensino superior no Reino Unido. O sindicato UCU está a ter a maior participação de sempre em piquetes de greve. No início de Novembro, foi alcançado um acordo salarial na Universidade de Hopwood, perto de Manchester. Como todas as universidades no Reino Unido são privadas, as negociações estão a decorrer em cada universidade.

A vice-presidente da Sindicato Nacional do Ensino Superior, Chloe Field, declarou: “Os estudantes estão solidários com o pessoal universitário em greve. Nós sempre fomos claros ao dizer que as condições do pessoal determinam as condições de aprendizagem dos estudantes. Mas, há mais de uma década, o pessoal e os estudantes têm estado sob ataque do sector privado que coloca os lucros acima da educação.”

Dos trabalhadores dos correios do Grupo Royal Mail

Cento e quinze mil dos empregados deste Grupo dos Correios, ao apelo do sindicato CWU (Communication Workers Union), estiveram em greve a 24 e 25 de Novembro por aumentos salariais de acordo com a inflação, e voltarão a estar a 30 de Novembro e durante sete dias em Dezembro. Há relatos de que a Amazon tem estado a ter cada vez mais dificuldades na expedição, especialmente durante a chamada Sexta-feira Negra (Black Friday), pelo que a data da greve foi bem escolhida pelos empregados.

No Serviço Nacional de Saúde

O sindicato Royal College of Nursing (465.000 membros) anunciou jornadas de greve para os dias 15 e 20 de Dezembro. O sindicato está a exigir um aumento salarial de 15%, enquanto se estima que os trabalhadores tenham perdido 20% do seu poder de compra desde que os Conservadores chegaram ao poder em 2010.

Na Escócia, o sindicato Unison está a aconselhar os seus membros nesse país a aceitarem o aumento de 11% proposto pelo Governo local como sendo “a melhor oferta possível”. Assim, um aumento substancial – que não era possível para o Governo local, há apenas alguns dias – de repente tornou-se possível. Os professores das escolas primárias escocesas irão apreciar esta cedência do Governo.

Greves anunciadas na Função Pública

O sindicato dos Serviços Públicos e Comerciais (PCS), cujos 100.000 membros votaram a favor da greve, anunciou movimentos de greve na Função Pública para o mês de Dezembro. O Secretário-geral do sindicato, Mark Serwotka, disse: “Dezenas de milhares dos nossos membros estão com salários de miséria, já não é apenas uma questão de apertar o cinto, é uma escolha entre aquecer-se e comer, e isso simplesmente não é aceitável para os próprios funcionários estatais.”

As leis anti-sindicais aprovadas no tempo de Thatcher – e mantidas, em seguida, por todos os governos, incluindo o governo de Tony Blair, do Partido Trabalhista – fragmentaram e entravaram a classe trabalhadora britânica, que apesar disso quer lutar (1). E apesar deste e de outros obstáculos – Starmer, o líder do Partido Trabalhista, e os seus agentes nos sindicatos, são um dos principais – os trabalhadores britânicos estão a fazer progressos, a reconstruir as suas forças e a tentar recuperar o controlo sobre os seus sindicatos.

Na Escócia

Ao mesmo tempo, na Escócia, todas as escolas foram encerradas devido à greve dos professores. Andrea Bradley, Secretário-geral do sindicato do EIS (Instituto de Educação da Escócia) rejeitou a última proposta do governo local de Nicola Sturgeon, a quale atribuía ao pessoal no fundo da escala um aumento de 6,85%, com o resto do pessoal a obter apenas 5% de aumento (2). “Esta é uma reedição requentada da proposta que os nossos membros já rejeitaram”, disse Andrea Bradley.

————————————

(1) Por exemplo, para uma única empresa com vários locais, a votação para decidir sobre uma greve deve ser realizada em cada local, independentemente dos outros locais, e por correspondência.

(2) Na Escócia, os professores da Escola primária são pagos pelos Conselhos territoriais (existem 32), mas não têm estatuto de funcionários públicos.

Crónica da autoria de J.-P. Martin, publicada no semanário francês “Informations Ouvrières” Informações operárias – nº 734, de 30 de Novembro de 2022, do Partido Operário Independente de França.

Cimeira do Clima

Perante a “lavagem ao cérebro” sistemática que as instituições do imperialismo e os seus órgãos de Comunicação social estão a fazer – reforçada agora com a realização da Cimeira do Clima – pareceu-nos importante publicar esta análise dos nossos camaradas do Partido Operário Socialista Internacionalista, secção espanhola da 4ª Internacional.

COMO USAR A DESCULPA VERDE PARA JUSTIFICAR OS ATAQUES DO IMPERIALISMO

A Cimeira das Alterações Climáticas, que está a ter lugar nestes dias em Glasgow, é um novo escândalo da chamada “economia verde”. Glasgow já foi um dos centros industriais do mundo, e o que resta não é nem sequer uma sombra disso. Na Cimeira não irão discutir a reindustrialização, mas sim como prolongar esse desastre.

O drama está encenado: “O resultado da Cimeira determinará, em grande medida, como é que os 7 mil milhões de seres humanos sobreviverão, num planeta mais quente, e se se podem poupar as gerações futuras a níveis piores de aquecimento.”

“A temperatura média global subiu mais de 1 grau desde o início da Revolução Industrial. O consenso científico diz que, se subir agora 1,5 graus, aumentará significativamente o risco das piores catástrofes climáticas, com as inerentes sequelas de fome, doenças e conflitos.”

Mas o cinismo também está montado, pois o “consenso político” das multinacionais é contra as exigências dos dados científicos. A China acaba de anunciar que os seus planos de emissão de gases vão continuar como dantes. Mas o vídeo que Xi Jinping enviou para a Cimeira não falará seguramente sobre isto e propagandeará os seus alegados planos. Biden será o grande líder da Cimeira, mas os EUA – tal como a Rússia, a Noruega e a Grã-Bretanha, anfitriã da Cimeira –, de acordo com o New York Times, “irão aumentar drasticamente a sua produção de petróleo, gás e carvão nas próximas décadas”. O cinismo é completado pelo regateio de esmolas que as grandes potências vão dar aos países atrasados para compensar o aumento de gases poluentes que as multinacionais estão a produzir neles. E que, depois, tão pouco costumam pagar.

Todos os dias os meios de Comunicação social, os governos e as instituições internacionais ao serviço do capital financeiro bombardeiam-nos com estes dados. Entrámos numa espiral para ver quem mais exagera sobre os perigos que nos esperam.

Defendemos a Ciência e o método científico. Mas o imperialismo utiliza também os cientistas no seu interesse. O Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre as Alterações Climáticas (IPPC) nunca dirá que certos sectores devem ser nacionalizados, que há que pôr fim à exploração, às guerras e ao armamento. Nunca dirá que os responsáveis são as multinacionais, que há que acabar com o capitalismo.

O que o IPPC e a ONU fazem é atribuir a culpa às pessoas e, portanto, fazê-las pagar pelos seus pecados. Há que comer menos carne – na Índia, apenas 6% das pessoas comem carne vermelha e, em Espanha, a maioria das pessoas não pode sequer comer carne vermelha uma vez por semana – há que pagar por poluir (electricidade cara, portagens de auto-estrada, etc.).

Confiamos na evidência científica e, por isso, analisamos e denunciamos a vasta operação de mistificação que está a ser preparada, a fim de procurar o apoio da população – e o consenso das organizações operárias – às “necessárias e dolorosas” transformações que estão a ser preparadas. Para a o bem do nosso planeta, segundo nos dizem, há que desmantelar a grande maioria das indústrias, fechar as minas, perder centenas de milhares de empregos bem pagos e com direitos, e inclusive renunciar a pretensos luxos como o consumo de carne.

Algumas das consequências destas transformações que estão a ser preparadas, já as estamos a sentir. Por exemplo, o desproporcionado aumento do preço da electricidade – causada, entre outras coisas, pela eliminação da produção em centrais térmicas de carvão e pelo aumento dos preços do gás. Aumento que é devido ao aumento da procura, mas também ao aumento dos direitos de emissão de CO2 (Antes da pandemia COVID-19, o contrato de emissão de carbono rondava os 20 euros por tonelada; em Dezembro de 2020, superou pela primeira vez os 35 euros; e, no passado mês de Agosto, atingiu os 55,72 euros por tonelada de CO2). A vice-presidente do governo e ministra para a Transição Ecológica e Desafio Demográfico, Teresa Ribera, não defende o meio ambiente mas sim os planos, supostamente ecológicos, das multinacionais. Está a preparar um novo plano para a electricidade, que tem uma condição prévia: que garanta mais lucros às companhias eléctricas do que o descarado sistema actual.

As centenas de milhares de pessoas das classes trabalhadoras que vão passar frio este Inverno por não poder pagar a factura da electricidade, os trabalhadores das indústrias “electro-intensivas”, que estão a ser ameaçadas de encerramento, não podem aceitar a chantagem que enganosamente finge colocar as suas necessidades básicas em confronto com a defesa do planeta.

Todos “ecologistas”?

Ao mesmo tempo, cada vez mais organizações e partidos – incluindo os que afirmam representar a classe operária – declaram-se “ecologistas” ou “eco-socialistas”. A este respeito, é preciso lembrar que a Ecologia é uma ciência, mas a Ecologia política é uma corrente ideológica, E, portanto, não científica.

É inegável que os desequilíbrios climáticos se têm agravado nos últimos anos. Mas a atitude geral daqueles que se reclamam da Ecologia política é de responsabilizar os seres humanos pelos problemas climáticos e os danos do meio ambiente, numa grande campanha de culpabilização. Ao contrário, nós não responsabilizamos os seres humanos, mas sim o sistema capitalista. Porque não são os seres humanos que tomaram as decisões que nos conduziram a esta situação, mas antes a minoria capitalista, que mantém a propriedade privada dos meios de produção e que, na crise da sua agonia, multiplica a destruição. Só o socialismo poderá pôr fim às consequências destrutivas do capitalismo sobre o meio ambiente.

Evidentemente, isto não significa que defendamos que não haja nada a fazer daqui até à instauração do socialismo. Mas é necessário não nos enganarmos sobre qual é o inimigo. O responsável é o capital e não o ser humano.

São muitas as fábricas que poluem. Existem meios técnicos para reduzir essa poluição, mas isso significa fazer investimentos dispendiosos, e o capital não tem nenhum interesse nisso, a fim de preservar os seus lucros. Se a legislação ambiental o aperta, prefere deslocalizar a produção. Por exemplo, ao mesmo tempo que se encerra a Central térmica de As Pontes, na Corunha, uma multinacional francesa abre uma nova Central térmica a carvão em Safi (Marrocos), com uma potência de quase 1.400 megawatts (MW), mais do que qualquer Central nuclear espanhola e praticamente igual à de As Pontes, e com um custo de produção 50% mais baixo por MW. Não admitimos quaisquer encerramentos, nenhum despedimento com base numa suposta defesa do meio ambiente. E ainda menos quando o fazem com promessas de empregos alternativos que nunca chegam, como no caso das Astúrias, Leão, Galiza ou Teruel.

A população não é responsável

Quem é o responsável pela explosão que ocorreu em 2020 na plataforma petroquímica IQOXE em Tarragona, na qual morreram três pessoas? A população de Tarragona ou os patrões que não respeitam normas mínimas de segurança?

Não foram todos os governos, desta ou daquela cor política, que desenvolveram políticas de encerramento das linhas ferroviárias, de eliminação de comboios, de destruição da RENFE (Red Nacional de los Ferrocarriles Españoles), em benefício das grandes empresas de transporte rodoviário, quatro vezes mais poluentes que os comboios?

Quem é o responsável pelo facto de cada vez mais habitantes deste país, sobretudo nas zonas rurais – confrontados com a desertificação médica, o encerramento dos serviços públicos e das agências bancárias, ou a supressão de linhas ferroviárias secundárias – não tenham outra opção senão deslocarem-se no seu carro para o trabalho, para ir a uma consulta médica, ir receber o salário ou a pensão de aposentação, ou levar os filhos à escola?

Quem decidiu a deslocalização para a China e para o Sudeste Asiático, que levou ao desemprego milhares de trabalhadores em Espanha (veja-se, por exemplo, os sectores dos têxteis ou dos pequenos electro-domésticos), e que resultou na produção de quase tudo na China, e, portanto, com o transporte de todas essas mercadorias por meio de navios porta-contentores gigantes, que funcionam com um combustível de muito má qualidade, tóxico, e emitindo consideráveis resíduos poluentes? Milhares e milhares de porta-contentores gigantes sulcam os mares do planeta. Quem é responsável pela difusão do plástico na Natureza ou nos mares, senão as grandes empresas fabricantes de plástico que generalizaram o seu uso em todo o lado, inclusive para muitas coisas que não são necessárias?

Os seres humanos não têm nenhuma responsabilidade pelo facto de se verem obrigados a comprar esses produtos.

Quem é responsável pela criação dessas enormes explorações industriais com milhares de vacas ou das explorações avícolas, altamente poluentes e que privam a agricultura tradicional da maior parte do mercado, em detrimento da qualidade dos produtos? Quem é responsável pela desflorestação, especialmente na Amazónia? As populações indígenas – que vivem da caça e da colheita manual, e que cortam algumas árvores – ou os grandes trusts capitalistas que organizam a desflorestação em massa da floresta amazónica?

Consenso com o capital “em defesa do planeta”?

O que exprimimos acima explica porquê a luta pela defesa do meio ambiente exige o combate contra o capital. E é por isso que, quando se ouve Biden, Pedro Sánchez, o FMI, a União Europeia, a ONU (e o seu novo vídeo do dinossauro a falar na Assembleia-Geral) e aos grandes patrões – incluindo as empresas de energia – pronunciarem-se a favor de uma transição energética, não nos devemos deixar enganar. De facto, eles não se converteram à reivindicação do uso dos recursos naturais compatível com a sua preservação; pelo contrário, estão a utilizar esta questão com um único objectivo: reorganizar a produção de ramos inteiros, com centenas de milhares de despedimentos, com o objectivo de abrir novos mercados, como, por exemplo, o automóvel eléctrico, apesar de se saber actualmente que a produção de um carro eléctrico gera três a quatro vezes mais emissões poluentes e que não há capacidade para reciclar as baterias que eles utilizam. No total, a poluição causada pela vida de um automóvel eléctrico é semelhante à de um carro convencional.

Para conseguir estes objectivos, através de uma intensa propaganda, os governos e o capital procuram, em nome da protecção do Clima, criar um consenso que reúna governos, patronato, sindicatos, ONG, políticos, por um “capitalismo verde”, ou seja, para a defesa do Sistema capitalista repintando-o de verde.

Repitamo-lo uma vez mais: não há que apontar para o inimigo errado. A luta pela defesa do meio ambiente não pode ser separada da luta contra o capitalismo, e esta exige opor ao consenso a independência de classe e a luta de classes.

Publicado na Carta semanal do POSI (Partido Operário Socialista Internacionalista, Secção espanhola da 4ª Internacional), nº 859, de 1 de Novembro de 2021