Sobre os migrantes

Captura de vídeo feita a partir de imagens divulgadas pelos guardas de fronteira polacos, a 15 de Novembro de 2021, mostrando uma multidão de migrantes amontoados entre a Polónia e a Bielorrússia.

Imagens terríveis de ver a destes milhares de mulheres, homens e crianças, verdadeiramente amontoados na fronteira entre a Bielorrússia e a Polónia. Eles estão lá sem nada, enquanto a vaga de frio já chegou. A Polónia e a União Europeia (UE) acusam a Bielorrússia de incentivar os migrantes a entrarem ilegalmente na Polónia, com o objectivo de desestabilização e como reacção contra as sanções da UE contra a Bielorrússia.

Como é evidente, o presidente Lukashenko está a jogar com esta questão dos “migrantes”. Mas a Polónia também o está. E colocou na fronteira milhares de polícias e de soldados que estão a empurrar brutalmente para trás estes milhares de pessoas. Polónia – em conflito com as cúpulas da União Europeia pela sua recusa em ver o Direito europeu suplantar polaca – está a utilizar a questão dos migrantes para forçar a UE a mostrar solidariedade com o Governo polaco – dantes denunciado como antidemocrático e autoritário.

A Polónia começou a construir um Muro na fronteira com a Bielorrússia. Todas as chancelarias europeias apoiam esta “iniciativa”. As mesmas chancelarias que denunciaram a construção do Muro de Trump na fronteira dos EUA com o México.

Democratas do outro lado do Atlântico, mas não na Europa! Porque em toda a Europa, está a ser desenvolvida uma “caça ao migrante”: é a Grécia, que está a construir um Muro na fronteira com a Turquia, expulsando ou colocando-os em campos reais, ignorando mesmo as leis nacionais; é a Bulgária, que destacou o Exército para a fronteira turca.

E em França, “o país dos direitos humanos”, a caça aos “migrantes” está também a intensificar-se. Na fronteira com a Itália, acima de Briançon, a Polícia intervém para repelir seres humanos que atravessam a montanha sob um frio glacial. O Prefeito afirmou claramente: “Nenhuma estrutura de recepção será aberta pelo Estado.”  É em Calais onde vastas operações policiais não param de desmantelar os campos improvisados e expulsar os seres humanos. Note-se que estas pessoas estão em Calais porque querem ir para Inglaterra, não tendo sequer a intenção de ficar em França. Mas o Reino Unido está a pagar à França para evitar que estes “migrantes” cheguem ao seu território.

Isto é exactamente o que a UE está a fazer, ao pagar à Turquia para manter refugiados sírios, e é também o que ela faz através do financiamento de milícias líbias para impedir a travessia do Mediterrâneo.

Estas milícias, de triste reputação, matam migrantes, colocam-nos na prisão, roubam-nos, violam-nos e perseguem-nos, tudo com o financiamento da UE.

Um Relatório parlamentar, liderado por Sonia Krimi – que aliás é membro do República em Marcha (o Partido a que pertence Macron – NdT) – denuncia a atitude do governo de Macron em relação aos “migrantes”.

De acordo com os números da ONU, existem actualmente trezentos milhões de pessoas que tiveram de deixar o seu país. Fizeram-no por causa da guerra, da violência, da pobreza e da fome, ou simplesmente foram expulsos. Mas estas pessoas não são “migrantes”, eles são refugiados! E, na tradição democrática, o direito de asilo é inalienável.

Crónica de Lucien Gauthier, publicada no semanário francês “Informations Ouvrières”Informações operárias – nº 682, de 24 de Novembro de 2021, do Partido Operário Independente de França.

UCRÂNIA – CARTA ABERTA AOS TRABALHADORES DA BIELORRÚSSIA

Quando acaba de ser tornado público o apoio de Putin ao regime em vigor na Bielorrússia – com uma “doação” de 1,2 mil milhões de euros, destinados em particular a “manter a ordem no país” – e o presidente Lukashenko (reeleito pela 5ª vez de maneira fraudulenta) faz uma amálgama da situação no seu país com a que teve lugar na Ucrânia, em 2014, “como estando a ser instrumentalizado por forças externas”, é muito importante esta carta aberta dos sindicatos independentes ucranianos dirigida aos trabalhadores bielorrussos.

«Apoiamos firmemente as vossas reivindicações democráticas actuais de mudança radical da sociedade bielorrussa»

Publicamos abaixo amplos extractos dessa carta aberta dos sindicatos independentes ucranianos dirigida aos trabalhadores bielorrussos, parte integrante do levantamento actual no seu país.

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Bielorrússia: “Lukashenko, vai-te embora!”

Desde 9 de Agosto têm-se intensificado as manifestações na República da Bielorrússia, país da Europa oriental (antigamente integrado na URSS) que tem fronteira com a Rússia, Ucrânia e Polónia. O processo foi “detonado” quando os primeiros resultados oficiais das eleições presidenciais apontavam para a vitória de Alexander Lukashenko, no poder desde 1994 e que concorria ao seu sexto mandato.

Houve um levantamento do povo, com a participação activa dos sindicatos, que a 17 de Agosto realizaram uma greve agrupando mais de 40 empresas de todo o país. No dia anterior (16 de Agosto), numa gigantesca mobilização, os manifestantes gritavam “Fora, fora!”, dirigindo-se a Lukashenko. Apesar da repressão selvagem, as mobilizações prosseguem.

Continuam as manifestações

No decurso das manifestações, as imagens do presidente da República da Bielorrússia a descer do seu helicóptero em pleno coração da capital, Minsk, com uma arma nas mãos, acompanhado pelo seu filho vestido com um colete à prova de balas e também a segurar uma arma, foram amplamente divulgadas. O presidente aproximou-se do cordão de forças especiais e agradeceu-lhes, dizendo: “Vocês são excepcionais! Nós vamos ocupar-nos da situação!”

Do outro lado do cordão estavam dezenas de milhares de pessoas, com crianças e famílias…

É preciso ter em conta esses milhões de pessoas, que protestam sem líderes proclamados e que agem de forma espontânea. O povo não está a seguir um programa político comum. A única coisa que o une é a palavra de ordem “Lukashenko, vai-te embora!”.

A classe operária no centro do processo

Largas camadas da população colocaram-se em movimento. A manifestação foi apoiada até por trabalhadores da televisão pública, que foram rapidamente substituídos (temporariamente?) por trabalhadores convidados da Rússia. Os educadores, que tinham sido advertidos com a possibilidade de serem despedidos por falta de patriotismo, também receberam ameaças.

Tudo isto está a acontecer numa República liderada por um presidente colado à sua poltrona há vinte e seis anos. É claro que, para um país da ex-URSS, isso não tem nada de original. Em todas as ex-repúblicas soviéticas, os regimes autocráticos são governados por antigos e inamovíveis funcionários do Partido Comunista. Na maioria desses países da ex-URSS, os presidentes não representam o povo e governam ameaçando-o.

As manifestações na Bielorrússia começaram bem antes das eleições presidenciais. As autoridades usaram a retórica da ameaça de ingerências externas vindas do Oriente e depois do Ocidente. Este é o destino dos pequenos países: eles são joguetes dos “imperialismos”.

Lukashenko continua a oferecer garantias a Putin, sendo a última delas a possibilidade de este testar na Bielorrússia a vacina russa contra Covid-19. Tudo isto é feito para convencer o aliado russo da sua lealdade e evitar a ocupação directa, como foi o caso noutras repúblicas pós-URSS. Lukashenko não está satisfeito com o Kremlin. E o Kremlin vem travando uma guerra de desinformação contra ele desde há muito tempo.

De qualquer forma, a classe operária bielorrussa colocou-se em movimento e está no centro do processo político que está em curso.

Repressão contra os representantes eleitos dos grevistas

Já antes em marcha, o movimento dos trabalhadores fora dos sindicatos do Estado está a ganhar força e eles estão a ingressar em sindicato independentes. Comités de greve foram criados em todo o país para liderar manifestações locais. Eles reagrupam militantes de sindicatos independentes e trabalhadores não sindicalizados. Nos dias 23 e 24 de Agosto, ocorreram prisões de alguns destes representantes da classe operária: foram presos os dirigentes dos comités de greve da fábrica de automóveis de Minsk e da fábrica de tractores de Minsk. Mas isso não “cortou a cabeça” aos comités de greve. A 24 de Agosto, num dos maiores parques industriais do país, Belaruskali, começou uma “greve à italiana” [braços cruzados em frente das máquinas, NdT]. Na prática, isso desacelera e paralisa a produção.

Os trabalhadores em greve têm uma reivindicação principal e crucial contra as normas do Código do Trabalho, que os tornam semi-escravos, sem garantia de emprego: todos os empregados são exclusivamente contratados a prazo.

As greves massivas assustam o poder autocrático. É por isso que o presidente se deslocou recentemente junto dos trabalhadores em greve, falando em possíveis concessões e numa saída da Presidência sob condições. Enquanto a 22 de Agosto, tinha ameaçado fazer um lock-out das empresas em greve e despedir os grevistas. E, em simultâneo, lançou um apelo aos trabalhadores do estrangeiro para quebrarem a greve, por exemplo aos mineiros ucranianos, mas até agora nenhum Director de mina respondeu…

Não há dúvida de que o despertar da classe operária da Bielorrússia terá repercussões para além das fronteiras do país, na Rússia, na China,…

Correspondência de Minsk, publicada no semanário francês “Informations Ouvrières” – Informações operárias – nº 619, de 26 de Agosto de 2020, do Partido Operário Independente de França