As razões da demissão da ministra da Saúde

A ministra da Saúde, Marta Temido, pediu a demissão que o chefe do Governo, António Costa, aceitou de imediato.

Marta Temido apresentou como razão do seu pedido não ter condições para responder aos problemas com que se debate o Serviço Nacional de Saúde (SNS).

A este propósito, publicamos o depoimento de Guadalupe Simões – vice-Presidente do Sindicato Enfermeiros Portugueses (SEP/CGTP) – que desvela as verdadeiras razões dessa demissão: as dificuldades da ministra ao tentar operacionalizar a nova Lei de Bases da Saúde, cujo espírito é o de garantir um verdadeiro SNS da responsabilidade do Estado, no quadro de um Orçamento que garanta a valorização das carreiras dos seus profissionais, entre as quais a dos médicos, parando com o processo de delapidação do serviço público.

Após o anúncio da demissão da ministra, a CGTP convocou de imediato uma manifestação nacional em defesa do SNS, para o próximo dia 15 de Setembro.

Como dizem os militantes defensores dos SNS: “O público é de todos, o privado é só de alguns!”.

Depoimento de Guadalupe Simões, dirigente nacional do SEP

A nova Lei de Bases da Saúde resultou de um compromisso do PS e com Marta Temido enquanto ministra da Saúde, num momento em que, com o PCP e o BE, foi possível ter uma maioria parlamentar de esquerda. O estatuto do SNS deveria ser elaborado na esteira dessa Lei.

Ao aceitar a constituição de um Conselho Directivo responsável pela gestão financeira do SNS e independente do Ministério da Saúde, a ministra abriu a porta à possível subversão do estatuto do SNS. Tudo dependerá das competências atribuídas a esse Conselho Directivo e às orientações políticas do Governo e do Ministério da Saúde para o sector.

Este Conselho irá decidir a forma como as verbas serão distribuídas, quer no suporte aos serviços de Saúde (garantidos a partir do SNS), quer daqueles com quem o Estado possa vir a fazer contratos, nomeadamente, os sectores privado e social.

Recordemos que a Lei de Bases da Saúde determina que “de forma supletiva e temporária” podem ser feitos protocolos com aqueles sectores para garantir as respostas em Saúde que o SNS não consegue dar. Registe-se, de forma supletiva e temporária!

A criação de uma estrutura semelhante no SNS inglês é encarada como uma das causas para o contínuo desmantelamento do serviço público de Saúde e para as inúmeras dificuldades de acesso com que o povo da Inglaterra está confrontado. O Conselho Directivo do SNS inglês – para o qual foram sempre nomeadas personagens ligadas ao capital financeiro (Banca, Seguros, etc.) está a potenciar a captura do serviço público de Saúde pelos privados.

A política do PSD, do CDS e da Iniciativa Liberal assenta no princípio de que o Estado deve ser o pagador dos serviços de Saúde que os privados deverão assegurar.

Toda a pressão é feita neste sentido, passando por dentro do PS, e pelo Presidente da República (PR).

O Conselho Directivo do SNS, que Marta Temido aceitou, até poderá ter as competências bem definidas, a serem implementadas no quadro do actual Governo; mas, com outro Governo (de ministros do PSD ou de outros como eles), sabe-se o que se espera.

Por isso, podemos concluir que este chamado Conselho Directivo – de que tanto falam o Governo e o PR – não será mais que a “comissão liquidatária do SNS”.

Durante sete anos, o Governo não respondeu aos problemas dos trabalhadores da Saúde e das suas carreiras, nas quais se destacam os das carreiras médicas.

Esta política permitiu a continuação do negócio dos privados, aliciando os médicos – com os preços que oferecem – a saírem do SNS para o privado, ou a serem pagos, através das empresas de subcontratação, como tarefeiros, nos hospitais públicos.

O dinheiro esbanjado em horas extraordinárias tem sido a opção do Governo, alimentando e arrastando o processo de destruição do SNS, um processo que se desenvolve de múltiplas maneiras: através de lóbis da Saúde, dentro dos próprios hospitais, e com as Ordens profissionais do sector a ajudar.

Lembremos que é a Ordem dos Médicos quem obstaculiza a formação dos jovens médicos como especialistas, através da definição do “numerus clausus” de acesso aos internatos das diferentes especialidades, por ela ditados.

Pertenço a um grupo de cinquenta pessoas, do sector da Saúde, que têm uma visão própria sobre a organização do SNS.

Para este grupo, essa organização deve assentar no princípio de que as políticas de Saúde têm que ser garantidas pelo Estado, tendo como preocupação central garantir o bem-estar e a qualidade de vida de cada população e não apenas uma resposta para a doença.

Tem que ser uma política assegurada a partir de serviços locais articulados, que deverão ser responsáveis por políticas abrangentes.

Seriam serviços organizados em sistemas locais de Saúde, articulando as respostas quer dos Centros saúde, quer dos hospitais, quer de outras organizações (por exemplo, as autarquias, as escolas, a Segurança Social, etc.). Afinal, a “saúde em todas as políticas”!

Cada Sistema local de Saúde teria um Conselho de Administração responsável pela gestão do respectivo Orçamento, que tem de ser assegurado directamente pelo Poder central.

Guadalupe Simões – que considera que a ministra da Saúde capitulou perante os lóbis da Saúde, perante a Ordem dos Médicos e perante as forças de direita dentro do PS – estava de acordo com a visão desta ministra sobre a negociação das carreiras do pessoal da Saúde, de uma forma integrada, e não no quadro de uma negociação independente em relação a cada sector, da qual os médicos não abrem mão.

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