Guerra e capitalismo

Biden ameaçou a Rússia, dizendo: “Não pensem sequer em avançar um centímetro para o território da NATO.” Isto diz tudo! Ele não está a falar da Europa, mas sim de “território da NATO”; NATO que, sob a égide dos EUA, tem como objectivo reorganizar todas as relações políticas na Europa.

O Presidente dos EUA na cerimónia de comemoração da entrada em funções do submarino Delaware, no porto de Wilmington, a 2 de Abril de 2022.

A União Europeia está desmoronada, em crise. Todos os governos são atingidos. Mas já não estamos em 1945, quando os Estados Unidos da América reorganizavam, com o Plano Marshall e a NATO, a “reconstrução” da Europa. O imperialismo norte-americano já não pode assegurar, nas condições mundiais actuais, o seu papel de polícia do mundo. Ele próprio está em crise e não consegue lidar com a instabilidade geral da situação mundial.

Os EUA têm um grande problema: o lugar da China no mercado mundial e, por conseguinte, o lugar da economia dos EUA à escala internacional. Os EUA agarraram a questão ucraniana como um meio para desmantelar o regime de Putin e permitir que o capital norte-americano possa penetrar amplamente e pilhar a riqueza da Rússia. Em defesa dos interesses do seu clã de oligarcas e do roubo contínuo da riqueza da Rússia, Putin desencadeou esta guerra sanguinária contra o povo ucraniano.

Mas a questão ucraniana, para os EUA, é acima de tudo um elemento de pressão sobre a China, para quebrar o bloco entre a Rússia e a China, a fim de isolar a China.

As sanções adoptadas contra a Rússia, especialmente a nível económico, são um aviso para a China. Aliás, os EUA têm pressionado os seus aliados europeus para que estes também exerçam pressão sobre a China (ver abaixo o nosso excerto do editorial do jornal Le Monde).

“A situação norte-americana não é isenta de paradoxos. A promoção do «made in USA» e do «Buy American», feita pela Casa Branca, coexiste com importações records (…). Importações que aumentaram o défice comercial com a China e que, com o peso dos direitos aduaneiros, mantêm os preços elevados para os consumidores. (jornal Les Echos, 1 de Abril). É esta inflação nos EUA, em conjunto com o aumento do preço da gasolina – um factor determinante para os Americanos – que pode levar à revolta da população norte-americana.

Dentro de alguns meses terão lugar as eleições intercalares (de meio-mandato) nos EUA. Na situação actual, estas eleições podem levar ao colapso da maioria do Partido Democrata. Num país fracturado – como o mostrou a eleição de Trump e também o assalto do Capitólio – um cenário em que Biden perca a sua maioria no Congresso poderia aprofundar ainda mais esta fractura e a crise de dominação política nos EUA.

Em pânico, Biden denuncia as companhias petrolíferas que estão “sentadas sobre os seus lucros recorde” em vez de aumentarem a produção. De facto, os trusts petrolíferos norte-americanos, a fim de preservarem a subida dos seus lucros, recusam-se a aumentar a produção. Biden foi forçado, portanto, a tomar uma decisão sem precedentes na história dos EUA: ir buscar 180 milhões barris de petróleo às reservas estratégicas do país.

A guerra na Ucrânia não é a causa da inflação nem da crise a nível mundial. Ela é um mero revelador. O aumento do preço do petróleo é bem anterior à guerra na Ucrânia. De facto, o seu preço tem vindo a aumentar há mais de um ano. A razão para a inflação é a especulação, que é inerente ao sistema capitalista.

Uma crise geral da economia capitalista pode acontecer a qualquer momento. O mercado mundial está em processo de desagregação, um mercado que é demasiado pequeno para os trusts. Eles estão, assim, a competir violentamente uns com os outros pela conquista de mercados.

A recusa dos trusts petrolíferos norte-americanos em aumentar a sua produção mostra que estes trusts e os monopólios em geral, a fim de defenderem os seus próprios interesses, espezinham os Estados nacionais.

Trump tinha decidido reindustrializar os EUA, relocalizando as empresas que tinham partido para a China. Biden declarou exactamente a mesma coisa. Mas nenhum deles o conseguiu fazer porque, para os trusts, a sobre-exploração dos trabalhadores chineses é muito mais rentável do que a dos trabalhadores norte-americanos. É sempre o lucro que predomina.

Esta feroz competição está na origem de muitas das guerras que têm atingido o nosso planeta, frequentemente com o objectivo de pilhar a riqueza deste ou daquele país.

Para eliminar a guerra, temos de erradicar a sua origem: o sistema capitalista!

Crónica de Lucien GAUTHIER publicada no semanário francês “Informations Ouvrières”Informações operárias – nº 700, de 6 de Abril de 2022, do Partido Operário Independente de França.

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Lido no editorial do jornal francês Le Monde

de 3 de Abril (extratos)

Os líderes da União Europeia – na sua Cimeira virtual com o Presidente chinês Xi Jinping e o Primeiro-ministro Li Keqiang, realizada a 1 de Abril – queriam tentar obter um compromisso da China de não contornar as sanções ocidentais contra a Rússia. Eles chocaram-se com uma parede. A China ficou surda aos apelos da Europa. O tempo das ilusões, para aqueles que ainda as tinham, sobre a atitude de Pequim, está claramente ultrapassado.

A discussão, disse a Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen – que a conduziu com o Presidente do Parlamento Europeu Charles Michel – foi “franca e aberta”, uma forma diplomática de dizer que ela foi desagradável. Os dois lados trocaram, salientou ela, ” pontos de vista claramente opostos”.

Eles devem, em primeiro lugar, preparar-se para tirar as consequências de uma possível cooperação mais concreta de Pequim com Moscovo sobre a Ucrânia: se a China ajudar a Rússia a contornar as sanções, advertiu Ursula von der Leyen, isso terá um impacto sobre o investimento europeu na China. Este aviso, sem dúvida audível em Pequim, numa altura em que o país atravessa uma turbulência económica, não deve passar despercebido. Mas terá também um efeito significativo nas economias europeias.

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