Ucrânia / Rússia: Descida da tensão?

Putin e Macron no seu encontro, a 7 de Fevereiro, no Kremlin.

Macron esteve em Moscovo, a 7 de Fevereiro, para se reunir com Putin. Em seguida, realizaram uma conferência de imprensa comum durante a qual a diplomacia mascaram mal o facto de nada se ter modificado.

Para Macron, o principal era apresentar-se como o presidente da Europa, um fazedor da paz, para uso interno, em vésperas das eleições presidenciais em França.

Para Putin, o problema principal são os EUA e o seu braço armado na Europa, a NATO.

Recordemos que a NATO foi formada em 1949 – sob a égide dos EUA – como um “bloco defensivo” face à “ameaça constituída pela URSS”. Era o tempo da Guerra Fria e da tomada de controlo da Europa pelos EUA, na sequência da onda revolucionária que tinha varrido todo o continente europeu em 1945.

Após o desaparecimento da URSS, longe de se dissolver a NATO foi reforçada para lidar com novos riscos “como o terrorismo e o fracasso do Estado”, leia-se um levantamento revolucionário.

Desde essa época, a NATO passou de 16 para 30 países, incluindo países do antigo bloco soviético, com a instalação de bases militares nos seus territórios. Foi claramente indicado que a Ucrânia devia ser membro da NATO, tal como a Geórgia (no Cáucaso).

Foi no tempo de Obama, seguido por Trump e depois por Biden, que os EUA exigiram que os países da NATO aumentassem os seus orçamentos militares para 2% do respectivo PIB.

A NATO – o pretenso organismo de defesa e segurança europeias – interveio na Sérvia, mas também no Afeganistão (após os ataques de 11 de Setembro de 2001, em Nova Iorque), apesar de estar longe da Europa. É também de notar que durante a lastimosa retirada dos EUA, neste Verão, os outros Estados-membros da NATO presentes no Afeganistão não tinham sido informados dessa decisão, indicando as reais relações dentro da Organização.

Desde o início daquilo a que a imprensa chama a “crise ucraniana”, os EUA enviaram vários milhares de tropas para a Europa, o Reino Unido fez o mesmo para a Polónia, bem como a Alemanha para os Estados Bálticos, e a França está prestes a fazê-lo para a Roménia. Trata-se de um verdadeiro cerco da Rússia, a juntar às sanções económicas já decretadas em relação a esse país.

Isto não altera a natureza autocrática e reaccionária do regime de Putin, mas não nos pode eximir de constatar que são os EUA que estão a manobrar contra Rússia e, ao mesmo tempo, a impor os seus ditames sobre os Estados-membros da União Europeia.

O presidente Biden deixou claro que quer acabar com a dependência da Europa em relação ao gás russo e a necessidade de diversificar as compras, incluindo a compra de gás liquefeito dos EUA. Além disso, Biden – em linha com o que Trump defendia – opõe-se à abertura do novo gasoduto russo que liga directamente a Rússia com a Alemanha, através do norte, em substituição do gasoduto que passa pela Ucrânia.

Deve ser lembrado que, após a sua independência, a Ucrânia, entre 1995 e 1999, se tornou no terceiro maior beneficiário do investimento externo dos EUA. Foi nessa época que a Ucrânia se candidatou à adesão à NATO. Nessa altura, o diário norte-americano San Francisco Chronicle escreveu: “Uma Ucrânia independente e voltada para o Ocidente poderia também tornar-se num parceiro crucial para os EUA e numa potencial retaguarda para as suas buscas de petróleo na Região do Cáucaso.”

As aspirações nacionais do povo ucraniano não têm nada a ver com os interesses políticos e económicos dos EUA. O uso do nacionalismo por parte dos sucessivos governos ucranianos enfeudados aos EUA, tal como o nacionalismo grã-russo de Putin, têm como objectivo dividir os povos da Ucrânia e da Rússia, os quais possuem uma história comum de várias dezenas de séculos.

O imperialismo norte-americano é o principal responsável pela militarização da Europa, sob o seu controlo, com uma possível derrapagem – que não pode ser excluída – a qual conduziria à guerra na Europa.

Crónica de Lucien GAUTHIER publicada no semanário francês “Informations Ouvrières”Informações operárias – nº 692, de 9 de Fevereiro de 2022, do Partido Operário Independente de França.

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