Brasil: Depois do 19 de Junho, uma nova situação se abre

O 19 de Junho demonstrou que as manifestações pelo fim imediato do governo de Bolsonaro crescem em todo o país. Elas tiveram lugar em mais cidades do que as ocorridas em 29 de Maio, foram ainda maiores em várias capitais estaduais, incorporando – para além da juventude sempre presente – mais sectores populares, pressionando organizações e sindicatos a participarem nelas, num processo sem retorno que traduz a vontade maioritária do povo brasileiro de botar um fim, agora e já, ao governo de Bolsonaro, pois “ninguém aguenta mais”.

E não dá mesmo para aguentar um presidente que espezinha e zomba com o povo, submetendo-o à fome, à Covid-19 e ao desemprego, enquanto protege os seus familiares e milícias, acarinha as Forças Armadas com cargos e privilégios – sendo apoiado por generais nostálgicos da ditadura – e conta com a maioria de um Congresso reacionário para impedir o seu afastamento, apesar dos incontáveis crimes de responsabilidade por ele cometidos desde o início de seu nefasto mandato.

Um Congresso que acaba de privatizar a Eletrobras, que ataca os direitos dos povos indígenas, que se empanturra com biliões de reais do Orçamento secreto, além das rectificações ao Orçamento oficial, cujo presidente da Câmara (Arthur Lira, o actual presidente do Congresso) diz que continuará sentado em cima de mais de 100 pedidos de impeachment (destituição de Bolsonaro).

Sim, o governo de Bolsonaro é pior do que o vírus; por isso, as ruas são retomadas por centenas de milhares de manifestantes em todo o país. Tal como nos países vizinhos – Chile, Peru e Colômbia – o povo trabalhador vai-se dando conta que o problema não é só o Governo de plantão, por mais desqualificado que ele seja, mas das instituições que o geraram e que o sustentam.

É por isso que na luta contra governos de direita e pró-imperialistas – como os de Piñera no Chile e de Duque na Colômbia, ou na luta para impor a vontade popular que elegeu Pedro Castillo contra o “fujimorismo” no Peru – naturalmente surge, no seio das populações, a exigência de uma Assembleia Constituinte Soberana, que possibilite reconstruir a nação de acordo com os interesses de sua maioria explorada e oprimida, o que exige a ruptura com o imperialismo.

Também no Brasil está chegando a hora de dar a palavra ao povo, que é quem pode salvar a nação da destruição e reconstruí-la de acordo com seus interesses!

O primeiro passo nessa direcção é botar para fora o governo de Bolsonaro e os seus generais. Este é o grito que vem das ruas, neste momento de retoma da luta de massas. Agora e já, e não esperar pelo dia 3 Outubro de 2022 para derrotar Bolsonaro nas urnas. Como estará o Brasil até lá, dado o grau de destruição que já vivemos?

O que fará o tresloucado ex-capitão, senão tentar realizar a sua vocação golpista, apoiando-se nas milícias e nos sectores mais podres da sociedade, o que inclui empresá-rios sem escrúpulos que apoiam, através dos seus partidos, a política entreguista (1) e pró-mercado do ministro da Economia (Paulo Guedes), as privatizações e o desmantelamento dos serviços públicos, inclusive do SUS (Sistema Único de Saúde), em plena pandemia, como pretende a reforma administrativa?

É nesse quadro que o Diálogo e Acção Petista vai realizar a sua 2ª Assembleia Plenária Nacional, no próximo dia 3 de Julho, inclusive como instrumento de preparação de novas e ainda maiores manifestações pelo fim deste Governo, como a que agora está convocada para 24 de Julho.

À luta companheiros, nem um dia mais para Bolsonaro e os seus generais!

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(1) Termo utilizado, de forma pejorativa, a partir do final da década de 1940, para designar a corrente que defendia um modelo de desenvolvimento para o Brasil baseado na participação do capital internacional e na “entrega” da exploração das riquezas naturais a grupos estrangeiros.

(2) O “Diálogo e Acção Petista (DAP)” é um movimento de base do Partido dos Trabalhadores que combate para que o PT retome o caminho das suas origens.

Editorial do jornal “O Trabalho” – cuja publicação é da responsabilidade da Secção brasileira da 4ª Internacional (corrente do PT) – na sua edição nº 885, de 24 de Junho de 2021.

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