Ciência, luta de classes e revolução

É necessário dizer algumas palavras aqui (1) – apenas algumas palavras porque isso exigiria um estudo especial – sobre a destruição do ambiente natural do homem, em que a economia capitalista está a afundar o mundo cada vez mais depressa. As campanhas da grande imprensa e as declarações solenes dos políticos burgueses, de Nixon a Pompidou (2), são provavelmente o exemplo mais gritante dos meios de Comunicação social (“mass media”), que consiste em mentir, enganar e desmoralizar os seus leitores ou telespectadores, contando-lhes uma série de verdades separadas, isoladas umas das outras, num tom retumbante, enquanto bloqueiam qualquer possibilidade de acesso a uma visão de conjunto.

A poluição do ar, bem como a poluição da água, estão a tornar-se numa ameaça? É verdade. O aumento, devido às indústrias humanas, da proporção de dióxido de carbono e de poeira na atmosfera poderão mudar o clima do mundo? É possível, mas não está comprovado…

A destruição de centenas de espécies vivas e de milhares de hectares de florestas é um dano irreparável? Sim, sem dúvida. O uso descontrolado de quantidades enormes de insecticidas subverte a ecologia, levando – por ricochetes sucessivos – à destruição de muitas espécies vivas, especialmente das aves; além disso, insecticidas como o DDT concentram-se, como resultado de fenómenos biológicos, nos tecidos das espécies vivas ao ponto de o ser humano que as consome correr o risco de ser envenenado? Sim, sem dúvida; mas a solução não pode ser a supressão pura e simples dos insecticidas – como é defendido por uma série de pregadores “naturistas” atordoados – o que levaria a uma destruição massiva de cereais, transformando em fome a subnutrição crónica sofrida por centenas de milhões de seres humanos. Este exemplo é eloquente, na medida em que mostra perfeitamente que não se trata de um problema científico e técnico, mas sim de um problema político, e que só existe uma solução global, no sentido estrito do termo: à escala do globo terrestre.

O mesmo é válido para todos os problemas relacionados com a Ecologia, disciplina científica que estuda o equilíbrio de todas as espécies vivas, tanto animais como vegetais, e tem demonstrado, com uma superabundância de provas, que qualquer intervenção que modifique as condições de vida de uma única espécie provoca frequentemente uma reacção em cadeia modificando a vida de dezenas ou milhares de outras espécies, na maioria das vezes de uma forma catastrófica para o homem.

A procura imediata do lucro máximo por cada capitalista, bem como a anarquia que disso resulta (e que é própria deste modo de produção), têm tido – e têm todos os dias – resultados particularmente catastróficos, em particular no campo da Ecologia. Mas a solução é política e apenas política. É necessário que as massas trabalhadoras e exploradas se levantem contra os seus exploradores e quebrem as barreiras de propriedade dos monopólios capitalistas e dos Estados imperialistas, para tomarem nas próprias mãos o seu destino e o do seu planeta, e reorganizarem a actividade económica da raça humana, de acordo com um plano global único.

Depois, evidentemente, haverá muitos problemas científicos e técnicos a resolver, mas o “imenso potencial científico e técnico não utilizado” que se foi acumulando ao longo de séculos irá, sem dúvida, permitir resolvê-los – porque estes problemas serão finalmente colocados no único quadro em que podem ser resolvidos: fazer do planeta um jardim para a felicidade humana.

E, tal como Marx escreveu: “O trabalho… não é a única fonte dos valores de uso que ele produz, a única fonte da riqueza material. Ele é o pai e a é Terra a mãe, como diz William Petty.” (O Capital).

“O trabalho não é a fonte de toda a riqueza. A Natureza é também a fonte dos valores de uso (que são, afinal, a riqueza real) tal como a mão-de-obra…” (Crítica do Programa Gotha).

Quando se fala da transformação crescente das forças produtivas em forças destrutivas, à qual estamos agora a assistir, pensa-se essencialmente – e nós próprios sublinhámos isto – nos armamentos, na militarização do capitalismo mundial, denunciada pela primeira vez por Rosa Luxemburgo.

Mas a destruição do ambiente natural vem agora acrescentar-se a isso e combinar-se com isso, tornando-se num aspecto essencial deste fenómeno característico do capitalismo decadente, e que cria imensos obstáculos adicionais a serem ultrapassados para a construção do socialismo.

Para mostrar a magnitude destes obstáculos basta um único exemplo. Os grandes lagos da Terra – lagos norte-americanos, suíços ou russos (como o Mar Cáspio, pois neste campo, como em todos os outros, a casta burocrática da URSS tem demonstrado, nas palavras de Trotsky, “todos os defeitos de uma classe dominante, e nenhuma das suas qualidades”) – estão agora quase todos poluídos, para além do ponto de não retorno, ou seja, mesmo que a civilização humana desaparecesse subitamente, eles não poderiam regressar ao antigo equilíbrio apenas pela acção das leis da Natureza. E foi estimado que, para depurar os grandes lagos norte-americanos, seria necessário gastar o mesmo que para o Projecto Apollo (3) – cem mil milhões de dólares, ou seja, dez mil (ou cem mil) vezes mais do que teria sido necessário para evitar a tempo que o mal tivesse chegado a este ponto. Não é o Oceano que “está a morrer”, como disse o capitão Cousteau… Estão a matá-lo.

Para estes males só há um remédio: a revolução proletária. E é para a evitar, que existe a campanha feita, com grande aparato, pelos políticos e os meios de Comunicação social. À custa de verdades parciais, isoladas e deslocadas do seu contexto, afirmadas em termos impressionantes, na etimologia própria da palavra, essa campanha pretende persuadir as massas, neste campo como em todos os outros campos (especialmente no campo da guerra e da paz), de que elas nada podem fazer – que não se trata de um problema político, mas sim de um problema científico complexo que elas não podem compreender – e, assim, desviá-las da única saída: tomar o seu destino nas próprias mãos, tomar o Poder.

Contudo, naturalmente que os “business as usual” (os negócios do costume) continuam: Pompidou declara guerra à destruição do ambiente – e vende o Parque Vanoise ao capital faminto de lucro!

Digamo-lo novamente! Não há problemas técnicos neste domínio que não possam ser facilmente resolvidos – quer seja a construção de motores a gasolina não poluentes (à espera dos carros eléctricos, que estão apenas a alguns anos de distância e cujo desenvolvimento é agora apenas uma questão de recursos materiais), quer seja a recolha e destruição de embalagens de plástico que se acumulam, quer sejam os problemas da água ou do ar! O objectivo deste artigo não é demonstrar isto em detalhe (…).

O problema não é técnico: é político. É necessário destruir os Estados imperialistas, estabelecer o poder dos Conselhos (Sovietes) – e, em seguida, as conquistas do génio humano abrirão aos homens possibilidades ilimitadas que são verdadeiramente inimagináveis.

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(1) Esta passagem do artigo de Gérard Bloch foi publicada, pela primeira vez, na revista Novos Estudos Marxistas n° 3-4, de Dezembro de 1970, sob o título “A destruição do ambiente”. A sua actualidade merece ser sublinhada.

(2) Presidentes dos EUA e da França, respectivamente, à data da publicação deste artigo.

(3) O Programa Apollo foi um conjunto de missões espaciais coordenadas pela NASA, entre 1961 e 1972, com o objectivo de conseguir que o homem chegasse à Lua.

Este texto, da autoria de Gérard Bloch e da responsabilidade da Secção francesa da 4ª Internacional, voltou a ser publicado na Carta de A Verdade, nº 1027, de 6 de Maio de 2021.

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