Indústria farmacêutica e vacinação contra o Covid-19: O Baile dos Abutres

Enquanto o surto de Covid-19 continua a assolar toda a Europa, as autoridades sanitárias são levadas a abrandar ou mesmo a parar a campanha de vacinação, deixando novamente sem protecção (após a escassez de máscaras de há um ano atrás) as pessoas mais expostas e em maior risco.

A razão: um enorme atraso na entrega, pelos laboratórios farmacêuticos, de vacinas à União Europeia, um atraso não observado no Reino Unido, nos EUA e em Israel.

No último semestre de 2020, a União Europeia (UE) negociou com vários laboratórios a compra de vacinas contra o Covid, de acordo com o princípio do “contrato de compra antecipada”. A UE investiu, assim, mais de 2 mil milhões de euros em seis laboratórios farmacêuticos – sem saber, na altura, quais poderiam desenvolver uma vacina eficaz. Em troca, esses laboratórios comprometeram-se a fornecer as doses encomendadas da vacina, logo que a sua eficácia estivesse comprovada.

Agora, depois da campanha de vacinação ter começado, vários milhões de doses de vacinas adquiridas aos laboratórios ainda não foram entregues

Consequências em França: Centros de vacinação que permanecem vazios, três regiões (Hauts-de-França, Île-de-France e Burgundy-Franche-Comté) cessaram todas as suas campanhas de vacinação, enquanto o vírus se propaga, de forma considerável, em duas delas.

Porque é que as três empresas farmacêuticas – a Pfizer, a Moderna e a AstraZeneca, cujas vacinas foram aprovadas pela Agência Europeia do Medicamento (EMA) – não honram os seus compromissos?

O CEO (Director Executivo) da AstraZeneca é claro: “O Reino Unido é uma prioridade, porque assinou um contrato três meses antes da UE, porque a fábrica belga – que é suposta fornecer a vacina à Europa – tem tido menos sucesso do que estava planeado.”… Mas esqueceu-se de mencionar que a fábrica pertencia efectivamente a um subempreiteiro francês, a Novasep, que acabou de a vender a um Grupo norte-americano, a Thermo Fischer, por 725 milhões de euros (L’Usine nouvelle, 29 de Janeiro de 2021). Tal como se esqueceu de especificar que, enquanto o preço da vacina negociado com a UE é de 1,78 euros por dose, os EUA pagam cerca de 3,25 euros e a Índia 2,44 euros.

Onde está o interesse dos doentes em todo este negócio?

A Pfizer-BioNTech avança como causa do atraso na entrega de vacinas os trabalhos de melhoria a decorrer na sua fábrica belga em Puurs. O consórcio farmacêutico considera que pode ficar para trás nas entregas actuais para, subsequentemente, ter uma capacidade maior de produção. Argumento que não faz sentido, do ponto de vista médico, porque é agora que existe a necessidade de proteger as pessoas em risco de uma forma severa e/ou cujo risco de contaminação é considerável (como é o caso dos prestadores de cuidados).

Três mil assalariados trabalham na fábrica de Puurs, em três turnos de 8 horas e 7 dias por semana, para satisfazer a procura, mas não tiveram qualquer aumento de salário. 350 funcionários contratados em 2020 foram-no com contrato a prazo fixo (declarou Patrick Coppens, delegado sindical, numa entrevista ao jornal La Montagne, de 29 de Janeiro de 2021).

Os países que mais pagam são os primeiros a receber as vacinas

A Pfizer não faz segredo das suas variações de preços, que dependem da velocidade da entrega: aqueles que mais pagam são os primeiros a receber as vacinas. Assim, enquanto o contrato com a UE prevê 12 euros por dose, os EUA pagam 15,8 euros, o Reino Unido 16,6 euros e Israel 22,7 euros (BFM Business, 6 de Janeiro de 2021).

O Banco norte-americano Morgan Stanley estima que as vendas da Pfizer-BioNTech, ligadas à vacina anti-Covid, atingirão 19 mil milhões de dólares em 2021. Isto deve ser comparado com o seu volume de negócios, estimado para 2020, que foi de 975 milhões de dólares (CNN Business, 11 de Dezembro de 2020).

Por exemplo, as grandes empresas farmacêuticas receberam o dinheiro da UE no Outono de 2020 para desenvolver a vacina contra o Covid. Agora, perante uma situação de carências mais ou menos criadas (existia urgência em modernizar a fábrica de Puurs?), distribuem as suas vacinas ao licitante com a maior oferta, de acordo com uma lógica capitalista perfeita em busca do lucro máximo.

A escassez de vacinas (em França) é acentuada pelos resultados decepcionantes da vacina desenvolvida pela Sanofi e o abandono da vacina do Instituto Pasteur

Os ensaios clínicos da vacina da Sanofi mostram uma resposta insuficiente em pessoas mais velhas, uma vez que as doses injectadas são demasiado fracas. Porquê? “Os reagentes para medir a quantidade de antigénios não eram de boa qualidade”, diz Thomas Triomphe, que dirige o Departamento de vacinas da Sanofi. Como não ligar um erro tão grosseiro com a política da empresa farmacêutica que despediu 400 investigadores em 2020, e reduziu os seus Centros de investigação (de onze em 2009 para cinco em 2020, dois dos quais serão fechados em 2021)?

Portanto, a Sanofi recebeu 62 milhões de euros da UE para desenvolver uma vacina que estará disponível, no melhor dos casos, dentro de um ano. Entretanto, ela está a produzir a vacina da sua concorrente Pfizer, como o faria um laboratório de genéricos, porque a produção de medicamentos é mais rentável do que a investigação, e distribuiu 45 milhões de euros aos seus accionistas.

Na selva que é a produção de vacinas anti-Covid, as empresas farmacêuticas são piores que abutres

O Instituto Pasteur não recebeu nenhum apoio financeiro da UE. A sua vacina, no início, não obteve os resultados esperados. De imediato, o laboratório Merck – que está associado ao Instituto Pasteur – parou completamente os testes, embora não tivessem sido exploradas todas as pistas. “Uma decisão industrial estratégica que prejudica a Ciência, mas feita por uma instituição que se respeita a si própria”, comenta na rádio France Inter o professor Tangy, chefe do laboratório de inovação de vacinas no Instituto Pasteur. Este cientista lamenta sobretudo a paragem da investigação sobre a vacina porque ela ficaria muito barata (menos de 1 euro por dose) e por o Institut Pasteur a destinar principalmente aos países pobres.

Na selva da produção de vacinas anti-Covid, as empresas farmacêuticas são piores que os abutres. Eles – os pássaros – não matam e impedem a propagação de doenças, comendo as carcaças. Pelo seu lado, as empresas farmacêuticas, com a única lógica de obtenção de lucro, estão dispostas a deixar a epidemia desenvolver-se, com o seu cortejo de mortes diárias.

E é delas que Emmanuel Macron vai à procura para lhes confiar, à custa de muitos milhões de euros, a saúde da população francesa.

Nota de Marie-Paule Lemonnier (médica) publicada no semanário francês “Informations Ouvrières” – Informações operárias – nº 640, de 3 de Janeiro de 2021, do Partido Operário Independente de França.

Flashes sobre o Covid

Enorme jackpot para a Pfizer: 30% de lucro na sua vacina anti-Covid

Nova Iorque, 2 de Fevereiro de 2021 (AFP) – O Grupo farmacêutico norte-americano Pfizer estima que as vendas da vacina anti-Covid – desenvolvida em parceria com a empresa alemã BioNTech – atingirão cerca de 15 mil milhões de dólares, durante todo o ano 2021, uma soma colossal que poderá ainda aumentar se o laboratório assinar contratos adicionais.

Esta vacina será, assim, um dos maiores “blockbusters” (sucessos) na história da indústria farmacêutica.

A Pfizer, que divulgou os seus resultados trimestrais a 3 de Fevereiro, espera poder conseguir uma margem de lucros (antes de impostos) sobre o valor das suas vendas de aproximadamente 25% a 30%. O Grupo, que já tinha fornecido no início de Janeiro uma estimativa inicial dos seus ganhos ajustados por acção, identificou essa subida após cálculos mais refinados sobre as potenciais receitas da vacina anti-Covid.

Lido no jornal francês Les Échos, de 29 de Janeiro

“Um estudo que põe em causa a eficácia do confinamento” (excertos)

(…) É uma verdadeira pedrada no charco. Enquanto o Governo, sob pressão de algumas pessoas do mundo médico, está seriamente a considerar a oportunidade de um terceiro confinamento, “mais apertado” do que o anterior, um estudo, publicado a 5 de Janeiro no European Journal of Clinical Investigation, uma revista científica de média notoriedade, está a incendiar as redes sociais – se não no público em geral, pelo menos na pequena comunidade de epidemiologistas, virologistas… e outros peritos em pandemias.

O que lhe dá todo o seu peso é o facto de estar assinado pelo Prof. John Ioannidis, uma sumidade da Epidemiologia da Universidade de Stanford, nos EUA, cujos trabalhos são reconhecidos pela Comunidade científica (ele é mesmo um dos cientistas mais citados do mundo). Ora, o que sugere o estudo que ele acaba de lançar? Que o confinamento e encerramento de empresas e lojas não são mais eficazes – em termos de diminuição do número de casos de contaminação – do que medidas simples (como o uso de máscara, a lavagem das mãos e o distanciamento físico).

Passa-se exactamente o contrário. De acordo com os dados recolhidos e analisados por John Ioannidis e a sua equipa, os dois confinamentos que a França viveu (17 de Março a 11 de Maio e 30 de Outubro a 15 de Dezembro), promovendo a contaminação dentro de cada agregado familiar, não terão feito senão tornar um pouco piores os efeitos da epidemia – sem falar dos inúmeros efeitos colaterais (económicos e sanitários) destes confinamentos. Trata-se de conclusões que obviamente não reúnem consenso, muito longe disso, mas que constituem um documento adicional a juntar ao dossier, no dia anterior à decisão (de terceiro confinamento) do Presidente da República.

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