Europa: A revolta cresce

Em muitos países da Europa estão a ter lugar manifestações contra as leis de emergência (chamadas “sanitárias”) e, nomeadamente, em tempos recentes, em Itália e na Alemanha. Imediatamente a imprensa – particularmente em França – ficou em alvoroço, acusando a extrema-direita em Leipzig e a Camorra (Máfia) em Nápoles de serem os instigadores e líderes destas manifestações. Para esses “comunicadores”, cada Alemão é potencialmente um nazi, e cada Italiano potencialmente mafioso.

A realidade é bastante diferente. Roberto Saviano, um escritor anti-Máfia, pronunciou-se sobre as manifestações na sua cidade de Nápoles, que ele descreveu como “manifestações de desespero”. As manifestações estão a ter lugar em muitas cidades italianas (Milão, Roma,…), juntando pequenos comerciantes, assalariados do comércio, desempregados e precários, mas também em Génova, onde jovens, famílias, reformados e estudantes declararam conjuntamente: “Este confinamento é para benefício exclusivo de algumas mega-multinacionais”. Em Roma, no dia 17 de Novembro, os estudantes concentraram-se diante do Parlamento. Eles denunciaram a esquerda e a direita que se sucederam no Governo, cortando 2,3 mil milhões de euros do Orçamento para o Ensino superior durante os últimos 12 anos. E um representante estudantil declarou, no seu discurso: “Não há equipamento, nem instalações, nem professores, nem sequer um banco para nos sentarmos. Exigimos dinheiro para a educação; somos contra o ensino à distância, que cria estudantes da série A e estudantes de série B!”.

Houve também muitas manifestações na Alemanha, inclusive em Leipzig, cidade da antiga República Democrática Alemã (RDA), situada numa região atingida pela desindustrialização e cuja população foi atirada para a miséria.

Foi este evento, a 7 de Novembro, que foi denunciado como sendo de “extrema-direita”. Mas dezenas e dezenas de milhares de pessoas juntaram-se, submergindo os bloqueios montados pela Polícia no caminho para o “Leipziger Ring”, a famosa alameda circular desta cidade da Alemanha Oriental onde tiveram lugar as “Manifestações das segundas-feiras” em 1989. É claro que há confusões, ilusões, activistas de extrema-direita, charlatães.

Mas quando dezenas de milhares se manifestam no “Ring”, a cantar – tal como em 1989 – “Nós somos o povo! Revolução pacífica 2.0!”, eles estão a procurar religar-se aos acontecimentos revolucionários que derrubaram a burocracia da RDA e o Muro de Berlim! Eles querem reapropriar-se desse ponto de viragem de 1989, 31 anos exactos após a demissão do Conselho de Ministros da RDA. É verdade: a 6 de Novembro de 1989, centenas de milhares ocuparam o “Ring” e, três dias mais tarde, a 9 de Novembro, o Muro caiu.

As actuais manifestações são de facto contra a política governamental em Itália e, na Alemanha, contra a coligação SPD-CDU.

E o que estão a fazer as cúpulas das confederações sindicais, perante a política dos governos que utilizam a pandemia e o confinamento para organizar um verdadeiro massacre social?

Em Itália, as confederações sindicais assinaram um pacto social com o Patronato e o Governo. Na Alemanha, as cúpulas da DGB (a principal Confederação sindical) submetem-se à “Grande Coligação”. Esta política é contraditória com a vontade de muitos sindicalistas e dirigentes intermédios que procuram organizar a resistência.

Nestas manifestações está integrada a massa dos menos favorecidos, reduzidos a nada, que saem fora dos quadros tradicionais. Teriam eles que pedir autorização às cúpulas das confederações? Estes movimentos são um indicador da rejeição das políticas seguidas durante décadas; elas fazem parte integrante da raiva que cresce no seio dos trabalhadores e das populações.

Usando a presença de alguns activistas da extrema-direita, no início do movimento dos Coletes amarelos, houve quem explicasse que “sob os coletes amarelos, havia as camisas castanhas”. Este movimento dos Coletes amarelos, que surgiu de fora das estruturas tradicionais, fazia parte do movimento geral contra o Governo, como atesta a sua participação massiva ao lado dos sindicalistas na mobilização contra a reforma das pensões de aposentação.

Em todos os países, a revolta dos que “morrem de fome” está a crescer. Os seus gritos anunciam a tempestade.

Tal como Lenine defendia, os “operários avançados” devem participar nestas mobilizações para as unir e ajudar a que se voltem, consciente e resolutamente, contra os governos e o capital.

Assim, com o nosso semanário Informations ouvrières, vamos agir nessa via!

Crónica de Lucien GAUTHIER, publicada no semanário francês “Informations Ouvrières” – Informações operárias – nº 633, de 2 de Dezembro de 2020, do Partido Operário Independente de França.

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