Organizar a resistência frente aos planos do capital financeiro

Capa da versão portuguesa do número anterior (105) da Revista teórica da 4ª Internacional.

Como é habitual, “A Verdade” (1) expõe as suas análises sobre os desenvolvimentos da luta de classes em diferentes países e continentes. Uma situação na qual, como assinalam as primeiras linhas das Notas editoriais, “o afundamento do conjunto da economia mundial que teve lugar durante o primeiro trimestre do ano de 2020 estará longe de ter produzido todos os seus efeitos devastadores. A magnitude da destruição provocada e as mais elementares exigências de sobrevivência para centenas de milhões de seres humanos à escala planetária terão contribuído, não tenhamos dúvidas, para restabelecer o lugar relativo daquilo que se convencionou chamar a ‘crise sanitária’ e da crise de todo o Sistema de dominação imperialista em plena desintegração.”

Essas Notas editoriais explicam, precisamente, como a recessão já estava a caminho antes que a pandemia tivesse sido a gota que fez transbordar o copo. Mas o capital necessitava de “apontar um inimigo externo à sociedade e aos seus conflitos internos, um inimigo que possa ser considerado uma ‘fatalidade’. E, recuperando a tónica do ‘medo do Ano Mil’, encontraram o inimigo público número um: o Coronavírus.”

Ao mesmo tempo, milhões de trabalhadores e jovens, em todo o mundo, “cada dia vêem perfilar-se com mais clareza, atrás dos discursos combinados sobre os ‘planos de recuperação’, os contornos dos mais mortíferos planos traçados pelos representantes do capital financeiro, que aproveitaram a ocasião que lhes proporcionou a aparição da pandemia”, e organizam a resistência, com enormes dificuldades, de Paris a Caracas, de Madrid a Detroit. Uma resistência que tem de contornar os obstáculos que são interpostos pelos dirigentes das principais organizações dos trabalhadores e que se confrontam, também, às medidas de corte dos direitos e das liberdades que, com o pretexto da pandemia, são impostas pelos governos dos diferentes países.

“A Verdade” expõe o ponto de vista da 4ª Internacional, que “não se apresenta a esses militantes com soluções acabadas. Une-se aos combatentes de vanguarda nos combates de classe. Fá-lo trazendo a sua experiência de dezenas de anos de luta em todos os continentes e com a vontade de ocupar o seu lugar na elaboração das ‘conclusões práticas’ que permitam arrancar o poder das mãos do capital”.

Esta linha de orientação, introduzida nas Notas editoriais, desenvolve-se ao longo de sete artigos.

A situação em França

Um artigo sobre França, com um título explícito: Nenhum apoio, nenhuma cedência ao “consenso sanitário”. Nesse artigo é descrito como o governo de Macron tem “um rumo incontornável: garantir e melhorar as condições de valorização do capital. Quer dizer: acabar definitivamente com as conquistas da classe operária surgidas dos movimentos revolucionários de 1936 e de 1945, substituindo-as por uma individualização total, a uberização do trabalho; empreender, sem demora, uma ofensiva em toda a linha para reorganizar – em função dos seus interesses – todo o aparelho produtivo, o que implica a destruição de centenas de milhares de empregos, uma baixa substancial do «custo do trabalho»”. Para aplicar estes planos, “em nome da epidemia, ‘protegido’ pelo confinamento, instaura-se um regime de excepção encoberto para tentar amordaçar a classe operária. O confinamento, bem como o estado de emergência decretado para o impor, nada têm a ver com nenhuma questão sanitária”.

E como “para justificar o golpe de força, o Governo e uma propaganda desenfreada lançam-se imediatamente a massacrar: «não se pode agir de outro modo», o confinamento é um «mal menor» impossível de evitar”. O artigo explica como está a ser organizada uma resistência crescente a estes planos e como “perante a ofensiva do capital financeiro e do Governo – que se aplicam a fundo para assegurar a submissão e o apoio das Direcções do movimento operário – os militantes da Secção francesa (da 4ª Internacional) querem ajudar, em conjunto com outros milhares de militantes, a constituir um pólo, um agrupamento político de resistência, que se mantenha firme no terreno da independência de classe”.

Venezuela – Para onde caminha o chavismo?

Um segundo artigo, acerca da Venezuela, interroga-se sobre “Para onde caminha o chavismo?”, explana o momento em que se encontra a ofensiva do imperialismo contra o povo da Venezuela, assim como a situação de grave crise económica em que o país vive. E analisa se essa crise “Ocorre por uma desestabilização provocada pela guerra económica, a partir do ataque da classe dominante nacional e imperialista? É esta a única razão da catástrofe económica?”, respondendo assinalando que “é necessário examinar o impacto das sanções, as respostas de Nicolás Maduro, as suas limitações, os seus desvios em detrimento da soberania nacional, o balanço de dois anos do Plano de recuperação económica, a situação da classe operária, a destruição dos salários, as eleições parlamentares, a resistência dos trabalhadores, o nosso lugar na luta de classes”.

O levantamento dos negros nos EUA

Um terceiro artigo, sobre os Estados Unidos da América, e “o significado das actuais manifestações”, parte de uma análise do sistema político dos EUA, baseado na alternância de dois partidos que representam a burguesia, e de como a irrupção da mobilização em massa dos Negros – aos quais se uniram sectores importantes da juventude de todas as etnias e alguns sindicatos – alterou profundamente toda esta arquitectura. Parte de um facto: “o racismo nos EUA é institucional – desde a sua origem, a classe operária norte-americana foi dividida artificialmente em duas componentes”.

Algo que deriva de como foram constituídos os próprios EUA: “Os Negros norte-americanos (…) compartilham a mesma história: o desenraizamento que os mergulhou na escravatura, destruindo toda a história anterior à sua chegada aos EUA; depois da escravatura, foi a emancipação, a luta pelos direitos civis… Eles compartilham as mesmas referências culturais, o mesmo sotaque que, com variantes, os distingue da maioria dos Brancos, de uma ponta à outra dos EUA. Os Negros constituem uma minoria nacional oprimida. O que em nada diminui a legitimidade das reivindicações de uns e dos outros, mas confere um carácter revolucionário à mobilização autónoma dos Negros norte-americanos.”

Aprofundando esta análise, um quarto artigo reproduz (na sua totalidade) o discurso que deveria ter sido feito por John Lewis – presidente do Student Nonviolent Coordinating Committee, SNCC (Comité de Coordenação dos Estudantes Não-Violentos), uma das principais organizações do movimento dos Negros dos EUA pelos direitos civis da década de 1960 – durante a grande marcha dos 250 mil Negros sobre Washington, realizada a 28 de Agosto de 1963, e da qual toda a gente evoca o celebérrimo discurso “I have a dream” (“Tive um sonho”) do pastor Martin Luther King. O discurso de John Lewis foi censurado e modificado por instigação do arcebispo católico de Washington, D.C. O’Boyle, que tinha sido convidado para o evento, e que – tendo lido antes um exemplar do discurso – ameaçou abandonar a tribuna se este fosse pronunciado. Nesse discurso, Lewis expunha, entre outras questões, que o movimento dos Negros não podia apoiar o Projecto de lei do Governo sobre os direitos civis, “porque é demasiado limitado e vem demasiado tarde. Não há uma única coisa nesse Projecto de lei que proteja o nosso povo contra a brutalidade policial”.

A situação no Estado espanhol

Um quinto artigo reproduz, com algumas notas da redacção de “A Verdade”, as cartas semanais nº 796 e 797 do POSI (2), sobre “União Europeia, desindustrialização e precariedade”, editadas em Agosto de 2020, que tiram a seguinte conclusão geral: “A União Europeia e a Monarquia, instituições ao serviço do capital, são o passado, são um obstáculo para todas as reivindicações sentidas pelos trabalhadores e os povos. Para satisfazê-las é imprescindível romper com ambas. E, de igual modo, não se trata simplesmente de substituir um Chefe de Estado monárquico por um republicano, é necessária uma República libertada de qualquer subordinação aos interesses do capital; também não se trata de que um qualquer Estado saia da UE, mas sim da ruptura dos povos europeus do espartilho desta instituição do capital financeiro, para abrir uma saída aos problemas actuais verdadeiramente digna deste nome. A absoluta descoordenação da UE perante a grave crise sanitária actual revela-o com clareza, tal como o Brexit e tantos outros exemplos: no capitalismo não pode haver uma união europeia real; só os Estados Unidos Socialistas da Europa poderiam sê-lo.

Para avançar para a saída necessária só há um caminho: a organização política das classes trabalhadoras, independente de qualquer compromisso com o capital e todas as suas instituições, para lutar incondicionalmente, até ao fim, pelas reivindicações legítimas da maioria.”

Pierre Lambert e a luta pela construção da Internacional

Outro artigo reproduz – no centenário do nascimento de Pierre Lambert, militante destacado da nossa corrente política – a exposição que o camarada Lambert fez, em Julho de 1998, numa reunião de formação de jovens militantes em Espanha, sobre os ensinamentos políticos das quatro Internacionais e a actualidade do combate por uma Internacional.

O último artigo de Trotsky

Finalmente, este número da Verdade reproduz – no 80º aniversário do assassinato de Leão Trotsky, ocorrido a 20 de Agosto de 1940, às mãos do agente estalinista Ramón Mercader – fragmentos do último artigo de Leão Trotsky, que ele não conseguiu terminar, publicado em 1940 sob o título “Bonapartismo, fascismo e guerra”.

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  1. Trata-se da revista teórica da 4ª Internacional (A Verdade) que acaba de fazer sair o seu nº 106.
  2. O POSI (Partido Operário Socialista Internacionalista) é a Secção espanhola da 4ª Internacional.

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