A propósito do Acordo de “normalização” assinado entre o Estado de Israel e os Emirados Árabes Unidos

Anunciado com grande barulho mediático, o Acordo de “normalização” assinado entre o Estado de Israel e os Emirados Árabes Unidos (EAU, que incluem sete emirados do Golfo Pérsico, entre os quais Abu Dhabi), sob supervisão norte-americana, tem sido apresentado pelo presidente Donald Trump como “um acordo de paz histórico”… mesmo se os EAU e o Estado israelita nunca estiveram em guerra.

Este não é o primeiro Tratado de normalização entre o Estado de Israel e um país árabe, e muitos activistas palestinianos consideram que a renúncia à Carta da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) e a criação da Autoridade Palestiniana eram já medidas de normalização, as quais aliás não impediram os movimentos de revolta contra a política colonial israelita nem contra a Autoridade Palestiniana normalizada, muito pelo contrário.

A grande novidade do presente Acordo é que ele não requer nada em troca ao Estado israelita. O quimérico Estado palestiniano – a regra de ouro das relações internacionais – nem sequer é mencionado. No entanto, o principal líder dos Emirados Árabes Unidos, o príncipe coroado de Abu Dhabi, Mohamed Ben Zayed, anunciou que, em troca, o Estado israelita desistiria do seu plano de anexar uma parte da Cisjordânia. Pelo seu lado, Netanyahu explicou na televisão israelita que, se o plano fosse adiado – o que já tinha acontecido mesmo antes do anúncio do Acordo com os EAU –, ele não desistiria desse plano. Tendo em conta a oposição à implementação do plano de anexação dentro do próprio Estado sionista e os protestos internos contra as políticas de Netanyahu, é difícil dizer se esse plano alguma vez verá a luz do dia. Dito isto, para muitos activistas palestinianos o pedido de anulação do plano de anexação é apenas uma manobra mediática para fazer passar o deal (Acordo), um plano que para eles nunca iria mudar muito a realidade no terreno.

Na sua conferência de imprensa de 14 de Agosto, Donald Trump falou sobre o Acordo histórico e indicou que Israel estava “a suspender as implantações (colonatos) na Cisjordânia”, enquanto na discussão era de facto evocada uma “suspensão do projecto de anexação”. Uma nova manipulação que mostra ser, na realidade, o anúncio do Acordo mais importante do que o próprio Acordo, o qual, em última análise, só formaliza publicamente as relações que já estão em grande parte consumadas, estando os Emirados Árabes Unidos a servir, desde há muito tempo, como plataforma tecnológica israelita avançada e base militar dos EUA.

Esta nova normalização poderia ser um teste para preparar a integração da Arábia Saudita (a qual poderia ser muito mal recebida por uma população de 34 milhões de pessoas com fama de ser pró-palestiniana, sob pressão após cinco anos de guerra contra o Iémen e que está a começar a sentir os efeitos de uma crise prejudicial às finanças do Reino). De acordo com o jornal Washington Post (15 de Agosto), é o Reino de Marrocos o próximo da lista das relações já existentes a normalizar, nomeadamente – e mais uma vez – no plano da segurança.

Para Aaron David Miller, ex-diplomata dos EUA que foi negociador da paz israelo-palestiniana, tanto nas administrações democratas como republicanas (despacho da Agência France Press – AFP, de15 de Agosto), “a motivação da Administração dos EUA não tem nada a ver com a paz israelo-palestiniana… Trata-se de dar uma boa aparência ao Presidente, de demonstrar alguma competência e de realizar pelo menos um pouco do que a Administração tem afirmado querer fazer desde o início – que é fazer a paz entre Israel e o mundo árabe.” A AFP diz que, para Miller, “isto acima de tudo, ajuda a dar a imagem de uma coligação anti-Irão”. No entanto, de acordo com a revista norte-americana Foreign Affairs (Maio de 2020), “alguns oficiais dos Emirados fizeram visitas públicas a Teerão (a capital do Irão) e especula-se que os Sauditas têm vindo a entender-se (com o Irão) muito discretamente”, tendo a Administração de Trump feito tudo para desencorajar essa aproximação.

De facto, “acima de tudo”, a Administração de Trump continua a pressionar para tentar isolar o Irão e manter o embargo da venda de armas que está previsto terminar em Outubro. Mas este desejo norte-americano de alargar o embargo da venda de armas ao Irão falhou, na última reunião do Conselho de Segurança da ONU, onde quatro dos seus membros permanentes votaram contra ou abstiveram-se. Em resposta, Trump anunciou que os EUA imporão um “snapback” (ou seja, um direito de veto unilateral). Em definitivo, esta operação aparece principalmente como um meio para Trump e Netanyahu assumirem o controlo de uma situação que lhes escapa.

Análise de François Lazar, publicada no semanário francês “Informations Ouvrières” – Informações operárias – nº 618, de 19 de Agosto de 2020, do Partido Operário Independente de França.

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