Manifestações massivas contra Putin

Na manhã de 9 de Julho, funcionários da segurança de Moscovo prenderam Sergeï Furgal (1), Governador da região de Khabarovsk (extremo-oriente da Sibéria). Acusado de tentativa de homicídio e assassínios por contrato em 2004 (…), o Tribunal regional, reunido à porta fechada, decidiu mantê-lo no Centro de prisão preventiva de Lefortovo, até 9 de Setembro. É aqui que os criminosos que são particularmente perigosos para o Kremlin são em geral encarcerados (…). A prisão do Governador ocorre dois anos após a sua eleição, havendo funcionários do Kremlin a acusarem-no, oficiosamente, de ser o responsável pela derrota do partido Rússia Unida (de Putin, NdT) nas eleições parlamentares regionais. Dez dias após a sua prisão e baseando-se num artigo da Constituição, Putin demitiu-o por “perda de confiança”, anulando assim o voto dos habitantes. E nomeou para o seu lugar Mikhail Degtyarev, membro do mesmo partido que o antecessor.

A 11 de Julho, no dia seguinte à detenção do Governador, teve lugar uma primeira grande concentração em Khabarovsk, a capital regional do extremo-oriente da Sibéria, exigindo a libertação do Governador.

Depois, todos os dias, os habitantes se têm manifestado. Estas são as maiores manifestações que a cidade tem visto, apesar do calor sufocante ou da chuva diluviana. Outras concentrações têm também sido realizadas em todo o extremo-oriente da Sibéria, nomeadamente em Vladivostok, Komsomolsk-on-Amur, Birobidjan, Blagovechtchensk.

Ao abrigo da lei repressiva que se aplica à totalidade do território da Federação Russa, as autoridades locais proibiram todas as concentrações. Mas é apenas marginalmente que elas foram dispersas de forma violenta. O Kremlin só respondeu aos protestos de massa no terceiro dia: jornalistas controlados pelo Kremlin acusaram os habitantes de serem “inimigos da Rússia”. A Guarda Russa, cujo principal “dever” é reprimir qualquer manifestação política contra Putin, foi enviada para Khabarovsk. Neste momento, ela posiciona-se não muito longe das manifestações.

A cidade assumiu um “ar de democracia”. O Kremlin parece já não controlar a cidade.

No 29º dia de manifestações em Khabarovsk, os mesmos slogans foram entoados por quase 50 mil manifestantes: “Nós somos o poder aqui! Esta é a nossa terra! Abaixo o czar! Putin, demissão! Vinte anos – e continua a ser o caos!”

Segundo os peritos, a razão por que o Kremlin não reprime as manifestações é por elas serem massivas. É evidente que há processos de maturação política em curso, neste momento, em todo o imenso território da Federação Russa.

Estes movimentos de protesto, na nossa opinião, não são motivados por qualquer apoio real ao Governador destituído ou às políticas do seu partido – que difere pouco da do partido de Putin, a Rússia Unida (2).

A população e os trabalhadores – que acumularam durante anos o medo de se manifestar, sob ameaças à liberdade de expressão cada vez mais graves – actualmente emanciparam-se desse medo.

A distância crescente do Poder em relação aos interesses da população e dos trabalhadores, nomeadamente a contra-reforma das pensões de aposentação (que levantou manifestações em grande escala contra ela em todo o país, NdT) e mais recentemente o referendo que Putin quer realizar sobre a alteração da Constituição (concedendo-lhe em particular um aumento dos poderes presidenciais, inspirado na Vª República em França, e a possibilidade de prorrogação do seu mandato até 2036, NdT) têm dado um novo significado a estas manifestações: surgiram slogans que não estão relacionados com o Governador sob prisão, mas sim dirigidos contra as realidades políticas do país. Num tal contexto, o slogan reiterado de “Putin, demissão!” mostra que é todo o Sistema que está pôdre e do qual Putin constitui o “núcleo”.

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(1) Membro do Partido Liberal Democrata da Rússia.

(2) Excepto em termos de fraseologia neo-fascista, como “A polícia deve ser composta por russos de raça pura” e o objectivo de abolir as repúblicas nacionais.

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Crónica do seu correspondente russo Anton Poustovoy, publicada no semanário francês “Informations Ouvrières” – Informações operárias – nº 617, de 12 de Agosto de 2020, do Partido Operário Independente de França.

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