Air France e TAP: lá como cá!

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Em Portugal, tem levantado uma grande polémica a maneira como o Governo se propõe intervir para resolver a situação crítica da TAP. Ao ler este artigo sobre a forma como o governo de Macron tem estado a intervir na Air France, não pode deixar de vir à lembrança o que foi dito recentemente pelo Governo português, ao anunciar o Plano de recuperação da TAP; “(Nesse Plano) estão incluídas medidas muito duras, em termos de cortes de postos de trabalho”.

Cá como lá!

Um cheque de 8 mil milhões do Estado para suprimir de 8 mil a 10 mil empregos

Mesmo se a Administração da Air France não confirma os números, o calendário e os termos e condições de das reduções previstas, até por categoria de pessoal, são já conhecidos e estão anunciados.

Relativamente ao pessoal de terra, as negociações sobre um plano de saída voluntária (PSV) começarão no início de Julho e as primeiras saídas estão previstas para Janeiro de 2021 (objectivo de 6 mil reduções de postos de trabalho).

Para os pilotos, uma ruptura convencional colectiva (RCC), já amplamente negociada, deve levar a saídas já em Julho (objectivo de 400 reduções de postos de trabalho).

E para a(o)s hospedeira(o)s e comissária(o)s de bordo, uma RCC está em negociação e espera-se que conduza, a um primeiro lote de partidas, entre os 1.800 reputados como “excesso de pessoal”, a partir do mês de Agosto.

Importa recordar que, quando os 7 mil milhões de auxílio estatal à Air France – sob a forma de um empréstimo garantido pelo Estado a 90% no valor de 4 mil milhões de euros e um empréstimo do Estado de 3 mil milhões de euros –, os compromissos solicitados pelo ministro Le Maire não incidiam sobre a garantia de manutenção dos empregos. Muito pelo contrário, ele declarou que este auxílio não era “um cheque em branco”, acrescentando: “É necessário que a Air France faça um esforço para ser mais rentável.”

“Ser mais rentável”, nós sabemos que isso significa sempre, na sua linguagem, reestruturação e despedimentos. Portanto, a redução dos efectivos da Air France fazia parte, desde o início da reestruturação, das condições para a obtenção do empréstimo.

DUPLICIDADE

Quando, a 18 de Junho, a imprensa divulgou que iria haver 8 mil a 10 mil reduções de pessoal na Air France, Bruno Le Maire declarou, no mesmo dia, à rádio France Inter: “Haverá os ajustamentos necessários para salvar a Air France, mas peço à companhia que não faça saídas forçadas”.

Que duplicidade! Ele pede que não haja saídas forçadas, mas insiste nos “ajustamentos necessários”! Aliás, apressou-se a precisar: “Quando o tráfego aéreo entra em colapso, dizer «Eu ponho dinheiro, mas nós vamos absolutamente manter todos os empregos», a que é que isso conduz? Conduz a que pode haver o risco de falência, e é isso que está a ameaçar a Air France.”

Numa reunião interna de comunicação da Administração da Air France aos seus quadros superiores, a 17 de Junho, o Departamento de Recursos Humanos da companhia fez esta clarificação: “Se o PSV não atingir os objectivos: no que respeita à crise, a probabilidade de que sejamos forçados a enveredar por um PSE (Plano de Salvaguarda do Emprego – NdT) não é insignificante”. UM PSE, ou seja, os despedimentos e as “saídas forçadas”.

A Administração da Air France anunciou, nessa mesma reunião, entre os “instrumentos que podem ser potencialmente utilizáveis nos próximos meses”, um Acordo de Performance Colectiva (APC), ou seja, “ajustamentos do tempo de trabalho e da remuneração”.

Desde o início da crise do Covid-19, a Air France recebeu do Governo 7 mil milhões de euros, aos quais se devem acrescentar 156 milhões de euros (divulgados pela Administração da Air France) por mês, durante 7 meses, para “indemnização” por 70% de desemprego técnico de Março a Setembro, o que equivale a 1 000 milhões de euros. Sem contar com o que será compensado adicionalmente, de Setembro a Dezembro, ao abrigo do novo dispositivo de “desemprego parcial de longa duração”, que está em preparação.

Em resumo: o Governo já “ajudou” a Air France no valor de 8 mil milhões de euros. E isto sem que, de forma alguma, o trabalho tinha sido mantido, nem garantido!

QUE REIVINDICAÇÃO?

Este Governo, tão avaro com os hospitais, a educação e os serviços públicos em geral; este Governo, cujo Presidente Macron se mostrou tão chocado por ter gasto “uma pipa de massa” em ajudas sociais; este Governo, portanto, paga milhares e milhares de milhões, não para “proteger os empregos”, mas para “ajudar as empresas”, para que elas se possam reestruturar despedindo.

Neste contexto, uma reunião inter-sindical de 7 sindicatos da Air France foi realizada em Paris, a 16 de Junho. No comunicado de imprensa que nela foi adoptado está escrito: “As nossas organizações pedem que os representantes do pessoal sejam envolvidos no desenvolvimento do projecto industrial, incluindo a particularmente sensível arquitectura da rede doméstica.”

A exigência de manutenção dos postos de trabalho, a recusa de despedimentos – sejam “a seco” ou não – esse comunicado não a contém.

Merece ser colocada a questão da eficácia do pedido para ser associado a um “plano industrial”. Não deveria, pelo contrário, haver uma exigência clara de rejeição dos planos de saída de trabalhadores, de rupturas e de despedimentos, e apoiar-se na indignação que estes despedimentos, subsidiados em milhares de milhões pelo Estado, provocam entre os trabalhadores?

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Nota de Marc Sauterey, publicada no semanário francês “Informations Ouvrières” – Informações operárias – nº 610, de 24 de Junho de 2020, do Partido Operário Independente de França.

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