EUA: É todo o Sistema institucional que está em causa

Manif_Berlim_6_Jun_2020

Repercussão mundial: a manifestação em Berlim, a 6 de Junho.

 

As manifestações massivas nos EUA, há mais de dez dias, não abrandam. Sábado, 6 de Junho, em Washington, dezenas de milhares de manifestantes dirigiram-se para a Casa Branca na maior manifestação desde o início deste movimento, protestando contra o racismo sistémico dos EUA. Estas mobilizações massivas, no coração da principal potência imperialista, têm eco em todo o mundo (ver abaixo).

Donald Trump acusa os Governadores (incluindo os que pertencem ao Partido Republicano) de fraqueza face às manifestações e ameaça enviar o Exército para reprimir os manifestantes, mas é repudiado por todos os responsáveis militares e mesmo pelo seu ministro da Defesa. Colin Powell, ex-ministro da Defesa (de George W. Bush) e personalidade republicana, acaba de anunciar que vai votar a favor Biden nas próximas eleições presidenciais (1). Isto é a expressão de uma crise política sem precedentes nos EUA.

Os Democratas, em muitas cidades onde têm maioria, a começar por Minneapolis, falam em dissolver as suas forças policiais, ou pelo menos em reduzir os seus orçamentos. Apresentaram na Câmara dos Representantes (Parlamento) um projecto de Lei que visa introduzir disposições destinadas a reduzir a violência policial contra os Negros: essa Lei facilitaria a apresentação de queixas contra a Polícia, criaria organismos para controlar a Polícia local e reduziria o seu financiamento, no caso de haver violência racista. Mas, concentrar-se apenas na violência policial – que é uma realidade – visa, basicamente, tentar redireccionar a mobilização que está centrada contra todo o conjunto de instituições norte-americanas, que se baseiam num racismo sistémico e pelo qual tanto os Republicanos como os Democratas são responsáveis.

De facto, o racismo nos EUA é sistémico: a violência policial racista é a expressão mais flagrantemente bárbara do racismo institucional que está na base do Sistema político norte-americano. É a violência de Estado. É o resultado do facto de os Negros, desde o fim da Escravatura, terem permanecido não-cidadãos até à década de 1960, e, em seguida, cidadãos de segunda classe.

Os Negros têm 2,5 vezes mais probabilidades de morrer às mãos da Polícia do que os Brancos. Mas os Negros também têm sido muito mais afectados pela Covid-19. Os Negros sofrem muito mais desemprego em massa do que os Brancos e, quando trabalham, fazem-no muitas vezes em empregos mal remunerados como entregadores, caixas,… Vivendo, muitas das vezes, em casas superlotadas de bairros pobres no interior das cidades, foram expulsos – após a crise financeira de 2009, pela explosão dos preços (a “gentrificação”) – para bairros periféricos, distantes de qualquer emprego. A existência de uma mão-de-obra negra barata permite fazer pressão sobre os salários no seu conjunto; a situação dos Negros é utilizada como uma ameaça para todas as classes trabalhadoras.

UM RACISMO INSTITUCIONAL QUE É A ESPINHA DORSAL DO SISTEMA POLÍTICO DOS EUA

A explosão do desemprego nos EUA, juntamente com a pandemia e o confinamento, lançou também uma camada da população na precariedade, mesmo entre os Brancos. Milhões de desempregados, sem seguro de desemprego mas com “ajudas”, mas também milhões de pessoas precárias e com pequenos biscates que são atiradas para a rua, sem nada. Trata-se, portanto, de uma verdadeira explosão social. A presença massiva de Brancos e de Latinos, tal como a de sindicatos importantes (apesar da “prudência” da Direcção nacional da AFL-CIO, a principal Confederação sindical dos EUA) nestas manifestações, mostram que são as Instituições norte-americanas – muito mais do que a sociedade – que estão gangrenadas pelo racismo; mostram que as manifestações anti-violência são a cristalização de uma raiva contra todo o Sistema. A resposta da Polícia a estas manifestações agrava ainda mais esta crise: por um lado, muitos agentes da Polícia apoiam os manifestantes, por vezes até participando nas manifestações; por outro lado, as manifestações estão a ser ferozmente reprimidas, com todo o arsenal à disposição da Polícia (como tem sido denunciado por alguma imprensa sindical).

Todas as forças políticas institucionais dos EUA estão a fazer tudo o que está ao seu alcance para limitar a discussão à violência policial, cada uma de acordo com a sua própria partitura: Trump e os Republicanos, ameaçando os manifestantes e defendendo a Polícia; Biden e os Democratas, propondo-se reformar a Polícia (ao mesmo tempo que a utilizam para reprimir, violentamente, os manifestantes nas cidades em que estão à frente da Câmara Municipal). Mas, após oito anos de presidência de Obama, grandes camadas de manifestantes sabem que votar em Biden (que foi vice-presidente de Obama) não vai resolver estes problemas, nem os problemas sociais ou o racismo policial.

Abriu-se uma nova fase na situação nos EUA, com impacto global, dado o lugar deste país no mundo.

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(1) Acusando-o de mentir, algo cómico vindo de quem certificou a presença de armas de destruição massiva no Iraque.

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Crónica de Devan Sohier, publicada no semanário francês “Informations Ouvrières” – Informações operárias – nº 608, de 10 de Junho de 2020, do Partido Operário Independente de França.

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 Deflagração global

Em apenas alguns dias, centenas de milhares de pessoas, sobretudo jovens, saíram à rua em todo o mundo, ligando o assassinato de George Floyd à situação nos seus países.

E, em muitos países, onde as manifestações são proibidas, eles desafiaram as proibições liberticidas (1).

Em Madrid, estiveram vários milhares em frente à Embaixada dos EUA. Em Roma, uma manifestação improvisada juntou milhares de jovens na grande Piazza del Popolo. Desafiando a proibição das autoridades, houve milhares de manifestantes em Londres e em várias outras cidades do Reino Unido. Em Bruxelas, 10 mil manifestantes, milhares também na Holanda. Em Copenhaga, 15 mil pessoas, e, em Budapeste – apesar do regime autoritário de Orban – concentraram-se mais de mil. Em Dublin, 5 mil manifestantes. Na Alemanha, 15 mil pessoas em Berlim e mais dezenas de milhares em várias cidades do país. Na Polónia, um milhar em Varsóvia. Houve também manifestações massivas no Canadá, na Austrália, na Nova Zelândia e no Japão.

Em todo o lado, o mesmo slogan: Black Lives Matter! (As vidas dos Negros são importantes!). Estas manifestações – frequentemente espontâneas, que ultrapassam os quadros tradicionais, desafiando as proibições – traduzem a luta comum, após estes períodos de confinamento durante a pandemia, de rejeição de todos os governos.

Em muitas manifestações, o slogan de 2019: “Vão-se todos embora!”.

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(1) A manifestação realizada em Lisboa, a 6 de Junho, teve 10 mil participantes.

 

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