A propósito das estatísticas

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Estamos todos afogados em estatísticas: sobre o número de mortes evitado através do confinamento, sobre o facto de as eleições municipais não terem sido um factor de propagação do vírus, um novo estudo estatístico sobre o facto de a cloroquina não ser eficaz e mesmo perigosa, sobre o número de fumadores infectados, e assim por diante. São muitas as pessoas que participam numa ampla difusão destas estatísticas nas redes sociais e tiram delas as conclusões que querem tirar…

As estatísticas, como toda a Ciência, não são uma verdade absoluta. A Ciência progride, estagna e, por vezes, até recua, porque ela está inserida nas relações sociais capitalistas.

Como Leão Trotsky escreveu, em 1939: “Num discurso em defesa da Ciência, o Dr. Robert A.-Millikan – um dos melhores físicos dos EUAfez esta observação: «As Estatísticas dos EUA mostram que a percentagem da população activa tem vindo a aumentar, de forma constante, durante os últimos 50 anos». Esta defesa do Capitalismo, sob a forma de defesa da Ciência, não pode ser considerada como muito feliz (…). É lamentável que este famoso físico norte-americano não tenha explicado aos milhões de desempregados dos EUA como é que eles poderiam participar no aumento da riqueza nacional (…). O que distingue Marx (dos outros investigadores da sociedade – NdT) é a sua capacidade em compreender fenómenos e processos pertencentes a diferentes domínios e as ligações que lhes são inerentes.”

O método de Marx é fazer as ligações entre diferentes fenómenos e compreender o verdadeiro significado destes processos.

“O MÉTODO ESTATÍSTICO NÃO É NEUTRO”

Gerard Bloch, cientista, da área da Matemática, aderiu à Quarta Internacional em 1938. Ele será detido e deportado para Dachau (campo de concentração nazi na Alemanha – NdT). Após a guerra, ele escreveu numerosas obras sobre o marxismo, o materialismo e a Ciência. Num artigo de 1971, escreveu: “A análise marxista parte das relações sociais de produção para analisar a categoria social específica em estudo, a contradição fundamental do capitalismo, para levar a uma das suas determinações específicas da abstracção; é só após ter reconstituído a totalidade concreta que quer estudar – portanto, entendendo-a e iluminando-a através da análise dialética – que esse método irá utilizar os dados quantitativos dos estatísticos para ilustrar os resultados que já obteve. Porque, digamos mais uma vez, o método estatístico não é neutro, ele transforma as relações sociais em coisas, em grandezas mensuráveis, esvaziadas do seu carácter contraditório.”

Para ilustrar a questão levantada por Gérard Bloch, tomemos o exemplo de uma estatística do Departamento do Censo dos EUA (o equivalente do INE de Portugal – NdT), o qual indica que os Negros norte-americanos são vinte vezes mais violentos (assassinatos, roubos, etc.) do que os Brancos dos EUA.

Se nos limitarmos a esta simples observação, os racistas podem encontrar nela a confirmação das suas teses. Mas, a realidade é mais complexa. Deve-se, como diz Gérard Bloch, “reconstruir a totalidade concreta”. Os Negros dos EUA, depois de terem sido escravizados durante séculos, ainda continuam a ser vítimas da opressão, do racismo e da segregação, o que os torna cidadãos de segunda. A massa de Negros norte-americanos é pobre e vive em verdadeiros guetos. É difícil para os jovens destes guetos arranjarem um emprego. Por outro lado, o tráfico de droga e os gangs continuam o seu trabalho de destruição. A esmagadora maioria da população negra norte-americana vive em absoluta precariedade. E depois há o racismo e, em especial, o da Polícia, para a qual qualquer Negro é antecipadamente culpado e, frequentemente, abatido. A realidade da situação dos Negros dos EUAque as estatísticas não expressamé a violência diária que eles sofrem, através de um racismo institucional.

A MÉDIA E A MEDIANA

Stephen G. Gould, um famoso biólogo evolucionista dos EUA, e autor de muitos livros sobre Darwin, não é marxista, mas é um cientista materialista.

Ele escreveu isto a propósito de estatísticas: “Tomemos um exemplo típico de distorção da verdade pelos números. As estatísticas reconhecem diferentes medidas de uma tendência central. A média é o conceito habitualmente utilizado para exprimir uma norma geral: os objectos são adicionados e depois divididos pelo número dos seus proprietários (100 bombons recolhidos por 5 crianças na noite de Halloween (Dia das bruxas), dá um resultado de 20 bombons para cada um, num mundo justo).

A mediana, um conceito diferente de tendência central, é um ponto a meio caminho. Se eu colocar cinco crianças por ordem das suas alturas, a criança que representa a mediana é maior do que as duas mais pequenas e menor que as outras duas (ela certamente terá dificuldade em obter a sua quota média de bombons). Um político no Poder poderia orgulhosamente dizer: «O rendimento médio dos nossos cidadãos é de 15 mil dólares por ano.» Mas, o líder da Oposição poderia responder: «No entanto, metade dos nossos cidadãos ganha menos de 10 mil dólares por ano.» (…)

O primeiro invoca uma média, o segundo uma mediana (neste caso, a média é superior à mediana, porque um milionário pode equivaler a centenas de pessoas pobres no cálculo da média, mas vale tanto como um mendigo no cálculo da mediana) (…).

Continuamos a trazer sempre connosco a bagagem histórica da nossa herança platónica (…). Esta herança platónica – que coloca a tónica em distinções claras e entidades imutáveis e separadas – leva-nos a interpretar erradamente medidas estatísticas de tendência central, sendo a interpretação adequada, pelo contrário, a que tem em conta as variações, as nuances e a continuidade do mundo real.”

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Crónica de Lucien Gauthier publicada no semanário francês “Informations Ouvrières” – Informações operárias – nº 606, de 22 de Maio de 2020, do Partido Operário Independente de França.

 

 

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