A campanha eleitoral nos EUA

bernie.ap

A absolvição pelo Senado do presidente dos EUA já era esperada. Mas se este é certamente um resultado que reforça a sua posição, não resolve em nada a crise que está a atingir as cúpulas do aparelho do Partido Republicano. Mitt Romey, o único senador republicano a votar contra a absolvição de Trump (e isto apenas por uma das acusações), é o representante de uma importante corrente do Partido Republicano, herdeiro de toda a tradição republicana.

Assim que foi votada a sua absolvição, Trump escreveu um tweet a felicitar o seu ministro da Justiça por ter intervido num processo judicial relativo a um dos seus antigos parceiros; imediatamente, o ministro foi forçado a tomar as suas distâncias, negando qualquer intervenção e pedindo a Trump para parar de comentar casos judiciais em curso. Todo o aparelho estatal dos EUA está a ser afectado pelo modo como Trump exerce a sua presidência, de uma forma inseparável do seu programa de ataque frontal e aberto contra todos os entraves ao domínio exclusivo do imperialismo norte-americano.

Quanto ao Partido Democrata, as eleições primárias no Iowa, e depois no New Hampshire, baralharam as cartas. O que tinha sido anunciado era uma batalha entre Biden (o candidato do aparelho), Sanders (com o seu programa socialista) e Warren (uma candidata com o programa concebido para competir com Sanders, tomando bom cuidado de não se atacar ao sistema político dos EUA). A campanha de Biden afunda-se: ele obteve menos de 10% dos votos no New Hampshire. Warren não suscita ilusões e tem sido largamente superada por Sanders. O principal concorrente de Sanders nesta fase é Pete Buttiglieg, Prefeito de uma cidade de médio porte, cujo programa segue o caminho determinado por Biden. À espreita, Michael Bloomberg, multimilionário, dono de uma empresa e ex-Prefeito (republicano) de Nova Iorque, conta com o colapso de Buttiglieg nas próximas primárias, para as quais este não tem os meios financeiros para fazer campanha, e ocupar o lugar de principal concorrente de Sanders. Um editorialista do Washington Post previne, a 15 de Fevereiro, face ao risco de que nenhum candidato se torne claramente maioritário: “Democratas, tenho uma boa notícia para vocês. No dia da eleição ninguém se lembrará do chamado «Iowa caucus» (primária na qual a centralização dos resultados foi adiada devido a problemas técnicos, adiando por três dias a sua divulgação). O problema é que o seu esquecimento será porque ele será apagado pela catástrofe muito maior que se avizinha para Julho (momento em que o Partido Democrata vai escolher o seu candidato).”

Neste caos, e apesar de estar a obter resultados mais baixos do que há quatro anos, Sanders está a ocupar o lugar central e, talvez ainda mais do que ele, o seu programa: salário mínimo de 15 dólares à hora, Ensino superior gratuito, uma verdadeira Segurança Social sem seguros privados.

O lugar que ele ocupa nestas primárias do Partido Democrata é o reflexo das muitas lutas que têm sido travadas pela classe operária dos EUA. Em 2019, pela primeira vez em quinze anos, o número de dias de greve neste país ultrapassou os três milhões.

Ganhar 9 dólares por 70 horas de trabalho

Como reivindicação central dessas greves, as questões salariais, num país onde uma empregada de mesa pode receber um salário de 9 dólares por 70 horas de trabalho, porque o salário mínimo não se aplica aos serviços, sendo as gorjetas entendidas como constituindo o salário. Num país onde a protecção da saúde está inteiramente nas mãos das seguradoras privadas, os grevistas também exigem a sua melhoria e colocam – mais ou menos explicitamente – a questão de um Sistema público nacional para tomar conta dos seus cuidados de saúde. As greves no sector da Educação colocam, para além destas questões, as da privatização do Ensino e da destruição de todo o tecido social que o acompanha.

As sondagens indicam que Sanders é o candidato democrata que melhor se sairia contra Trump, mostrando que muitos eleitores irão abster-se (ou mesmo votar no Trump) em vez de votar num candidato democrata que incarne a continuidade com os mandatos de Clinton e de Obama. Milhões de trabalhadores estão a preparar-se para votar em Sanders nas primárias democratas e nas eleições presidenciais (se ele for nomeado pelo Partido Democrata). Milhões também se absterão, convencidos de que estas eleições não vão mudar o seu dia-a-dia.

Neste contexto de caos nas cúpulas dirigentes do Sistema, apenas uma coisa é certa: a classe operária dos EUA continua a exigir a satisfação de todas as suas reivindicações.

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Análise de Devan Sohier, publicada no semanário Informations Ouvrières – Informações operárias – nº 592, de 20 de Fevereiro de 2020, do Partido Operário Independente, de França.

 

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