Guerra comercial EUA-China

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A propósito do Acordo preliminar assinado Donald Trump e Vice-Primeiro ministro chinês, Liu He, divulgamos uma análise de Albert Tarp, publicada no semanário Informations Ouvrières – Informações operárias – nº 588, de 22 de Janeiro de 2020, do Partido Operário Independente, de França.

Os EUA e a China assinaram, a 15 de Janeiro, um Acordo comercial parcial visando pôr um travão numa guerra comercial de dezoito meses entre as duas maiores economias do mundo. Qual o conteúdo desse Acordo?

Segundo o jornal South China Morning Post (SCMP, de 16 de Janeiro), “o pacto inclui o compromisso de Pequim de comprar pelo menos 200 mil milhões de dólares de bens e serviços norte-americanos a mais do que em 2017, num período de dois anos. Estas compras adicionais consistirão em aproximadamente 77 mil milhões de dólares na manufactura, 52 mil milhões no campo da energia, 32 mil milhões de produtos agrícolas e 38 mil milhões em serviços. Em troca, os EUA devem reduzir as taxas aduaneiras em certas importações chinesas e cancelar os direitos alfandegários que deveriam entrar em vigor em Dezembro.”

Mas o Financial Times (de 16 de Janeiro) indica que a questão de subsídios públicos da China à sua indústria não está coberta no Acordo. No entanto, a China promete nele uma série de medidas para abrir o seu sector dos serviços financeiros à concorrência norte-americana na Banca, nos serviços de pagamento electrónico e nos Seguros. Além disso, os EUA e a China reafirmaram, entre outras coisas, os compromissos assumidos perante o G20 e o FMI de não desvalorizarem as suas moedas para favorecerem as suas exportações.

Ainda assim, o SCMP (de 17 de Janeiro) observa que “a maioria dos grupos de agricultores e empresas reconheceram que este Acordo foi um passo na direcção certa. Mas eles mostraram-se preocupados por a maioria das tarifas permanecer em vigor até à próxima fase do Acordo comercial.”

E as associações comerciais exortaram a Administração Trump a encetar imediatamente as negociações da “fase dois” com Pequim, com a esperança de uma baixa dos restantes direitos aduaneiros, bem como de um progresso no acesso ao mercado chinês e sobre a questão dos subsídios do Estado chinês para à sua indústria.

E num tweet enviado a 16 de Janeiro, Trump diz: “Nós estamos agora em boa posição para começar a fase dois.”

No entanto, sempre segundo o SCMP (de 17 de Janeiro), o Vice-Primeiro-ministro, Liu He, respondeu: “Se a China e os EUA acelerarem as conversações da segunda fase logo após terem assinado o Acordo da fase um, os dois países estariam a agir como um urso perdido num campo de milho”, referindo-se a um provérbio chinês.

Crescimento do PIB chinês no mínimo dos últimos 30 anos

De onde vem a relutância do Vice-Primeiro-ministro chinês? O jornal Ouest-France (de 17 de Janeiro) indica muito a propósito: “No seu ponto mais baixo em cerca de trinta anos, o crescimento da China caiu no ano passado para 6,1%, ao mesmo tempo que a guerra comercial com Washington se estava a intensificar, e isto apesar dos esforços de Pequim para estabilizar a economia. O Presidente norte-americano, Donald Trump, repetiu sistematicamente que foram as sobretaxas aduaneiras impostas à China, há quase dois anos, que prejudicaram a economia chinesa e empurraram Pequim para negociar um Acordo – que foi um negócio consumado desde quarta-feira.”

Estados rurais dos EUA preocupados

Qual é afinal o apoio dos agricultores norte-americanos a Trump, neste negócio?

Na sua edição de 15 de Janeiro, o jornal financeiro francês Les Échos, relatando as consequências da guerra comercial EUA-China, assinalou numerosos falências de explorações agrícolas e precisou que, para o Wisconsin ou a Pensilvânia, “a compra de produtos agrícolas pela China poderia trazer uma lufada de oxigénio. Se estas compras não se concretizarem, um voto-sanção (nas eleições presidenciais de Novembro, contra Trump) não deve ser excluído…”

Quanto às consequências para a Europa, a 17 de Janeiro, o Alto Comissário para o Comércio da União Europeia rejeitou o novo Acordo Sino-Americano como sendo negativo para a competitividade e o emprego, salientando a recepção cautelosa que a sua “primeira fase” recebeu dos dirigentes e das empresas europeias (SCMP, de 17 de Janeiro).

A UE está preocupada com o facto de as empresas chinesas serem forçados a comprar mais bens e serviços às empresas norte-americanas do que às empresas europeias, em virtude do pacto assinado pela China e os EUA.

E o SCMP informa que “o Comissário para o Comércio Europeu, Phil Hogan, falou através de um vídeo emitido de Washington, D.C., onde ele estava a encontrar-se com as autoridades norte-americanas esta semana. Ele espera persuadir a Administração de Trump a não impor tarifas punitivas à UE, numa altura em que o Presidente Donald Trump está à procura este ano de um segundo mandato à Presidência dos EUA.”

Este acordo “faseado” confirma o impasse da guerra comercial que está a ser travada por Trump e marca uma nova etapa na crise do sistema da propriedade privada dos meios de produção, à escala internacional.

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