Reino Unido: Partido Trabalhista afunda-se, porquê?

brexit

Trata-se de uma derrota histórica para o Labour Party (Partido Trabalhista) que perdeu, nas eleições de 12 de Dezembro, 2,5 milhões de votos e 59 deputados no Parlamento. Mas, para compreender a profundidade política da derrota, não é possível cingir-se a estes números, já que, ao obter agora 10 milhões de votos, Corbyn obteve mais votos que Blair em 2001 e que Brown em 2005 – os quais, contudo, foram eleitos com uma maioria de deputados (o sistema eleitoral britânico não é proporcional).

É verdade que o Partido Trabalhista perdeu 8% de votos em 2019, em relação aos seus resultados de 2017, mas perdeu de facto 10,4% (em média) nas circunscrições que votaram massivamente “Leave” (sair) no referendo de 2016 pela saída da UE. Nacionalmente, os Conservadores progrediram muito pouco (+1,2%), mas Johnson ganhou 6% nas circunscrições que votaram “Leave” e o Brexit Party também subiu 3,8% nessas circunscrições.

Das 59 circunscrições perdidas, a maioria são círculos eleitorais do centro e do norte de Inglaterra, o “muro vermelho” – as regiões fortemente operárias do país e tradicionalmente votantes no Partido Trabalhista (entre as 100 circunscrições com mais altos índices de famílias operárias, o Partido Trabalhista passou de 72 para 53 deputados, e os Conservadores de 13 para 31). São regiões que votaram massivamente pela saída da UE em 2016, em muitos casos a mais de 65%, e até de 75%, contra 52% a nível nacional.

Em 2016, o voto “Leave” no norte e no centro de Inglaterra, assim como no País de Gales, foi a expressão – no terreno eleitoral – da indignação dos milhares de trabalhadores e das suas famílias, para quem o fecho de minas e a desindustrialização, a partir da década de 1980, implicaram a explosão da miséria, do desemprego e dos trabalhos precários. A onda de choque provocada por essa rejeição foi o acelerador de toda a crise política que, até hoje, está a atingir as instituições britânicas.

O Labour Party (Partido Trabalhista) afunda-se nos seus bastiões operários que votaram pelo Brexit

Foi a recusa de Corbyn e da Direcção do Partido Trabalhista – que fizeram campanha por um segundo referendo – em pôr-se à cabeça desta revolta, que esteve na origem do seu afundamento nos bastiões operários que detinha. Não bastava prometer renacionalizar os caminhos-de-ferro, salvar o NHS (Serviço Nacional de Saúde), acabar com as contra-reformas impostas ao país pelos Conservadores e pelo Partido Trabalhista de Blair e de Brown. Não podia haver vitória com base da oposição à revolta popular de 2016.

Já em 2016, Corbyn fez campanha pela manutenção dentro da UE. A esquerda do Partido Trabalhista – que ele dirige, em conjunto com John McDonnell – procurou, desde 2015, a conciliação com o aparelho do Partido (os funcionários, os representantes locais e os deputados), que continua a estar em grande medida nas mãos dos “blairistas”. Na actual situação de crise política e institucional, Corbyn e McDonnell fizeram uma campanha dirigida à pequena burguesia de Londres, aos sectores do capital financeiro favoráveis à manutenção na UE, assim como aos dirigentes dos principais sindicatos britânicos que, na sua quase totalidade, explicam desde 2016 que a UE está na origem de todos os direitos operários e é a única garantia de salvaguardá-los. Os que vivem, em cada dia, a liquidação das últimas fábricas, o fecho dos serviços públicos, os contratos a tempo zero (1), as mortes nos hospitais por falta de camas, o desemprego e os subsídios miseráveis não acreditaram neles. Este previsível desastre eleitoral provoca também a perplexidade e a desorientação dos muitos milhares (quase 400 mil) que, desde 2015,  se filiaram ou ligaram ao Partido Trabalhista para apoiar Corbyn e para romper com o “blairismo”, que estava em vias de destruir completamente o Partido.

Mas, contrariamente ao que dizem os comentadores políticos, a vitória de Johnson foi moderada. Na Escócia, os independentistas do SNP ganharam em 48 das 59 circunscrições escocesas e a dirigente do SNP, Nicola Sturgeon, declarou também que vai organizar um novo referendo pela independência. Desde 2010, a subida do SNP é uma expressão da rejeição dos dois partidos tradicionais de governo no Reino Unido, mas sobretudo do Partido Trabalhista – do qual a Escócia era ainda um bastião, há alguns anos, e onde hoje apenas resta um deputado.

Johnson talvez consiga que seja aprovado, rapidamente, o plano para o Brexit negociado com a UE. Mas esse plano implicará, provavelmente, o risco de fazer voar em estilhaços o frágil equilíbrio institucional que perpetua a partição da Irlanda, acelerando a reunificação. O principal Partido unionista (partidário da anexação da Irlanda do Norte ao Reino Unido) dessa Região e apoiante do governo de Theresa May – o DUP – perdeu 2 deputados e, com isso, a sua maioria absoluta na Irlanda do Norte. A própria existência do Reino Unido e das suas instituições monárquicas – que mantiveram a partição da Irlanda e organizaram o confronto entre os povos – estão actualmente cambaleantes sob os golpes da crise política.

No fundo, as promessas de Jhonson de acabar com a austeridade e de investir no Ensino e no NHS demonstram que todos temem a rejeição que se expressou no referendo de 2016.

Na realidade – e quaisquer que sejam os desenvolvimentos do Brexit – a economia britânica, tal como a do resto da Europa, está hoje aprisionada na guerra comercial empreendida por Trump contra a China. As medidas económicas de Trump contra os países europeus – para permitir que o imperialismo mais poderoso salvaguarde as suas margens de lucro – implicam uma aceleração da desindustrialização, já em marcha, de regiões inteiras. Os governos europeus, para acatar as ordens contraditórias do capital, não têm outra opção senão reduzir, de maneira brutal, os direitos aduaneiros e todas as regulamentações impostas ao capital (por mínimas que sejam) e empreender uma grande confrontação com a sua própria classe operária, para reduzir o custo do trabalho.

O Brexit é apenas um sintoma agudo da crise que o capital financeiro atravessa e que condena a Europa, irremediavelmente, à decadência. O programa de Jhonson – visando transformar o Reino Unido num paraíso fiscal, com uma mão-de-obra barata – confrontar-se-á, mais cedo ou mais tarde, com a resistência da classe operária britânica. O voto no referendo de 23 de Junho de 2016, a greve dos médicos internos também em 2016, as numerosas greves nas escolas secundárias e a greve nas universidades de 2018 são somente as primeiras manifestações da confrontação que se anuncia.

A greve desencadeada pelos trabalhadores franceses, a 5 de Dezembro, indica a saída para todos os trabalhadores da Europa. E é essa a razão porque os militantes britânicos e do resto da Europa seguem atentamente a sua evolução.

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(1) O trabalhador tem que estar disponível, nas 24 horas de cada dia, para responder às solicitações da empresa… mas só ganha o tempo que efectivamente trabalha!

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