Em França, nada ficará como dantes

França-GreveGeral-Protestos

Vários jornais – nomeadamente o semanário Expresso, de 7 de Dezembro – relatam que a dimensão das mobilizações em França, a partir da greve geral iniciada no dia 5, atingiu proporções inesperadas, surpreendendo as forças políticas, e inclusive as Direcções dos próprios sindicatos.

Mobilizações traduzidas não só na paralisação geral, mas também em manifestações fortíssimas onde, lado a lado, estão trabalhadores dos sectores público e privado – das escolas aos hospitais, da energia aos transportes – estudantes, empregados e desempregados, cidadãos com os coletes dos seus sindicatos e outros com coletes amarelos.

Sobre isto, ninguém poderá falar em “manifestações inorgânicas” ou em “populismos”. São mobilizações assentes em formas de organização saídas de assembleias-gerais democráticas, em múltiplos sectores, dentro e fora dos sindicatos, onde – por unanimidade ou quase – têm sido aprovadas, primeiro a greve geral e, depois, a sua recondução.

Nada acontece por acaso

Os militantes da 4ª Internacional em França, corrente do Partido Operário Independente (POI), e nas suas Secções nos outros países não pretendem dar lições nem ditar caminhos aos outros trabalhadores e militantes que, não partilhando a mesma apreciação da realidade, se colocam no terreno do combate pelo socialismo, com a convicção que só ele é garante do que de positivo a Humanidade já conseguiu e da construção de uma sociedade liberta da exploração e da guerra. Mas estes militantes da 4ª Internacional já há muito que defendem que as actuais explosões revolucionárias estavam na ordem do dia, perante o acentuar qualitativo da política dos diferentes governos para tentar preservar o Sistema capitalista.

A situação em vários países da América Latina, em África, no Médio-Oriente, em Hong Kong ou em França constituem exemplos paradigmáticos desta análise da 4ª Internacional.

A especificidade da luta dos trabalhadores franceses

Jorge de Almeida Fernandes, colaborador do jornal Público, no seu artigo de 6 de Dezembro sobre a situação em França, refere “a erupção de tendências basistas, de modelos de organização horizontal, de criação de redes digitais e de um propósito: desta vez somos nós quem decide”. Afirma ainda que: “O basismo favorece os sectores radicais e empurra o movimento da greve para o confronto, tornando mais difícil o compromisso. A lógica sindical aposta num recuo rápido de Macron, algo que não parece fácil. Caso contrário, haverá um choque frontal entre sindicatos e Poder, com ecos na Europa.” E conclui: “Em França o clima social parece altamente inflamável.”

“Somos nós quem decide” não é apenas um slogan, nem aparece por acaso. A força desta afirmação é o resultado de um trabalho paciente e continuado de milhares de militantes, de diferentes correntes políticas e sindicais, que – durante muitos anos e, sobretudo, a partir da ofensiva dos últimos governos (de Sarkozy, a Hollande e Macron) – procuraram construir Comités de Resistência e Retomada das Conquistas laborais e sociais, conseguidas com a greve geral de 1936 e, em seguida, com a vaga revolucionária saída da 2ª Guerra Mundial. Um trabalho militante de defesa da unidade dos trabalhadores com as suas organizações sindicais, sem protagonismos nem ultimatos, mas que permitiu sem dúvida que estudantes, reformados, desempregados e trabalhadores – uns nos sindicatos e outros nos “coletes amarelos” – confluíssem no mesmo movimento e na mesma determinação “somos nós a decidir”.

As manobras são muitas, para chegar a “compromissos” que permitam partir este movimento de unidade. Mas, sejam quais forem os resultados da luta dos trabalhadores e da população francesa, nada ficará como dantes, lá e nos outros países da Europa. O seu “eco” e as lições do seu movimento serão ouvidos e estudados por todos quantos não desistem do combate pelo socialismo.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s