A queda do Muro de Berlim: “O povo somos nós!”

Queda_muro_Berlim

No 30º aniversário da queda do Muro de Berlim, divulgamos um “Apelo da União dos círculos para uma política operária”, publicado a 9 de Outubro de 1989, altura em que havia manifestações sistemáticas tanto na RDA como na RFA (1), nas semanas que precederam essa queda, a qual levou à junção dessas mobilizações.

 Apelo da União dos Círculos para uma política operária

Os delegados pedem: liberdade de opinião, de reunião e de manifestação. Eles assumem o direito de se insurgir e de manifestar por estas exigências. Têm sido milhares, todas as segundas-feiras, desde há semanas, em Leipzig, porque não querem mais aceitar a falta de direitos políticos que lhes é imposta. A burocracia do SED (Partido Comunista da RDA) responde-lhes com prisões e cassetetes.

Voltaram a ser 8 mil a 23 de Setembro e 20 mil a 2 de Outubro, em Leipzig, e milhares a 4 de Outubro, em Dresden. Uns exigem “Liberdade!” e “Queremos partir!”. Outros pedem liberdade, a legalização do Neues Forum (a sua organização independente) e gritam: “Ficamos aqui.” Todos cantam A Internacional: “A Internacional imporá os direitos humanos.”

O povo começa a levantar-se contra as prisões impostas pela ditadura do Partido único e exige os seus direitos e liberdades democráticas inalienáveis, condição para que o próprio povo possa decidir sobre a vida da sociedade.

A 7 de Outubro, por ocasião do 40º aniversário da fundação da RDA, dezenas de milhares de pessoas juntaram-se, novamente, em Berlim Oriental, Leipzig, Dresden, Potsdam, Plauen, Iena e noutras cidades. Eles gritavam: “Nós somos o povo! Vocês estão a lutar contra quem?”

E a burocracia da RDA responde-lhes, em pânico, com a violência policial da Stasi (Segurança do Estado) e as forças paramilitares armadas.

A população da RDA, os trabalhadores e os jovens já não podem aceitar estar sob o controlo de uma burocracia que afirma falar em nome do movimento operário, ser pauperizados enquanto essa burocracia corrupta acumula cada vez mais privilégios e incentiva o comércio com capital ocidental, não podem aceitar estar presos em muros e fronteiras.

“LIBERDADE E DEMOCRACIA SÃO INDIVISÍVEIS”

A SED responde com novas fronteiras e novos muros. As exigências da população da RDA são as nossas exigências, são as exigências dos trabalhadores e dos jovens no Leste e no Oeste, em toda a Alemanha: a liberdade e a democracia são indivisíveis. A Stasi baseia a sua violência de opressão no muro e na fronteira. Nenhum trabalhador, jovem, democrata, aceitará sem protestar que as exigências que os trabalhadores da RDA defendem, tal como eles, sejam abafadas. Apesar do muro e da fronteira, os trabalhadores e os jovens da Alemanha Ocidental levantar-se-ão para defender as mesmas exigências em relação às quais a população da RDA é atacada pela Stasi e colocada na prisão. Os trabalhadores e jovens de aqui, unidos com a vontade e o combate do povo trabalhador e da juventude na RDA, é isso que pode parar a violência e a opressão da burocracia.

É responsabilidade das grandes organizações dos trabalhadores, do SPD e dos sindicatos da DGB, bem como dos Verdes, mobilizar a população na Alemanha Ocidental pela solidariedade e unidade por cima da fronteira que nos divide:

– pelo respeito das exigências da população da RDA, que são as nossas exigências comuns;

– pela protecção da população da RDA contra a violência da Stasi;

– pelo estabelecimento das liberdades e dos direitos democráticos e políticos inalienáveis.

Propomos a organização de uma manifestação nacional, no próximo sábado, 14 de Outubro, em Bona, ao apelo da DGB, do SPD e dos Verdes, apoiado por todas as organizações que se reclamam das reivindicações do movimento operário e democrático, a fim de exigir:

– a libertação de todos os prisioneiros políticos;

– a anulação de todas as sanções disciplinares;

– a liberdade de opinião, de reunião e de manifestação;

– a legalização do Neues Forum, do SPD e de todos os agrupamentos políticos;

– o direito à organização sindical e política independente.

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(1) Recordemos que, nesse momento de viragem da História, a Alemanha estava dividida em dois países distintos. No Ocidente, os três sectores da ocupação pelos vencedores ocidentais de 1944-1945 foram agrupados na República Federal da Alemanha (RFA), cujo capital era Bona. Esta foi sucessivamente governada por governos Democratas-Cristãos ou Socialistas do SPD. No Leste, o sector “soviético” tornou-se na República Democrática Alemã (RDA), cujo capital era Pankow (distrito de Berlim Oriental). Este país tinha sido fundado pela vontade do Kremlin e era dirigido por um partido único estalinista, o SED, cujo principal líder era Erich Honecker.

Devido à sua localização, Berlim, inserido no interior da RDA – que tinha sido o capital da Alemanha, e inclusive do Terceiro Reich Nazi – tinha sido desmembrado da mesma forma entre quatro sectores, que foram separados por um muro, construído em 1961 e com o objectivo de proibir qualquer passagem do Leste para o Oeste.

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