A mundialização da revolta dos povos

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Do Líbano ao Chile, da Argélia ao Equador, na “velha” Europa, em Hong Kong e no Iraque, as massas populares irrompem no cenário político de forma explosiva. A razão essencial destas mobilizações é a resistência à política de guerras, de ataque aos direitos sociais, de privatizações, impulsionada pelo sistema imperialista para sair da sua própria crise.

Em 1930, num mundo convulsionado pelo colapso da Bolsa de Nova Iorque, de Outubro de 1929, Leão Trotsky escrevia no prefácio da sua História da Revolução Russa: “A irrupção das massas no terreno em que se resolve o seu próprio destino (…), com os acontecimentos a encadearem-se, não segundo um plano acabado de transformação social, mas com base na amarga sensação de não poderem tolerar por mais tempo o antigo Regime”.

Hoje, trata-se de todo o Regime da propriedade privada dos grandes meios de produção, na sua etapa imperialista, que se torna intolerável para as massas. Como dizia Marx, é a “velha toupeira” que continua cavando o subsolo, até ao momento, imprevisível, em que o terreno desaba.

Ilustramos esta situação generalizada de revolta com uma crónica sobre o Médio Oriente, publicada no semanário Informations Ouvrières – Informações operárias – nº 577, de 30 de Outubro de 2019, do Partido Operário Independente, de França.

Parar a “guerra sem fim”?

Donald Trump repete tanto quanto pode: ele pretende acabar com a “guerra sem fim” travada pelo imperialismo norte-americano no Médio Oriente. Esta orientação levou-o a anunciar a retirada das tropas dos EUA estacionadas no norte da Síria, nos territórios curdos. Esta medida desencadeou imediatamente, no início de Outubro, uma operação militar turca para erradicar a presença militar curda para além de uma “área segura” situada a trinta quilómetros da fronteira, de acordo com a intenção repetidamente declarada do Presidente turco, Erdogan.

Digamos que se Erdogan tem sangue curdo nas mãos é porque Trump lhe deu luz verde.

Se Bashar al-Assad é responsável por alguma da violência que ainda está a acontecer na Síria, não foi ele que financiou e armou os grupos paramilitares dos “rebeldes sírios” que acompanharam o Exército turco em operações criminosas contra a população civil curda.

Estamos longe das intenções dos indivíduos próximos de Trump que defenderam a linha de retirada norte-americana, mas “de uma boa maneira, sem trair os nossos aliados curdos”. Mas os Curdos, como tantos outros, são apenas aliados ocasionais.

Desde a sua decisão de retirar as tropas dos EUA da Síria, Trump mudou de posição várias vezes.

Inicialmente, permitiu que o Exército turco interviesse; em seguida, pediu um cessar-fogo e implementou as condições para uma passagem do testemunho à Rússia, causando assim uma grande crise na NATO, da qual a Turquia é membro.

Ao mesmo tempo que mostra a sua vontade de se retirar do Médio Oriente e de acabar com a “guerra sem fim” – para responder às aspirações do seu eleitorado – Trump toma as disposições para ficar lá, para satisfazer as necessidades dos trusts norte-americanos. Com efeito, no seu discurso de 23 de Outubro sobre a situação no norte da Síria, Trump disse: “Nós organizámos a segurança do petróleo, e por isso um pequeno contingente de tropas dos EUA permanecerá na área onde existe petróleo. E nós vamos continuar a protegê-lo e decidir o que vamos fazer com ele no futuro.”

Assim o mesmo Trump que fala de parar a “guerra sem fim” – que já teria custado 8 mil milhões de dólares aos EUA, “sem qualquer retorno”, diz ele – decidiu “reembolsar-se” directamente pilhando o petróleo sírio.

Ele foi ainda mais longe a ponto de especificar, num tweet, que ia confiar a sua gestão a “uma das nossas empresas, a Exxon Mobil”.

Quanto à emancipação do povo curdo, em toda a sua diversidade, ela é inseparável do movimento de todos os povos da Região, incluindo o povo turco, contra os regimes oligárquicos e corruptos, contra os partidos que partilham o poder e o controlo dos recursos.

Líbano: “A rejeição é total!”

Pedimos aos nossos correspondentes para relatarem a situação no país, desde a revolta contra o “imposto Whatsapp”.

A 25 de Outubro, havia ainda mais de 2 milhões de manifestantes em todo o Líbano – ou seja, metade da população total!

O Presidente libanês, Michel Aoun, disse ao povo que o processo para acabar com os regimes não deve ser feito nas praças e nas ruas, mas sim através de reformas constitucionais, o que para muitas pessoas torna claro que, se os governos não mudam sob a pressão da rua, então porque é que Hariri (o Primeiro-ministro do Líbano) fez tantas declarações em resposta aos manifestantes?

Porque é que ele fez promessas que nunca tinha feito antes? Hoje, os líderes estão todos a denunciar-se uns aos outros. Os da oposição estão à procura de surfar a onda, mas já ninguém se deixa enganar e a rejeição é total.

Este sistema entrou em colapso e os Libaneses não querem voltar atrás. Os Libaneses querem a queda do Regime. Nas manifestações, ouvimos a palavra de ordem: “Vão-se todos embora, todos!”.

“Dissemos todos, e são todos!”

Nos últimos dez dias, a grande maioria dos Libaneses – sejam eles cristãos maronitas, muçulmanos, laicos, religiosos abertos à discussão ou fundamentalistas – mostrou rejeitar o Regime que nos mergulha na precariedade económica.

Todos podem ver que os representantes oficiais das comunidades ficam ricos, cobram impostos por todos os gestos da vida diária, enquanto o povo se limita a sobreviver. Aqui, a vida quotidiana tornou-se num acto de resistência.

A maioria das pessoas não se importa se tu és sunita, xiita, cristão ou laico. No Líbano, mais de um terço da população vive abaixo do limiar de pobreza, de acordo com os padrões internacionais.

A taxa de desemprego dos jovens diplomados é de 40%. As milícias estão a tentar criar um clima de terror; mas, mesmo na sua própria comunidade, as coisas não se passam como dantes.

A Embaixada dos EUA envia pessoas a comícios para falar sobre democracia e tentar controlar o movimento, mas a grande maioria dos manifestantes e dos militantes não querem mais ouvir falar em compromissos.

O Sistema vigente foi implementado para evitar conflitos religiosos, mas não nunca os impediu. É principalmente um Sistema para dividir o povo e é dele que decorrem as lutas pelo poder.

No seu discurso do dia 25 de Outubro, Hassan Nasrallah, líder do Hezbollah, disse que o movimento popular era comandado por “líderes invisíveis” e fazia parte de uma “conspiração internacional”, mas isso não impressionou ninguém. Se a situação piorar, os líderes – todos os líderes – serão totalmente responsáveis por isso.

Epílogo provisório

O Primeiro-ministro Hariri anunciou, a 29 de Outubro, à tarde, a sua demissão e a do seu Governo.

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