CHILE: O recuo do Governo não desactivou a mobilização

Manif_Chile

Na quinta-feira, 17 de Outubro, os bilhetes do Metro em Santiago-do-Chile subiram de 800 para 830 pesos. (1)

Foi a gota de água que fez transbordar o copo. Uma mobilização sem precedentes foi desencadeada, paralisando os transportes e toda a capital.

O Governo decretou o estado de emergência na capital e em cinco das regiões mais importantes do país (o Chile está dividido em 16 regiões). Sábado, dia 19, o presidente, Sebastian Piñera, cancelou o aumento dos bilhetes mas não parou a revolta popular.

O que se expressa nestas mobilizações é todo o mal-estar acumulado ao longo dos anos, as pensões miseráveis, os serviços de saúde e de educação desmantelados, os salários de miséria, o poder arbitrário do Exército e da Polícia herdado da ditadura de Pinochet.

Publicamos abaixo as declarações do camarada chileno Luis Mesina, porta-voz da Associação “Não às AFP” (2) e Secretário-Geral da Federação dos Trabalhadores da Banca.

Declarações de Luis Mesina

Perante os acontecimentos que tiveram lugar ontem e levaram o Governo a declarar o estado de excepção constitucional, considero que é necessário tomar posição.

A reacção massiva das pessoas na região metropolitana, que desejam expressar a sua insatisfação, é totalmente legítima. Os estudantes começaram por recusar aceitar o aumento do preço do bilhete de Metro, e depois os pais uniram-se a eles gradualmente, pois consideraram que não era ético deixar os jovens a lutar sozinhos, quando na realidade o problema diz ainda mais respeito aos pais desses jovens, aos trabalhadores, porque há muitos que gastam mais de 10% do seu salário em transportes.

A reclamação sobre o preço do bilhete foi o detonador. A população desceu às ruas para expressar a sua raiva e desconforto, acumulados durante anos de mentiras. É o resultado e a resposta de um povo que teve de suportar a exposição de modelos de normas sociais que, durante 40 anos, foram muito bem vendidos lá fora, com indicadores que mostram como somos bem-sucedidos em termos de estradas privadas, de um Metro de luxo, de clínicas privadas de luxo, de estradas exemplares, de edifícios sumptuosos nos bairros chiques.

Mas essa narrativa esconde a situação das comunas periféricas, a verdadeira realidade da maioria. Não temos direito à saúde, os hospitais públicos estão a cair (enquanto transferimos imensos recursos estatais para clínicas privadas), o alojamento dos pobres é indigno e degrada a qualidade de vida de milhões de pessoas. O paradoxo é que todos os meses nós consagramos mais de 7% do nosso salário para a saúde e, quando queremos ser tratados, temos de pagar com “vouchers” que nos oferecem um apoio deficiente. As pessoas estão-se a perguntar, e com razão, para que serve então descontar todos os meses. Da mesma forma, nós somos obrigados a pagar mais de 10% do nosso salário para pensões de aposentação, para que outros se tornem mais ricos e nos condenem a uma velhice miserável.

A educação, os transportes públicos, a água e a electricidade são um comércio para alguns. A gestão privada destes serviços demonstrou a sua total ineficiência, no respeitante à sua administração; só foi utilizada para o grande capital obter gigantescas margens de lucro e causou a degradação da vida dos chilenos e das chilenas. No Chile não existe Previdência Social e milhões de pessoas sofrem as consequências de terem pensões de reforma indignas.

Todos os dias testemunhamos a situação em que se encontram as pessoas deste país, quando chegam à velhice e começam a viver a pior fase das suas vidas. Ficam doentes e, com a sua magra pensão, morrem de forma indigna. O Chile tem a maior taxa de suicídio da região, a maioria deles nas faixas etárias dos idosos. Ou seja, os nossos anciãos suicidam-se porque não fomos capazes de lhes garantir uma velhice digna. O Chile acordou e fê-lo de uma forma radical.

A violência não é feita pelas pessoas, a violência vem daqueles que negam os direitos fundamentais. Pretender desacreditar o protesto por causa de haver excessos é não entender nada. Esta é a reacção típica daqueles que desprezam as pessoas comuns, as pessoas simples, as pessoas que trabalham, a maioria. Aqueles que estão obcecados com a aparência do fenómeno nunca compreenderão que, por detrás desta mobilização radical de ontem, o que o povo está a pedir são modificações reais. Ele reivindica justiça, ele reivindica segurança social, ele reivindica os direitos fundamentais. Enquanto estes direitos forem privatizados, eles permanecerão nas mãos de poucos; é por isso que o protesto será sempre legítimo e continuará com uma força cada vez maior.

Não se param processos sociais pela força e a repressão.

Piñera comete um erro ao acreditar que, com o estado de emergência, resolverá os problemas.

É só uma questão de tempo até que o Chile recupere novamente os direitos que a ditadura nos retirou através da força.

Dada a dimensão da crise política e a impossibilidade de Piñera governar, é aconselhável evitar consequências ainda mais graves. Será bom e urgente para o Congresso (dos deputados) cumpra responsavelmente o seu mandato e não lhe dê um voto maioritário, impedindo-o assim de continuar a tomar medidas anti-trabalhadores.

Com os seus soldados nas ruas, Pinochet impôs-nos Fundos de pensões privados.

Com os seus soldados nas ruas, Piñera procura consolidá-los.

Enquanto a actual crise política persistir, não podemos caucionar esta pseudo-reforma das pensões de aposentação, que vai perpetuar a pobreza de milhões de pessoas.

19 de Outubro de 2019

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(1) Reportagem publicada no semanário Informations Ouvrières – Informações operárias – nº 576, de 23 de Outubro de 2019, do Partido Operário Independente, de França.

(2) AFP é a sigla de Administradoras de Fundos de Pensão, fundadas pela ditadura chilena em 1981, depois de Pinochet ter privatizado a Previdência (Segurança Social) pública no país. Essa medida foi convertida pelo capital financeiro em “exemplo”, noutros países, para os ataques à Previdência Pública.

 

Greve geral a 23 e 24 de Outubro

Perante as ameaças do presidente Piñera – membro do partido de centro-direita Renovación Nacional pelo qual foi eleito presidente do Chile – que declarou o país em guerra, todos os sindicatos e organizações populares se reuniram e constituíram a Unidade Social de Emergência.

Esses sindicatos e organizações exigem do Governo a retirada do estado de emergência e a satisfação das reivindicações dos trabalhadores e das populações do Chile.

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