China: 70 anos depois da Revolução, para onde vai?

Pequim_1948

Da expropriação da burguesia, no país mais populoso do mundo, ao “socialismo de mercado”. Divulgamos uma crónica, da autoria de Lauro Fagundes, publicada no jornal “O Trabalho” – da responsabilidade da Secção brasileira da 4ª Internacional – na sua edição nº 855, de 10 de Outubro de 2019. Na foto vê-se o Exército revolucionário a entrar em Pequim, em Janeiro de 1949, significando a vitória da Revolução Chinesa no norte do país.

A 1 de Outubro de 1949, Mao Tsé-Tung proclamou a República Popular da China. No meio das convulsões que marcaram o período posterior ao final da 2ª Guerra Mundial (1945), a expropriação da burguesia e a realização da independência nacional pela revolução chinesa foi um acontecimento crucial.

Inclusive pelo facto dessa revolução ter acontecido em ruptura com a política da União Soviética (URSS), dirigida por Estaline nessa época, o qual havia pactuado com as potências vitoriosas a “divisão do mundo” nos Acordos de pós-guerra (Ialta e Potsdam). A vitória da revolução chinesa foi a conclusão de um longo processo que teve as suas raízes em 1927.

Antecedentes

A China, aos olhos das potências capitalistas, sempre foi um enorme mercado a ser explorado. No século XIX, as “guerras do ópio” (1) abriram o país ao “livre comércio”, com concessões à Inglaterra (incluindo a posse de Hong Kong, em 1842), à França e aos EUA. Também a Rússia, o Japão e a Alemanha se juntaram à pilhagem da China, que foi reduzida à condição de semicolónia com a conivência dos seus imperadores.

Em 1911, a revolução nacionalista de Sun Yat-sen proclamou a República e iniciou a dominação do Kuomintang (Partido nacionalista). Mas Sun renunciou à Presidência e o poder passou para o general Yuan Shikai, em 1913, com o apoio das potências estrangeiras. A 1ª Guerra Mundial (1914-1918) atingiu fortemente a China, que entrou num caos político.

Em 1924, Sun reorganizou o Kuomintang, entregando o seu Exército a Chiang-Kai-Chek. O Partido Comunista Chinês (PCC) – fundado em 1921, sob o impulso da Revolução Russa – formou então uma frente única com os nacionalistas, seguindo a orientação da Internacional Comunista (IC). Com a morte de Sun, em 1925, Chiang passa a ser o chefe do Kuomintang e é aclamado – por Estaline – dirigente honorário da IC. Depois da rebelião de Xangai de 1927, dirigida pelos comunistas, que permitiu a entrada na cidade das tropas de Chiang, este ordenou o massacre dos seus “aliados” do PCC.

A 1 de Agosto de 1927, tropas ligadas ao PCC rebelam-se, originando o Exército Vermelho, o qual – com o apoio de camponeses – entra em guerra contra o Kuomintang. Em 1931, o Japão ocupa a Manchúria e, em 1937, declara guerra à China, o que provoca uma trégua entre nacionalistas e comunistas para enfrentar o agressor.

A tomada do poder pelo PCC

Com a rendição do Japão na 2ª Guerra Mundial, a guerra civil é retomada na China em 1946, com os EUA a apoiarem Chiang Kai-Chek contra os “vermelhos” e a URSS a reconhecer o governo do Kuomintang.

A estratégia de Mao era cercar as cidades, a partir do campo. Em 1948, todo o norte da China foi ocupado pelos comunistas, que entram em Pequim no início de 1949. No final desse ano, Chiang foge para a ilha de Taiwan, onde proclama a China Nacionalista.

O Regime – que se instala sob a liderança de Mao e de Chu En-Lai – nacionalizou os grandes meios de produção e estabeleceu o PCC como Partido único, o qual vai ocupar todos os níveis do poder de Estado, sem jamais permitir às classes trabalhadoras constituir as suas próprias instituições.

A União Soviética assinou, em 1950, um Tratado de amizade com a China, que participava na Guerra da Coreia (1950-1953) contra os EUA.

Ainda com o apoio soviético, a China fez o seu primeiro Plano quinquenal (1953-1958), impulsionando a indústria e a colectivização da agricultura (que tinha começado em 1949). Mas, a morte de Estaline (em 1953) e a política do seu sucessor, Krutchov, de “coexistência pacífica” entre capitalismo e socialismo, levaram à ruptura sino-soviética de 1958 (2), a qual desembocou no paradoxo do “maoísmo” se identificar com o estalinismo, cujo inspirador abandonara a Revolução chinesa à sua própria sorte.

A “Era Mao” prolongou-se até 1976, com uma sucessão de grandes campanhas (“Cem Flores”, “Grande Salto em Frente”, “Revolução Cultural”) que manipulavam multidões  num ou noutro sentido, para preservar o poder de um sector da burocracia sobre os outros, perante a permanente pressão imperialista sobre um país que havia expropriado o capital.

Entre 1965 e 1968, no momento da escalada dos EUA na Guerra do Vietname, a China chegou a concentrar 320 mil soldados na sua fronteira em apoio logístico a Hanói. No entanto, em 1972, quando aviões dos EUA bombardeavam o Vietname do Norte, Mao recebeu em Pequim o presidente Nixon, vindo de Moscovo, iniciando assim a “abertura” da China ao ocidente.

A abertura ao mercado mundial

Após a morte de Mao (1976), houve uma luta interna no PCC pela sucessão, que terminou com a subida ao poder de Deng Xiao-Ping – que caíra em desgraça durante a “Revolução Cultural” (1966-1969). Deng vai promover, a partir de 1978, a política de abertura ao capitalismo. O seu Governo normaliza as relações diplomáticas com os EUA e cria as Zonas Económicas Especiais (ZEE) para atrair capital estrangeiro.

Em pouco tempo, essas ZEE atraíram grandes investimentos vindos de Hong Kong, de Taiwan, do Japão e dos EUA, explorando o baixo custo da mão-de-obra chinesa, disciplinada pelo Regime de Partido único e pelo controlo estatal dos sindicatos (o direito à greve é proibido em 1982). No período de 1981 a 2001, o PIB chinês cresceu à taxa média de 9,5% ao ano. Esse crescimento criou “milionários”, aumentou os privilégios da casta burocrática e a desigualdade social no país, tendo como efeito provocar novas lutas internas no PCC e resistência popular.

Em Junho de 1989, uma grande mobilização de estudantes e trabalhadores exigindo liberdades políticas ocupou a Praça da Paz Celestial (Tian An Men), em Pequim, atemorizando o Governo. Ela foi massacrada pelo Exército, deixando 1.400 mortos.

Nos últimos anos, já sob a gestão de XI Jin Ping (desde 2013), várias greves ocorreram em que os trabalhadores construíram formas embrionárias de sindicatos livres.

Hoje, passados 70 anos sobre a vitória da Revolução Chinesa e 40 anos sobre a “Segunda Revolução”, nas palavras de Deng Xiao-Ping – que estabeleceu um “socialismo de mercado” – a China é uma bomba ao retardador. A sua dependência aos EUA no respeitante às suas exportações, num mercado mundial em recessão, provoca uma queda nas taxas de crescimento, agravada pela “guerra comercial” desencadeada por Trump. Mas a última palavra ainda será dada pela classe operária da segunda maior potência económica do mundo.

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Notas

 1 – No século XIX, os ingleses comerciavam o ópio, proibido na China desde 1729, como remédio e também como droga que afectava a saúde. O Governo chinês combatia o contrabando inglês, o que levou a represálias de Londres – as chamadas “Guerras do Ópio” (1839-1842 e 1856-1860) – das quais resultaram Tratados que deram concessões e privilégios a estrangeiros na China.

2 – O conflito “sino-soviético” teve como consequência o surgir de Partidos “maoístas” (auto-intitulados marxistas-leninistas) ou a divisão dos Partidos Comunistas entre uma linha pró-Moscovo e outra pró-Pequim. O aparecimento do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), separando-se do Partido Comunista Brasileiro (PCB, pró-Moscovo), em 1961, foi a tradução brasileira desse fenómeno.

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