Netflix difunde série com falsificação da História

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Série com o título “Trotsky – o rosto de uma revolução”

Uma polémica foi levantada pela série da Netflix “Trotski: o rosto de uma revolução”, baseada na vida de Leão Trotski, um dos dirigentes do processo que levou ao fim da Monarquia absoluta na Rússia e à constituição e formação da União Soviética. (1)

A série foi difundida na Rússia, a partir de 6 de Novembro de 2017, por ocasião do centésimo aniversário da Revolução russa. Ela foi produzida pela televisão russa e foi divulgada pela empresa norte-americana Netflix, no início de 2019.

A polémica respeita à falsificação da História que está contida na série, e contra a qual intelectuais – tanto da esquerda como da direita – se manifestaram, afirmando que ela não tinha nada (ou pouco) a ver com a História, sendo pelo contrário uma série de propaganda do governo de Putine (o realizador, Alexander Kott, é membro do Partido de Putine, a Rússia Unida).

Na série, Trotski e, de passagem também Lenine, são apresentados como “robots da revolução”, quer dizer como pessoas que colocam os interesses do “movimento revolucionário” acima das vidas humanas. Nada está mais longe da realidade. A quem serve esta falsificação da figura de Trotski?

Na série, chega-se ao cúmulo de apresentar o assassinato do dirigente bolchevique como algo desejado por ele próprio, já que supostamente provoca o assassino enviado por Estaline, porque – é afirmado na série – Trotski “está cansado de tudo”, num período em que ele luta pelo desenvolvimento da Quarta Internacional (que tinha fundado com um punhado de militantes em 1938) e no qual se encontra em pleno combate contra a barbárie da Segunda Guerra mundial!

A falsificação da figura de Leão Trotski tem dois objectivos políticos principais.

Em primeiro lugar, desacreditar o processo revolucionário, mostrando-o como um capricho de alguns líderes frios, pragmáticos e quase sem escrúpulos, que manipulam os operários; portanto, os trabalhadores não necessitam de se organizar num Partido revolucionário e numa Internacional, num período em que a crise do sistema da propriedade privada dos grandes meios de produção conduz à barbárie e à descomposição social.

Em segundo lugar, apresentar o Governo russo actual como uma “superação” do dito processo. Putine pretende mostrar o seu Governo como a maneira como foi “endireitado o caminho” comunista e mantida a pretensa grandeza da pátria russa, numa situação em que – não sem contradições – Putine apoia o Governo norte-americano no Médio-Oriente.

Mas o governo de Putine não ataca as classes trabalhadoras somente através da falsificação histórica. No ano passado, aumentou a idade de aposentação de 55 para 60 anos, em relação às mulheres (inicialmente a proposta era subir para 63 anos), e de 60 para 65 anos, no caso dos homens. A isto há que juntar a perseguição sistemática contra opositores políticos. Há poucos dias o Governo russo impediu o registo de candidatos independentes ao Parlamento de Moscovo, o que gerou protestos e desembocou na prisão de um dos candidatos.

Por tudo isto, rejeitamos a falsificação da Revolução russa e da figura de Leão Trotski que, com Lenine, foi um dos principais dirigentes da Revolução bolchevique. Eles, à frente de milhões de homens e de mulheres, propuseram-se criar o primeiro Estado operário da História, e levaram a cabo essa tarefa, embora se tenham defrontado com vários problemas.

De facto, os golpes foram muito duros. O imperialismo, apoiado pelos dirigentes da Social-Democracia europeia, isolou o Estado soviético, o que conduziu à sua degenerescência e à constituição de uma burocracia gananciosa, encabeçada por Estaline.

Em seguida – após a morte de Lenine e da Revolução ter sido traída – Estaline utilizou o poder para assassinar e perseguir os dirigentes da Revolução. Leão Trotski, perseguido por todo o planeta, foi o último dirigente a ser assassinado (no México, a 20 de Agosto de 1940).

Apesar disso, o legado de Trotski perdura, devido à sua grande dedicação à organização dos operários e dos camponeses, à sua análise paciente e profunda da situação política e económica mundial, à sua esperança num mundo melhor para todos. Trotski – mesmo depois de ver Estaline trair a Revolução russa e, inclusive, depois de uma longa e dolorosa perseguição que envolveu toda a sua família – não recuou e manteve firmemente as suas análises e propostas para uma revolução capaz de eliminar o capitalismo.

Como escreveu este dirigente bolchevique: “A vida é bela. É preciso que as futuras gerações a livrem de todo o mal, opressão e violência e a desfrutem plenamente.”

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(1) Esta Nota foi publicada pelos nossos camaradas da Organização Socialista dos Trabalhadores (OST, Secção mexicana da 4ª Internacional) no seu jornal “El Trabajo”    (nº 281, de Agosto de 2019), quando acabam de passar 69 anos sobre o assassinato de Trotski, por um agente da GPU.

 

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