Argélia: Mobilização popular continua firme, enfrentando a repressão

Argelia

O 21 de Junho marcou a 18ª manifestação de sexta-feira – a 1ª foi em 22 de Fevereiro – do povo argelino contra o Regime.

Dois dias antes, o chefe do Estado­-maior, Gaïd Salah, ameaçou lançar as forças da ordem contra “a tentativa de infiltração nas manifestações de outros símbolos que não o nosso símbolo nacional”.

Ele procurava dividir os grupos lin­guísticos que compõem o povo arge­lino. O árabe é predominante, mas línguas berberes (ou tamazigues ou ainda amazighs) também são faladas em diversas regiões, em particular no extremo norte do país, na Cabília. É uma herança dos povos que habitavam originalmente todo o norte da África, antes da colonização pelos árabes do Médio Oriente (séculos VII e VIII). Ain­da mais atrás na História, anteriormen­te à ocupação romana, eles tinham constituído o reino da Numídia. Em 2016, depois de uma longa campanha, na qual participou o Partido dos Trabalhadores (PT) da Argélia, o berbere foi reconhecido oficialmente como língua nacional, ao lado do árabe.

Mas a 21 de Junho, desde o ama­nhecer, um provocador dispositivo policial cercava Argel. Os manifes­tantes eram interpelados às centenas, especialmente aqueles que ostentavam o símbolo amazigh.

“Nós estamos unidos!”

Ao contrário do que o Regime pretendia não houve divisão. A multi­dão de milhões de manifestantes, em todo o país, tanto arabófonos como berberófonos, agitava a bandeira ama­zigh, com as palavras de ordem “Gaïd Salah quer dividir-nos, nós estamos juntos!” ou “Cabiles e arabófonos são irmãos, sem discórdia entre nós!” e “Os argelinos são todos irmãos!”.

Em Argel, um cartaz dizia: “Não ao racismo!” e outro: “Não à fitna (discórdia), um só povo!” e, naturalmente, os slo­gans pelo fim do Regime: “Saiam todos e levem Gaïd Salah com eles!”, “Estado civil, não ao Regime militar!”.

Mais uma vez se expressa essa von­tade do povo argelino de derrubar o Regime e de permanecer unido. A provocação sobre a questão da ban­deira berbere (amazigh), ao contrário de dividir, reforçou a ligação entre todos os argelinos.

Mas a repressão continua. 18 ma­nifestantes que transportavam uma ban­deirola berbere estão em custódia para serem levados a julgamento, sem nenhuma base jurídica, acusados de complot contra a unidade nacional. Eles estão sujeitos a penas de até dez anos de prisão. Diversas forças polí­ticas, sindicais, associativas, além de inúmeros partidos políticos protes­taram veementemente contra essas decisões escandalosas.

Num comunicado, o Partido dos Trabalhadores declarou: “Estas deci­sões arbitrárias foram tomadas por ordem do chefe do Estado-maior. É um desvio adicional grave que poderá abrir a porta a sérios excessos.”

“Por uma segunda República, Assembleia Constituinte”

A 1 de Julho, na Sede nacional do Partido União pela Mudança e pelo Progresso, oito partidos políticos argelinos, entre eles o PT, assinaram um pacto por uma verdadeira tran­sição democrática. Eles saúdam o movimento revolucionário iniciado pela maioria do povo a 22 de Fevereiro.

Em luta pela libertação de Louisa Ha­nune, e Lakhdar Bourega (ver abaixo), e demais presos políticos, estes partidos afirmam que só com o fim do actual Sistema será possível encontrar uma solução em conformidade com as reivindicações dos milhões de cidadãos.

Os apelos do Sistema “ao diálogo” são contraditórios com as medidas re­pressivas contra aqueles que se opõem à política de preservação do Regime por meio de uma eleição presidencial.

Constituindo-se como forças políti­cas da alternativa democrática, os oito partidos reafirmam a sua “disposição de agir em conjunto com todas as forças vivas da nação, pela satisfação das aspirações legítimas do povo arge­lino, a fim de consagrar a sua soberania através do estabelecimento de um processo constituinte soberano”.

Campanha internacional pela libertação de Louisa Hanoune

Juiz nega liberdade a Louisa Hanoune

É hora de intensificar a campanha pela sua libertação e de todos os presos por delito de opinião

Além de Lisboa (ver https://pous4.wordpress.com/2019/06/22/concentracao-em-frente-da-embaixada-da-argelia-em-lisboa/?fbclid=IwAR3lGX2sQeSN75R7_bNtt1QwQuajnauhHxwujuqnPlz5ZJgpHZ00OhTZhfo), a Jornada Inter­nacional pela libertação de Louisa Hanoune, a 20 de Junho, contou com concentrações públicas e/ou delegações a representações diplomáticas da Argélia em vários países europeus (especialmente em França), bem como em inúmeras cidades de África e da América do Sul.

Em Argel foi realizado um impor­tante comício público, organizado pelo PT da Argélia em colaboração com o Comité Nacional pela Libertação de Louisa Hanoune, que é coordenado pela moudjahida (1) Zohra Drif-Bitat. Participaram também a Liga Argelina de Defesa de Direitos Humanos (LADDH), sin­dicalistas, dirigentes históricos da luta do povo argelino e os partidos políti­cos Frente de Forças Socialistas (FFS), Partido Socialista dos Trabalhadores (PST), Reagrupamento pela Cultura e a Democracia (RCD), Partido pela Laicidade e a Democracia (PLD).

Na abertura do comício, Youssef Tazib, dirigente do PT – do qual Louisa Hanoune é Secre­tária-Geral – agradeceu a solidariedade e reafirmou o compromisso do partido “pelo triunfo da Revolução que, de nosso ponto de vista, passa por uma Assembleia Constituinte soberana que dará os meios políticos aos milhões de argelinos para definirem os contornos da nova República que eles desejam para substituir o Regime vigente”.

Seguiram-se contundentes interven­ções em defesa da democracia, além de recordações sobre as inúmeras tomadas de posição de Louisa Hanoune e do PT em defesa de presos políticos e da soberania nacional, contra as priva­tizações, contra a repressão,…

Zohra Drif-Bitat afirmou que “a pri­meira liberdade é a de expressão. Se ela está ausente, não podemos dizer que realizámos os objectivos da Revolução de Novembro de 1954”.

A campanha já se estende a mais de 80 países e precisa de ser intensificada. Tentando bloquear as mobilizações, o Regime argelino agrava a repressão. Além de manifestantes e militantes, também foi preso Lakhdar Bourega – unicamente por ter manifestado uma opinião polí­tica –, comandante histórico do Exército de Libertação Nacional na guerra contra a França, que resultou na independência da Argélia, em 1962.

 “Liberdade para Bourega, Louisa Hanoune e todos os presos por delito de opinião”

A 5 de Julho, quando se comemo­rou o 57º aniversário da independên­cia, as forças da alternativa democrática participaram na manifestação popular com uma coluna unificada encabeçada por uma faixa levantando a bandeira da convocação da Assembleia Consti­tuinte e com palavras de ordem pela libertação de Louisa, Bourega e demais presos políticos.

Num comunicado, o Acordo Internacional dos Trabalhadores e dos Povos (AIT) informa que, a 15 de Ju­lho, pela terceira vez, o juiz do Tribunal militar recusou a libertação de Louisa. E conclui: “É urgente redobrar os esforços para ampliar ainda mais a campanha internacional pela libertação de Louisa Hanoune”.

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(1) Combatente da guerra de libertação.

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