Eleições europeias: Um campo de ruínas

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Duas lições essenciais decorrem da análise dos resultados das eleições europeias (1). Em primeiro lugar a abstenção e – intimamente ligado com ela – o afundamento de todos os partidos que se têm alternado no poder, desde há dezenas de anos. Apesar de uma matracagem e de uma dramatização sem precedentes sobre o risco da subida dos “populismos” na Europa e de um desmoronamento da União Europeia, a abstenção atingiu 50,95% no conjunto da Europa.

É verdade que ela diminuiu alguns pontos percentuais em relação às últimas eleições, devido a esta campanha.

Mas não pode ser negado que metade dos eleitores recusaram ir às urnas na passada semana, em toda a Europa. O que inquieta os mais lúcidos representantes do capital. É assim que o presidente do Patronato italiano (a Confindustria), Boccia, declarou: “Quero recordar que 50% dos Italianos não votou, o que não é um bom sinal. Sem dúvida, que eles pensam que é inútil, que de qualquer forma isso não mudará nada. Há um partido da abstenção que deve fazer reflectir toda a gente.”

Os dois grupos maioritários no Parlamento europeu – o Partido Popular Europeu (PPE) e a Aliança Progressista dos Socialistas e Democratas (S&D) – afundaram-se, perdendo respectivamente 38 e 36 lugares após as eleições. O PPE ficou com 179 eurodeputados e os Social-Democratas com 150 eurodeputados. Pela primeira vez na história do Parlamento europeu, estes dois grupos perdem a maioria absoluta de que dispunham.

Durante dezenas de anos, estes dois grupos cogeriram o Parlamento europeu. A sua maioria absoluta e a sua “grande coligação” prática impulsionaram, em cada país da Europa, a alternância entre “Esquerda” e “Direita”, para atacarem, em todo o lado, as conquistas sociais da classe operária.

O chamado processo de “afastamento” que se tem expresso nestes últimos tempos em toda a Europa, com um afundamento dos partidos que tomaram a cargo, à vez, a política de defesa dos interesses do capital, acaba de encontrar a sua expressão no Parlamento europeu e em cada país.

A perda da maioria absoluta de que dispunham em conjunto o PPE e os Social-Democratas vai acentuar o desmoronamento em curso da União Europeia. De imediato, começaram as primeiras “negociatas” entre os chefes de Estado e de Governo europeus para tentarem repartir entre si os postos-chave de direcção da Comissão europeia, onde dantes tudo passava por um simples acordo entre o PPE e os Social-Democratas.

E este desmoronamento assume efeitos brutais imediatos em toda uma série de países.

No Reino Unido, Theresa May foi levada a demitir-se do seu posto de Primeira-ministra na véspera da votação. O seu Partido, os Tories (Conservadores), com 9,1% dos votos, registou o pior resultado desde a sua fundação em 1832.

O Labour (Partido Trabalhista) não esteve muito melhor, com 14% dos votos. E, neste caso, a sanção é particularmente brutal.

Na Alemanha, os partidos da “Grande Coligação” de Angela Merkel sofreram um forte recuo. A CDU perdeu 6,6 pontos percentuais e para o SPD – que obteve apenas 15,8% dos votos – a queda é ainda mais forte (11,5 pontos).

Em França, prosseguindo o processo de sanção dos partidos que têm ocupado o poder desde o início da 5ª República, após o afundamento do PS em 2017 foi agora a vez de LR (Les Républicans) que, com 8% dos votos, obteve o pior resultado de sempre.

Na Áustria, logo a 27 de Maio, uma moção de censura votada pelo Parlamento derrubou o governo de Kurz (do Partido Popular, conservador).

Na Grécia, Tsipras – o responsável do Syriza, sancionado por ter traído as promessas que fez em 2015 – anunciou a realização de eleições legislativas antecipadas.

Poderíamos continuar esta lista…

A rejeição massiva da política da UE e da política de todos os governos da UE é anunciadora dos maiores abalos, dos quais uma primeira expressão foi o movimento dos Coletes amarelos, em França.

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(1) Publicamos a análise de Daniel Shapira sobre os resultados das eleições ao Parlamento Europeu, publicada no semanário Informations Ouvrières – Informações operárias – do Partido Operário Independente, de França, nº 555, de 29 de Maio de 2019.

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