EUA: “Shutdown” histórico

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O “shutdown” (paralisia parcial da Administração) está em vigor há mais de três semanas, tornando-se o mais longo que já houve nos EUA: na ausência de Orçamento adoptado, o Estado norte-americano não pode comprometer-se com outras despesas senão as consideradas essenciais na Administração Pública e que não tenham sido acordadas entre o Congresso e Trump, o Presidente.

Transcrevemos uma análise, da autoria de Devan Sohier, saída no semanário Informations ouvrières (Informações operárias) nº 536, de 16 de Janeiro, órgão de imprensa do Partido Operário Independente (POI) de França.

Em particular, 800 mil funcionários federais não estão a receber o seu salário: 420 mil de entre eles são considerados como essenciais, sendo obrigados a trabalhar sem salário (esse salário só será pago após haver acordo entre Trump e o Congresso), enquanto 380 mil estão em “desemprego técnico” e não receberão nada.

A questão dos salários

Quando as primeiras folhas salariais (a zero dólares) lhes chegaram – os salários nos EUA são pagos todas as semanas, quinzenalmente ou a cada mês – os funcionários atingidos começaram a recorrer à baixa por doença: é assim que os aeroportos de Houston e de Miami tiveram que fechar um dos terminais a 13 de Janeiro, por falta de pessoal.

A cadeia televisiva CNBC (9 de Janeiro de 2019) salienta que muitos funcionários tiveram que pedir empréstimos nesta situação, e assinala que 80% dos Norte-americanos não têm qualquer verba amealhada.

Com uma taxa de desemprego menor do que 5%, os EUA estão em situação de “pleno emprego”, mas sobre a base de uma precarização massiva, expressa através de uma enorme quantidade de biscates mal pagos.

O salário mínimo federal, de 7,25 dólares à hora (2,13 dólares para os empregos em que é prática corrente a gorjeta, os quais estão generalizados nos EUA), é insuficiente para viver.

Portanto, a questão dos salários coloca-se de uma forma central nos EUA, questão transportada para as últimas eleições pela campanha de Sanders e dos seus partidários. Mas é sobre o terreno da luta de classes que ela é colocada de forma mais nítida, com a multiplicação de greves pelo aumento dos salários: a vaga de greves de professores dos Estados da parte ocidental dos EUA no ano passado, a greve do pessoal dos hotéis Marriott,…

A greve dos professores de Los Angeles

E, a 14 de Janeiro, foram os professores de Los Angeles que entraram em greve. Após vinte meses de negociações com a Administração democrata da cidade de Los Angeles e após uma votação que o autorizou, por mais de 80% dos 34 mil professores que ele representa, o sindicato UTLA dos professores de Los Angeles decidiu convocar uma greve, nomeadamente pela diminuição do número de alunos por turma, o aumento de salário de 6,5% (retroactivo a um ano) e a contratação de pessoal não docente (a começar por enfermeiras escolares).

É, portanto, contra uma Administração democrata que esta greve tem lugar, quando os sindicatos, em particular os dos professores, estão tradicionalmente ligados ao Partido Democrata. O Presidente da Câmara de Los Angeles, Éric Garcetti, contava anunciar nestes dias a sua candidatura às Primárias democratas para a eleição presidencial de 2020; confrontado com esta greve, ele teve que adiar esse anúncio (jornal Los Angeles Times, 4 de Janeiro de 2019).

O sistema escolar de Los Angeles é o segundo mais importante dos EUA, a seguir ao de Nova Iorque. Os seus responsáveis são figuras eminentes do Partido Democrata. Os professores da Virgínia Ocidental tinham aberto uma brecha, há cerca de um ano, arrancando um aumento de 5% do seu salário, através da greve, apoiada por assembleias gerais do pessoal. Uma vitória dos professores de Los Angeles teria uma projecção nacional; de imediato, ela põe em causa as tentativas de fazer depender a satisfação das reivindicações de uma hipotética vitória do Partido Democrata na próxima eleição presidencial, que só terá lugar dentro de quase dois anos.

 

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