Coletes amarelos: “um movimento fracassado”?

 

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No dia 21 de Dezembro houve, em Portugal, manifestações de “coletes amarelos” marcadas para 16 cidades. Na Comunicação social foi unânime a conclusão de que esse apelo constituiu “um fracasso”. Terá sido apenas falta de organização e um erro de cálculo para o “pontapé-de-saída”? O futuro o dirá. De qualquer modo, ficou clara a rejeição pelos manifestantes, nomeadamente em Lisboa, da tentativa de aproveitamento das manifestações por parte de forças de extrema-direita.

Transcrevemos uma Declaração da 4ª Internacional, em que é tirado o balanço do movimento dos “coletes amarelos” em França e onde é dito:

A revolta dos coletes amarelos, primeiro sintoma de um movimento que amadurece em toda a Europa

A revolta dos coletes amarelos que surgiu em França, fora do controlo das Direcções tradicionais, dos partidos e dos sindicatos, e que em menos de um mês cobriu todo o país, é o primeiro sintoma de um movimento que amadurece nas profundezas da classe operária e das massas populares de todos os Estados europeus.

É o aparecimento, à luz do dia, da maioria da população empobrecida e progressivamente excluída dos seus direitos fundamentais pelas sucessivas políticas de contra-reformas ditadas, em toda a Europa, pelo capital financeiro e coordenadas pelas instâncias da União Europeia.

É a voz de todos os que, desde há anos, têm estado reduzidos ao silêncio, a voz dos assalariados mal pagos, dos trabalhadores precários, das mães solteiras, dos pequenos artesãos, dos jovens, dos reformados que vivem no limiar da pobreza.

É a voz das populações privadas dos serviços de urgência e de maternidade, pelo encerramento dos hospitais de proximidade, nas regiões privadas dos serviços públicos essenciais pelas “reorganizações” sucessivas dos Correios, da SNCF,… às quais se uniram os jovens dos liceus e do Ensino Superior.

Eles organizaram-se, espontaneamente, para bloquear as rotundas em todo o país, sem a autorização das Direcções supostas de os representar e que não pararam de acompanhar, durante décadas, as políticas de contra-reformas dos sucessivos governos, multiplicando as jornadas de acção sem amanhã.

Eles organizaram-se por si próprios, recusando os “porta-vozes” que de todos os lados lhes tentaram arranjar para os levar à mesa de um “grande pacto de concertação” com os “parceiros sociais” e os representantes da sociedade civil para os fazer abandonar o grito de guerra que concentra a rejeição de toda a política deste Governo: “Macron demissão!”.

A sua força: o apoio – apesar das provocações e das violências organizadas pelo Estado – da imensa maioria da população francesa.

“Protestamos à francesa, porque os protestos pacíficos conduzidos até agora não deram nenhum resultado”

Não há qualquer exagero em dizer, actualmente, que a revolta dos coletes amarelos – seja qual for o resultado imediato deste movimento – goza desde já da simpatia instintiva dos trabalhadores e dos povos de toda a Europa, como o testemunham os ferroviários alemães em greve, manifestando-se com coletes amarelos, ou os reformados espanhóis, ou ainda os agricultores polacos que bloquearam uma autoestrada em direcção a Varsóvia, vestidos com coletes amarelos e declarando: “Protestamos à francesa, porque os protestos pacíficos conduzidos até agora não deram nenhum resultado”.

É esta simpatia instintiva que faz entrar em pânico todos os chefes de Estado e de governo europeus.

Todos sabem que um laço forte – a rejeição da política ditada pelo capital financeiro – liga o voto a favor do Brexit, do dia 16 de Junho de 2016, à derrota de Renzi em Itália (duplamente sancionado aquando do referendo de 2016 e das legislativas de 2018), passando pela crise na Alemanha dos dois partidos CDU e SPD – tomando, quanto ao SPD, o carácter de um verdadeiro colapso – que compartilharam o poder desde a guerra, para assegurar a manutenção da ordem social estabelecida.

Eles calculam a devastação provocada pela política de austeridade adoptada por todos os governos europeus para fazerem pagar aos trabalhadores e aos povos os milhões de biliões de dólares que desapareceram durante a crise financeira de 2008.

Eles medem a profundidade do caos para o qual as velhas nações europeias são inexoravelmente conduzidas pela política de destruição de todas as conquistas políticas e sociais arrancadas na Europa a seguir à Segunda Guerra.

Eles sabem o preço pago pelo povo grego com o “pacto de estabilidade e de crescimento”, eles temem que a vez da França e da Itália se aproxime.

Eles compreendem que a revolta dos coletes amarelos em França não é senão o primeiro abanão de um tremor de terra que se prepara para abalar toda a Europa.

Não, senhores pregadores de lições de moral, os trabalhadores e os povos rejeitam com desprezo as acusações de “nacionalismo” e de “populismo”

É para tentar afastar essa ameaça que a campanha de calúnias, acusando os trabalhadores e os povos de “populismo” e de “xenofobia”, volta com força.

Tudo tem sido feito em França – por todos aqueles com que este país conta de politólogos, sociólogos e, por vezes, de dirigentes de organizações operárias – para desacreditar e organizar a suspeição em relação ao movimento dos coletes amarelos, acusado de conluio com a extrema-direita. Em vão.

Não, senhores pregadores de lições de moral, os trabalhadores e os povos rejeitam com desprezo as acusações de “nacionalismo”, de “populismo” e de “xenofobia”.

Eles recusam, muito simplesmente, verem-se privados das prerrogativas que são teoricamente as suas em democracia. Eles recusam renunciar ao seu direito de exercer a sua soberania para que ela seja transferida para um “soberano republicano” ou para instituições supranacionais incontroláveis, ao serviço exclusivo dos sectores dominantes do capital financeiro.

É o que eles têm dito durante mais de um mês na rua, em toda a França.

Eles abriram uma brecha

A revolta dos coletes amarelos abre um novo período na Europa. Eles abriram uma brecha. Eles criaram, ao ocuparem as rotundas, uma forma de organização que lhes permitiu escapar ao ferrolho imposto pelas Direcções burocráticas das organizações de classe. Eles encontraram uma forma de organização que lhes permitiu conservar o controlo do seu movimento.

Dando ênfase às assembleias democráticas, eles começaram a dar um princípio de resposta à questão que atormenta o movimento operário, a quem tem sido proibido, há meses e meses, juntar as suas forças para o choque e afrontar o Governo representante dos interesses do capital financeiro. Pode dizer-se, sem medo de nos enganarmos, que a revolta dos coletes amarelos deixa já a sua marca em todos os desenvolvimentos da situação europeia.

Preocupação em Bruxelas e em Berlim

Os coletes amarelos sabotaram, abalando o poder de Macron, a sua pretensão de se apresentar como o dirigente capaz de preencher o vazio deixado por Merkel, contestada no seu país, e de conduzir uma recuperação das instituições da União Europeia em plena crise.

Eles puseram em causa, além disso, o cenário político previsto para as eleições do “Parlamento” Europeu – que deveria articular-se em torno da falsa oposição de dois campos (bandos?) nas eleições para o “Parlamento” Europeu: o campo dos “progressistas”, que deveria reunir-se atrás de Macron, contra o campo dos “populistas eurofóbicos”. Este campo dos progressistas perdeu o seu campeão…

A quatro meses da eleição para o “Parlamento” Europeu, pode-se predizer que estas eleições serão marcadas pela abertura de uma nova etapa na decomposição de todos os velhos partidos ligados à salvação da ordem vigente, que se manifestará – seja qual for a sua forma em cada país – por uma poderosa rejeição, comum a todos os povos, da política do capital financeiro e das instituições da União Europeia ao seu serviço.

Em Bruxelas e em Berlim, inquietam-se pelas “concessões” feitas por Macron – sob a pressão da rua – e duvida-se, publicamente, da capacidade do Governo francês de prosseguir com as “reformas” que iniciara.

Teme-se, no momento em que o BCE e o FMI anunciam a ameaça de uma réplica da crise financeira europeia dos anos 2010-2011, que o conjunto do “Pacto de estabilidade e de crescimento” seja posto em causa, em toda a Europa.

O pânico atinge, uns atrás dos outros, todos os chefes de Estado e de governo.

Eles pressentem que a revolta do que a imprensa chamou com desprezo “a França periférica” também esteja a ser preparada em cada um dos seus países e constitua o primeiro abalo de um movimento mais vasto dirigido contra as próprias bases do sistema fundado sobre a propriedade privada dos meios de produção.

É difícil, de facto, imaginar que os eleitores das circunscrições operárias do Labour (Partido Trabalhista do Reino Unido) que votaram massivamente no Brexit ficarão satisfeitos com o acordo (ou o não-acordo) – qualquer que ele seja – assinado pelo Governo britânico com a União Europeia.

É difícil imaginar que eles não prosseguirão o combate para fazer revogar as leis anti-sindicais de Thatcher, para fazer revogar o arsenal jurídico que desregula o trabalho, para renacionalizar os caminhos-de-ferro e para restabelecer o Sistema de Saúde posto em perigo pelas políticas de austeridade.

Quem pode acreditar que, na Alemanha, a rejeição pelas largas massas da Grande Coligação e dos seus partidos, a CDU e o SPD, que se exprimiu nas últimas eleições regionais, não vai procurar prolongar-se no terreno de uma acção directa para se libertar do jugo do “Pacto de Estabilidade” e impor, pela força, o abandono da Agenda e da “regra de ouro” (que condena todos os serviços públicos, a começar pelo sistema hospitalar)? Quem pode acreditar que este movimento não fixará como objectivo restabelecer o sistema dos contractos colectivos de trabalho?

Quem pode acreditar que, em Itália, os trabalhadores – que correram com Renzi do poder para acabar com o conjunto do plano de contra-reformas imposto pelo capital financeiro – vão suportar, por muito mais tempo, as incoerências dos aventureiros Salvini / Di Maio, aos quais Renzi abriu as portas do poder?

Quem pode acreditar que, depois da queda de Rajoy, substituído por um governo do PSOE, o anúncio de um aumento do salário mínimo possa bastar para responder a todas as exigências sociais e democráticas esmagadas, durante anos e anos, pelo Regime monárquico?

No tôpo, governos em crise

No tôpo, governos em crise. Dirigentes que perderam o essencial da sua base social nos respectivos países. Quem irá cair primeiro? Theresa May, Angela Merkel ou Emmanuel Macron? É difícil responder a esta questão. Dirigentes que perderam todo o controlo sobre os acontecimentos, todo o controlo sobre a vida de sectores-chave da economia nacional, submetidos aos golpes dos monopólios imperialistas que desprezam as fronteiras e as regulamentações nacionais.

Uma situação que confirma que, no quadro do sistema da propriedade privada dos meios de produção, a Europa é inexoravelmente posta de fora de sectores determinantes do mercado mundial pela guerra comercial, em todos os azimutes, declarada por Trump e o imperialismo norte-americano.

As economias nacionais do continente europeu são desmanteladas pela reorganização permanente das “cadeias de valores”, feita pelos monopólios imperialistas, para concentrarem as suas produções nas zonas de baixo salário.

A Europa, entalada entre os interesses contraditórios das diferentes burguesias nacionais, inexoravelmente condenadas à decadência pelo desencadear da “guerra comercial”, conduzida por Trump, é incapaz de se dotar de uma política comum (fiscal, orçamental e financeira), que ela de forma sistemática, para pretensamente fazer face aos golpes do imperialismo norte-americano.

A sua única política comum reduz-se à política coordenada de destruição, em toda a Europa, de todas as conquistas sociais arrancadas pela classe operária depois da Segunda Guerra, para assegurar as condições de sobre-exploração exigidas pelo capital financeiro em crise.

Em baixo, a aspiração incontrolável das mais largas massas a sair do caos

Em baixo, uma força imensa procura abrir caminho. Uma força que tem consciência de se encontrar, em cada país, face a um único e mesmo plano ditado pelo capital financeiro e implementado pelos seus delegados que estão no poder. Uma força que, como acaba de o demonstrar, considera que é seu dever acabar com o mecanismo de decadência que arrasta cada país para um processo de desmoronamento e procura libertar-se dos entraves com os quais as Direcções dos velhos partidos operários e das organizações de classe proibiram (impediram?), desde há muitos anos, os trabalhadores e as massas populares de se levantarem contra os respectivos governos. É a aspiração incontornável das largas massas a saírem do caos para o qual o sistema da propriedade privada dos meios de produção, em plena crise, as empurra. A aspiração a recuperar a sua soberania para, à escala de toda a Europa, arrancar o poder das mãos do capital financeiro a fim de reorganizar em todo o continente os transportes, a energia, a indústria e as infraestruturas ao serviço de todos os trabalhadores e de todos os povos, no quadro dos Estados Unidos Socialistas da Europa.

*   *  *

Em toda a Europa, a rejeição da política ditada pelo capital financeiro atingiu os  velhos partidos que se reclamam da defesa dos interesses operários e da democracia e que se subordinaram aos respectivos governos e ao capital financeiro, abrindo uma crise no seu seio e conduzindo alguns à beira da implosão.

Em todos os países do continente europeu, reagrupamentos de militantes, saídos do encontro de elementos vindos destes partidos e da jovem geração de militantes, procuram organizar-se para tentar ajudar a classe operária a abrir, pela luta de classes, a via de uma saída política conforme à defesa dos seus interesses de classe e à reconquista da democracia.

Em vésperas de acontecimentos decisivos, o Secretariado Internacional da 4ª Internacional convida todos os militantes e os trabalhadores empenhados nesta procura a debater, com os seus militantes, os meios a pôr em prática para ajudar a fazer convergir o combate de todos os povos da Europa.

O Secretariado Internacional da 4ª Internacional compromete-se a fazer tudo o que estiver ao seu alcance para ajudar a esta mudança, ultrapassando o quadro estreito das fronteiras nacionais e a enriquecendo-se com a diversidade das experiências nacionais de cada um. Em relação com os desenvolvimentos iminentes da situação, compromete-se a trabalhar para a organização de reuniões e encontros europeus, necessários ao estreitar dos laços entre todos os que procuram contribuir para a preparação dos gigantescos combates de classe que se anunciam.

O Secretariado Internacional da 4ª Internacional

19 de Dezembro de 2018

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