Em França: Cólera, rejeição e fractura

ColetesAmarelos3

A cólera e a indignação aumentam todos os dias, face à política de Macron. Esta rejeição exprime-se sob as mais diversas formas (1).

No sábado, 17 Novembro, centenas de milhares estiveram nas ruas. Centenas de milhares exprimiram-se, de maneira totalmente imprevista, perante o bloqueio político, à ausência de saída, à inércia de uns e de outros. A subida dos preços dos combustíveis foi a gota que encheu o copo dos mais vulneráveis – os trabalhadores, os jovens, os aposentados que sofrem em cheio a CSG (2) e a desindexação das pensões à inflação. Uma exigência se levanta na população trabalhadora: parar com esta política, a soldo do capital financeiro, seguida por Macron há ano e meio, na continuidade dos governos precedentes.

Neste fim-de-semana, o Primeiro-ministro Édouard Philippe, apesar desta mobilização, reafirmou: “Não iremos mudar de rumo”. E anunciou um plano de ajudas aos patrões de 500 milhões de euros, mais uma provocação.

Nas barragens, os cartazes “Macron, demissão!” eram inúmeros. Numa dessas barragens, uma trabalhadora dizia: “No dia de receber o salário, já estou a descoberto”; noutra, um jovem declarou: “Já não consigo pagar a renda de casa”; e um aposentado constatava: “A cada mês que passa, a minha situação degrada-se. Qualquer dia nem sequer teremos dinheiro para comer!”

Eles exprimem a indignação sentida por milhões de trabalhadores, sejam “coletes amarelos” ou não.

Trata-se de uma vaga de fundo que sobe e pode ter desenvolvimentos, que ninguém sabe a forma que tomarão. Porque, após o dia 17, as barragens nas estradas mantêm-se e outras iniciativas estão anunciadas para 24 de Novembro. E o Governo anuncia que vai também atacar a Segurança Social, o Ensino público e todos os serviços públicos, as Comunas,… O que faz aumentar a cólera que sobe de camadas cada vez mais largas da sociedade, bem como a revolta dos presidentes de Câmara e dos outros eleitos.

Enfraquecido, isolado, o Governo recorre à ameaça e à repressão. O ministro do Interior declarou: “Nenhum ponto de bloqueio total será tolerado. As forças da ordem intervirão para desbloquear as barragens.” Eis a política de Macron: “Não mudarei de trajectória.”

A 10 de Novembro, o Apelo (3) adoptado pela grande assembleia organizada pelo Comité Nacional de Resistência e Reconquista (CNRR) lembra o conteúdo da transformação do país que Macron pretende fazer: “Todas as bases sociais da civilização arrancadas pela classe operária, todas as conquistas sociais – que neste país se concentram, em particular, nas conquistas de 1936 e 1945 – deveriam ser integralmente liquidadas (…). A imensa maioria dos trabalhadores, a imensa maioria da população não quer o caos. Quer preservar as bases da civilização, quer preservar as conquistas sociais e as conquistas democráticas que são inseparáveis.”

A sua cólera é legítima, os trabalhadores que resistem à política de Macron têm razão. É verdade que eles não estão na mesma situação de Carlos Ghosn (4), a quem parece não bastarem os seus 15 milhões de euros de salário.

É aí que reside a fractura com os trabalhadores e o povo.

Na nova situação em que entrámos, o apelo do CNRR a nos organizarmos, “a multiplicar – nas próximas semanas – as reuniões nos departamentos, nas localidades, nos bairros e nos locais de trabalho, para ajudar a reunir todas as forças que resistem” é, mais do que nunca, actual.

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(1) Transcrevemos o Editorial de Informations ouvrières – Informações operárias, o semanário do Partido Operário Independente (POI), de França – edição nº 530, de 21 de Novembro de 2018, da autoria de Jean-Charles Marquiset, membro do Secretariado nacional do POI.

(2) A Contribuição Social Geral (CSG) é uma contribuição obrigatória – proporcional – criada em 1991, que contribui para o financiamento da Segurança Social e, desde 2018, também para o seguro de desemprego, em substituição das comparticipações deduzidas dos salários. A sua taxa e a sua base de aplicação aumentaram constantemente desde a sua criação.

(3) Ver o Apelo integral [AQUI].

(4) Carlos Ghosn é um empresário franco-brasileiro de origem libanesa, director-geral e presidente do Grupo Renault. E também presidente e director executivo da empresa japonesa Nissan, presidente de Mitsubishi Motors e presidente da fabricante automobilística russa AvtoVAZ.

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