O capital financeiro e o seu instrumento, a União Europeia, têm a responsabilidade pelo caos em que a Europa se está a afundar

navio-afundando

Declaração do Secretariado Internacional da 4ª Internacional sobre a Europa

É preciso rendermo-nos à evidência: está tudo a postos para dar início a um novo episódio da “crise da dívida soberana” que sangrou, literalmente, a Grécia e o seu povo(1).

Actualmente é a Itália que deve, supostamente, desempenhar o papel assumido pela Grécia entre 2010 e 2015.

A encenação está montada; cada um desempenha nela o seu papel: os mercados, as agências de notação, a Comissão Europeia de Bruxelas, o FMI e os seus peritos,…

A Itália é acusada, ao recusar submeter o seu Orçamento às regras do “Pacto de Estabilidade”, de ameaçar afundar toda a Zona Euro.

Todo o sistema financeiro europeu, estreitamente interligado, estaria ameaçado pelo incumprimento de um único dos seus elos – a Itália.

E seria o povo italiano que, ao rejeitar o Orçamento que a União Europeia lhe quer impor, se tornaria cúmplice das posições reaccionárias de Salvini e de Di Maio… colocados no poder como fruto da rejeição da política de austeridade ditada par Bruxelas e implementada por Renzi.

Seria o povo italiano o responsável pela tempestade financeira que todos os especialistas da economia vaticinam para a Europa. Seria ele que deveria pagar por isso.

Para todos esses fãs da União Europeia só haveria uma saída: “A submissão do povo italiano”. Estão a troçar de quem?

A União Europeia acusa e ameaça o povo italiano

Os grandes bancos europeus, tal como os grandes bancos dos EUA, que se empanturraram com os milhares de milhões de subsídios públicos, ainda não digeriram – passados 10 anos – as consequências da gigantesca crise financeira de 2007-2008.

Os seus balanços continuam afundados devido às arriscadas operações especulativas em que eles se meteram.

O capital financeiro, asfixiado nos limites demasiado estreitos do mercado mundial – aproveitando-se da desregulamentação dos mercados financeiros, iniciada a partir de 1971 pelo imperialismo norte-americano – aperfeiçoou, para além do imaginável,  as técnicas financeiras que lhe permitem saciar, através da especulação, a sua sede inesgotável de lucros, que levaram à sucessão de falências estrondosas de 2008.

Todos reconhecem que a crise de 2011-2012 – de que o povo grego foi uma das principais vítimas – foi o ressurgimento na Europa da crise que se desenvolveu em 2007-2008…

E, como que por acaso, é no momento em que os peritos se inquietam, de novo, com a queda do NASDAQ (acontecida neste mês de Outubro de 2018) – e o efeito de arrastamento que ela ameaçaria provocar sobre as Bolsas europeias – que as agências de notação descobrem, em uníssono, a importância da dívida italiana.

E após a Itália, toda esta boa gente nos anuncia, desde já, que está em perspectiva o contágio a Portugal, à Espanha e à França…

A encenação torna-se mais clara

Dizem estes especialistas que é necessário salvar a Europa,  da desconfiança crescente que os seus povos têm em relação à União Europeia, às suas instituições e aos seus tratados.

Para estes senhores trata-se, na realidade, de tudo fazer para tentar salvar, a qualquer preço, os mecanismos que garantem – por meio de uma brutal política de austeridade, aplicada a toda a Europa – o reembolso das montanhas de dívidas contraídas aos bancos e aos Fundos financeiros, de que a União Europeia é o fiel instrumento.

É aqui que entram em cena as eleições ao pretenso Parlamento europeu.

Nestas eleições, dois campos estariam, supostamente, em confronto: o campo dos “progressistas” contra o dos “nacionais-populistas”. Como se fosse necessário, a todo o custo, centrar a atenção na falsa oposição entre estes dois «campos» para camuflar o elemento essencial da situação: a enorme rejeição, por parte de todos os povos, da política de austeridade musculada da União Europeia; uma rejeição que provoca uma crise sem precedentes que atinge as próprias cúpulas do poder em França, na Alemanha, em Portugal, em Espanha, no Reino Unido –  mesmo se este último país não é membro da Zona Euro e decidiu sair da União Europeia.

De um lado, Macron, Merkel, Juncker, Draghi,… que já fizeram parte, num ou noutro momento, das estruturas dirigentes dos bancos Goldman-Sachs, Rothschild, J.P. Morgan…

E, do outro lado, haveria Salvini, Orban,… que os “progressistas” contribuíram para que fossem eleitos, em reacção à política de destruição que eles executam à frente da União Europeia.

Embora isso não agrade a estes senhores “progressistas”, a resistência dos povos à sua política de destruição das conquistas sociais e políticas da classe operária e das camadas populares não pode ser  confundida com as figuras de Salvini, Orban… Trata-se de uma vergonhosa amálgama. Não é a resistência dos povos que traz desordem e caos.

A Europa sob os golpes da ”guerra comercial” desencadeada por Trump

É necessário chamar as coisas pelos seus nomes. No quadro do sistema da propriedade privada dos meios de produção, a Europa está inexoravelmente a ser expulsa dos sectores determinantes do mercado mundial, através da guerra comercial, em todos os azimutes, declarada por Trump e o imperialismo norte-americano.

As economias nacionais do continente europeu são desconjuntadas pela reorganização permanente – das “cadeias de valor” – efectuada pelos monopólios imperialistas, através da concentração das suas produções nas zonas de baixos salários.

A Europa, estirada entre os interesses contraditórios das diferentes burguesias nacionais – inexoravelmente condenadas à decadência pelo ímpeto da “guerra comercial – é incapaz de se dotar da política comum (fiscal, orçamental e financeira) que ela invoca, de forma reiterada, pretensamente para fazer frente aos ataques violentos do imperialismo norte-americano.

A sua única política comum reduz-se à política coordenada de destruição, em toda a Europa, de todas as conquistas sociais arrancadas pela classe operária, depois da Segunda Guerra mundial, para assegurar as condições de sobre-exploração exigidas pelo capital financeiro em crise.

Nunca foi tão evidente a semelhança dos planos que atingem todos os povos da Europa. A avidez do capital financeiro, em plena crise de decomposição, exige a destruição imediata de toda a regulamentação do trabalho, a destruição dos sistemas de aposentação e de Segurança social, a aceleração da privatização de todos os sistemas de saúde, de todos os transportes públicos, dos serviços públicos de electricidade,… Por todo o lado, a individualização está a substituir os direitos colectivos baseados na solidariedade. Toda a sedimentação dos direitos arrancados pela luta de classes – e que, nas suas grandes linhas, talhou a fisionomia do continente europeu – está ameaçada de destruição.

Não são os povos, nem os migrantes que ameaçam a Europa de desmembramento, são a União Europeia e os governos!

Por muito que isso desagrade aos professores de moral, que se autoproclamaram de “progressistas”, não é a resistência da classe operária e dos povos que ameaça mergulhar o velho continente no caos, mas sim o capital financeiro e os governos submetidos aos seus ditames.

Por muito que isso desagrade aos “progressistas” – que se desmascararam fazendo bloco com os “nacionais-populistas”, a 28 e 29 de Junho último, para restringir brutalmente o acolhimento dos refugiados – não é o povo italiano, nem os povos do Leste da Europa, nem os migrantes, que ameaçam a Europa de desmembramento. Os povos Polaco, Húngaro, Checo… sabem quem foram os que beneficiaram com os subsídios da União europeia desde 2004. Eles sabem que quem com eles beneficiou foram os bancos alemães e austríacos que organizaram a subcontratação dos grandes grupos monopolistas implantados no Ocidente, com vista à sobre-exploração da mão-de-obra local atirada para o desemprego, que o desmantelamento da propriedade social provocou.

Não são os povos que viram as costas à Europa. Quem vira as costas à Europa é a União Europeia e os governos que a ela se submetem, que se assanham em destruir e desmembrar as conquistas políticas e sociais da classe operária, na base das quais os povos aspiram a unir-se numa Europa dos trabalhadores e dos povos.

A saída não reside nem no acompanhamento “humanista” da destruição de todas as conquistas e políticas dos povos da Europa, nem na política de deslocação forçada de milhões de migrantes pelo imperialismo, nem no impasse do regresso às suas fronteiras.

A aspiração dos povos a retomar a sua soberania não se poderá realizar senão no combate da classe operária para arrancar, à escala de toda a Europa, o poder das mãos do capital financeiro, a fim de reorganizar – à escala de todo o continente europeu – os transportes, a energia, a indústria e as infraestruturas ao serviço de todos os povos e de todos os proletários, qualquer que seja a sua origem.

Em toda a Europa, constituem-se agrupamentos de militantes

Em toda a Europa, a rejeição da política ditada pelo capital financeiro atingiu, simultaneamente, a par dos poderes instalados, os velhos partidos que se reclamavam da defesa dos interesses operários e da democracia, e que se subordinaram aos respectivos governos e ao capital financeiro, abrindo uma crise no seu seio e conduzindo alguns à beira da implosão.

Em todos os países do continente, agrupamentos de militantes – saídos da junção de elementos vindos destes partidos e da jovem geração de militantes – procuram organizar-se, para tentar ajudar a classe operária a abrir, através da luta de classes, a via para uma saída política conforme à defesa dos seus interesses de classe e à reconquista da democracia.

Eles empenham-se, cada um sob formas próprias, numa reapreciação de toda a experiência histórica do combate do movimento operário para pôr termo ao sistema de exploração capitalista e instaurar o socialismo.

Um grande número destes agrupamentos, cada um à sua maneira, depara-se com as conclusões que estiveram na origem do combate revolucionário da classe operária.

Neste período de amadurecimento político acelerado, a 4ª Internacional inscreve-se no debate que surge e que está intimamente ligado ao combate prático para ajudar a classe operária a juntar-se, em cada um dos países do continente, e para ajudar a fazer convergir o combate de todos os povos da Europa, empenhados na batalha, para arrancar o poder das mãos do capital financeiro, única via para tirar a Europa do desmembramento e da anarquia capitalista.

A 4ª Internacional está mais do que nunca apegada ao ensinamento de Leão Trotsky, que declarava em 1940:

“A unificação económica é para a Europa uma questão de vida ou de morte. O cumprimento desta tarefa pertence, todavia, não aos governos actuais, mas às massas populares, conduzidas pelo proletariado. A Europa deverá tornar-se nos Estados Unidos Socialistas, se não se quiser converter no túmulo da velha civilização.”

Mas a 4ª Internacional evita qualquer tentação para impor em bloco as suas conclusões políticas.

Para a 4ª Internacional, é no plano da prática organizada que os acontecimentos serão verificados; não é através de palavras, mas através da vida que as discussões e divergências serão resolvidas. É absolutamente inevitável que se desenvolva a maior diversidade de opiniões políticas, porque a marcha para a revolução mundial, no seio da qual se integram os desenvolvimentos europeus, abarcando centenas de milhões de homens, através de todos os continentes, trará à superfície, por toda a parte, em todos os países, em todas as organizações, as resistências produto da decomposição do sistema  imperialista, e os elementos avançados em busca de soluções progressistas.

A 4ª Internacional está confiante. Ela tem consciência que tudo se irá emaranhar e que a triagem se irá operar.

É com este espírito que 4ª Internacional se propõe participar no debate que se desenvolve à escala de todo o continente europeu.

O Secretariado Internacional da 4ª Internacional

7 de Novembro 2018

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(1) Desde 2008, a Grécia perdeu mais de um milhão de habitantes. E são sobretudo jovens que deixaram o país e, prioritariamente, os mais qualificados de entre eles. Em dez milhões de habitantes, a Grécia conta com cerca de 500 mil jovens, dos 20 aos 30 anos, a menos do que em 2008. A cura de austeridade fez perder cerca de um emprego em cada cinco, o desemprego mantendo-se ainda nos 20% este ano, apesar do êxodo dos jovens. As despesas públicas baixaram 30% e constatamos as suas consequências dramáticas com o incêndio em Mati, não muito longe de Atenas, que fez 97 mortos. O salário real dos Gregos baixou mais de 15 % (em média) e os rendimentos dos reformados foram reduzidos para metade.

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