Depois das eleições no Brasil: Organizar a Resistência!

Fernando Haddad realiza uma caminhada pelo bairro de Heliópolis (SP)

Avaliação preliminar apresentada às companheiras e aos companheiros do DAP (1), que ainda deverá integrar a discussão nas instâncias do Partido dos Trabalhadores (PT). Alguns elementos para o balanço da segunda volta eleitoral de 2018.

Com os votos de 32% do total dos eleitores, o candidato do PT, Haddad, perdeu estas eleições para Bolsonaro, candidato da extrema-direita, apoiado pela classe dominante contra o PT na 2ª volta, com 39% dos eleitores. Cerca de 29% do eleitorado absteve-se, ou votou branco ou nulo.

O primeiro cumprimento que o vencedor recebeu foi de Donald Trump, expressão da expectativa de Washington de aprofundar a ofensiva em curso contra a soberania e os direitos dos povos do continente americano.

De facto, este resultado, em conjunto com a conquista pela extrema-direita dos governos estaduais de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, num primeiro momento, põe os sectores populares e democráticos na defensiva. Já ontem à noite, incidentes levaram intranquilidade às famílias trabalhadoras e oprimidas.

Após o discurso mistificador e contra “comunistas e socialistas” do seu líder, o economista Paulo Guedes (2), anunciou a “eliminação dos encargos laborais sobre a folha de pagamentos”, enquanto os seus pares banqueiros elogiaram o “funcionamento das instituições” pedindo “urgência nas reformas” (Banco Bradesco), especialmente, como sabemos, a da Previdência (Segurança Social).

É hora de organizar a resistência em defesa dos direitos, de reflectir sobre os erros e acertos na luta e, assim, preparar a contra-ofensiva.

Haddad tinha razão, na noite da 2ª volta, em exortar à “coragem” contra o medo, “estamos aqui juntos”. Mas, face ao desastre, não é razoável acenar com “eleições daqui a quatro anos”, uma eternidade que o povo não merece. Nem é inteligente insistir em “garantir as instituições” – podres, esta é a verdade! – as quais deverão ser reformadas de fio a pavio.

Afinal, um elemento da derrota eleitoral sofrida foi a inversão de papéis pelo farsante, que se fez passar por “anti-sistema” – ele que emerge, directamente do esgoto do sistema que a Constituição de 1988, sempre emendada para pior, manteve: os militares impunes, o aparelho judicial (Judiciário) cúmplice, a representação política corrupta e a iníqua desigualdade social.

Foi das instituições desta Constituição – que perseguem o PT há mais de uma década – que saiu o golpe do impeachment (3). Foram elas que puseram Lula na cadeia, para impedi-lo de vencer estas eleições. Cúmplices da manipulação eleitoral fraudulenta desde a 1ª volta, as instituições assistiram à coacção ilegal dos trabalhadores nas empresas, à utilização dos tribunais e da polícia contra nós, bem como à acção também ilegal de certas Igrejas. Essas instituições deixaram totalmente impune o crime eleitoral da Caixa 2 (a caixa preta da campanha eleitoral de Bolsonaro, que financiou a indústria das notícias falsas através do Whatsapp).

Isto é ou não verdade?

Não temos muito que esperar deste sistema, como ele é.

É hora de organizar a luta contra Temer-Bolsonaro. Já perdemos muito tempo a correr atrás de certas figuras para uma “frente democrática” que não existe. Com esse fim, até se tirou precipitadamente a questão da Constituinte do programa na 2ª volta, sem ganhar nada com isso.

A única frente que pode e deve existir é a frente em defesa dos direitos sociais e laborais e pela democracia, para abrir caminho para as principais reformas do nosso programa. Não há real democracia sem direitos, nem direitos inteiros sem democracia!

A situação é difícil, mas não é sem saída

No dia seguinte às eleições, o Estadão (4) – que, de facto, apoiou Bolsonaro contra o PT – reconhecia, em editorial, que fora “um salto no escuro”, revelando a insegurança dos poderosos perante a eleição de “um obscuro

Parlamentar, de discurso raivoso e vazio, que apelou aos sentimentos primários”.

É um facto que o PT foi o único dos grandes partidos que sobreviveu ao desmoronamento do sistema partidário, e tem condições para liderar os movimentos sindicais, democráticos, populares e da juventude. O PT pode e deve combater todas e cada uma das medidas do programa reaccionário, travando o governo Bolsonaro.

Mas também é um facto que o PT perdeu 7 milhões de votos, em comparação com a 2ª volta de 2014. Isto é ainda uma consequência de frustrações da base popular, em 13 anos de governo com muita conciliação, apesar do legado das conquistas desse período, frustrações a que se juntou a perseguição judicial e mediática.

É preciso, pois, ir mais longe no balanço iniciado no 6º Congresso do PT no ano passado, para religar o partido com a sua base e todos os sectores populares, depois de sairmos do fundo do poço que foram as eleições municipais de 2016, nas quais ficámos reduzidos a 40% da representação anterior.

Agora, apesar disso, o PT manteve a maior bancada na Câmara de Deputados, e vários governos estaduais no Nordeste, uma base de massas e uma trincheira segura para, a partir da resistência, organizar a contra-ofensiva popular. Pois mesmo eleitores de Bolsonaro se levantarão quando virem a realidade das suas medidas, e se encontrarão juntos connosco na luta.

À condição de não nos amarrarmos às instituições podres.

Campanha Lula Livre!

Neste sentido, a primeira grande consequência prática deste balanço é retomar e colocar na rua uma grande campanha por Lula Livre.

Não pode haver nenhuma conciliação com uma situação que não tem nada de normal e cuja maior evidência, aos olhos do povo, é que o maior líder popular do país, Lula, se encontra injustamente preso.

Chave da situação – a luta por Lula Livre – é, também, a melhor maneira de reverter o anti-petismo, em parte ancorado na campanha “anticorrupção” exacerbada pela classe dominante.

É uma batalha, no fundo, para ajudar o PT a ter, efectivamente, a capacidade de abrir um futuro de esperança para a nação.

São estes pontos que submeto às discussões que o DAP e o seu Comité Nacional organizam após a segunda volta, de modo a ajudar a preparar o partido para a nova fase de dura luta de classes que se abre.

Não subestimar o inimigo, não cair nas provocações que ele multiplica, mesmo antes de assumir o Governo, não se deixar enrolar em protestos inconsequentes, mas sim concentrar a energia para se defender em lutas decisivas.

Não se deixar electrizar pelos boatos, mas cuidar da nossa própria protecção.

E, sobretudo, não baixar as bandeiras e utilizar toda a força na nossa organização e a organização do povo trabalhador para a resistência!

29 de Outubro de 2018

Markus Sokol,

membro da Comissão Executiva Nacional do PT

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(1) Diálogo e Acção Petista (DAP): agrupamento político do Partido dos Trabalhadores, constituído por iniciativa entre outros de “O Trabalho”, Secção brasileira da 4ª Internacional.

(2) Fanático religioso seguidor de Bolsonaro.

(3) Destituição de Dilma Rousseff da Presidência da República.

(4) Principal jornal da oligarquia brasileira.

 

Alguns números sobre as eleições no Brasil

Colégio eleitoral: 147,3 milhões de eleitorado potencial.

                          Segunda volta, 28 de Outubro

Bolsonaro: 57,8 milhões de votos, ou seja 39,2% do eleitorado;

Haddad: 47 milhões de votos, ou seja 31,9% do eleitorado;

Votos nulos e brancos: 13,5 milhões, ou seja 9,6% do eleitorado;

Abstenções: 28,4 milhões, ou seja 19,3% do eleitorado.

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