EUA a dois meses das eleições de meio de mandato: Sob aparente normalidade, crise atinge Democratas e Republicanos

Ocasio_Cortez

A candidata latina Ocasio Cortez, do movimento de Sanders, em campanha eleitoral aquando das Primárias democratas de Nova Iorque.

Há quem alimente grandes expectativas de que estas eleições nos EUA, respeitantes a uma parte dos eleitos para o Senado e para a Câmara dos Deputados (ou Representantes), possam criar condições políticas que levem à destituição de Trump, pois o Congresso (1) pode mudar de composição. Afinal, qual é a situação real no principal país imperialista, quase dois anos após a eleição de Trump? Transcrevemos a análise de Devan Sohier, publicada num artigo de Informations ouvrières – Informações operárias, o semanário do Partido Operário Independente, de França – edição nº 520, de 13 de Setembro de 2018.

As eleições que ocorrem no meio do mandato presidencial nos EUA são, por regra, a oportunidade para o partido que não detém a Presidência reforçar a sua representação parlamentar e, muitas vezes, conquistar a maioria na Câmara dos Deputados ou no Senado. Parece quase certo que estas eleições de Novembro de 2018 irão decorrer segundo este esquema. O Senado, de que um terço será renovado, continuará Republicano, pois a grande maioria dos lugares em jogo são detidos pelos Democratas. Pelo contrário, a maioria da Câmara dos Deputados passará a ser dos Democratas.

Olhando para a situação de forma superficial, poderíamos esperar uma alternância “habitual”. Mas as causas da derrota de Hillary Clinton nas eleições presidenciais (as mesmas que levaram à designação de Trump como candidato republicano) permanecem. A crise política atinge tanto os Democratas como os Republicanos, e aprofunda-se.

Em relação aos Democratas, continua a ser marcante o facto de Bernie Sanders quase ter derrotado Hillary nas primárias partidárias. Assim, num distrito de Boston (Mas­sachusetts), o candidato democrata Michael Capuano, que já exerceu dez mandatos, foi derrotado nas Primárias por uma candidata inesperada, Ayanna Pressley, jovem Democrata negra. Esta candidata será seguramente eleita para a Câmara: este distrito de Boston é tão Democrata que os Republicanos desde há muitos anos que nem sequer apresentam candidatos. A sua população é maioritariamente negra, num Estado que nunca elegeu nenhum deputado negro para a Câmara. A participação média nas Primárias democratas tem sido à volta de 60 mil pessoas, agora foram 102 mil os votantes e 59% votaram nela. Pressley não está ligada a Sanders; o seu programa não era muito diferente do de Capuano, reivindicando-se ambos de uma visão convergente da realidade. Mas a Administração de Obama não resolveu a questão dos Negros, nem mesmo no seio do Partido Democrata.

A indignação do eleitorado negro

O New York Times de 5 de Setembro diz o seguinte sobre Pressley, após ter analisado o movimento Black Lives Matter (As Vidas dos Negros Contam) – que juntou muitos milhares de Negros americanos, há três anos: “O eleitorado negro está indignado perante a inoperância dos políticos negros para assegurar um mínimo de justiça para os negros assassinados pela polícia”. O artigo conclui: “A velha ortodoxia política que permitiu aos Democratas negros centristas dominar a política negra está em vias de cair. Os progressistas negros estão em ascensão.”

Após a vitória da candidata latina Ocasio Cortez, do movimento de Sanders, nas Primárias democratas de Nova Iorque, outro bastião democrata, as primárias de Boston mostram por sua vez que o eleitorado democrata não aceita mais a situação.

Revelada a incapacidade de Trump…

Do lado dos Republicanos, a crise não é menos profunda. A morte recente do senador McCain, principal opositor republicano de Trump, bem como as eleições de meio de mandato, deveriam facilitar as relações do Presidente com o Senado, no momento em que ele parece ter encontrado uma forma de boa convivência com a maioria republicana na Câmara dos Deputados.

Mas um livro que acaba de ser publicado, na mesma linha do artigo anónimo de um alto funcionário republicano da Casa Branca, denuncia a incapacidade de Trump para liderar o país, enfatizando a sua irascibilidade e os duros comentários contra ele de membros da sua própria Administração. Reflexo das tensões que atravessam o Partido Republicano, estes dois textos que aparecem num momento em que prossegue a investigação sobre as relações da campanha de Trump com o Governo russo e em que ocorrem os primeiros julgamentos (duas semanas de prisão para um membro desta campanha, que em seguida decidiu colaborar com a Justiça).

A incapacidade dos dois grandes partidos dos EUA para representar as aspirações da maioria trabalhadora, dos jovens e Negros americanos é evidente, há muito tempo. Mas em milhões de cidadãos cresce a vontade de sair desta situação, mesmo que ainda não tenha sido encontrada a forma acabada em que se expressará essa resistência.

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(1) O Congresso é composto pelos membros Senado mais os membros da Câmara dos Deputados (Representantes). No Congresso – órgão pelo qual passaria a eventual destituição de Trump – existe actualmente uma maioria de Republicanos.

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