A utilização pela UE da crise dos refugiados (1)

refugiados

É impossível não reagir perante as imagens desses “párias da terra” amontoados no convés dos barcos que acabavam de resgatá-los e, ao mesmo tempo, não sentir a maior cólera perante a vergonhosa manipulação política orquestrada por todos os chefes de Estado e de governo da União Europeia.

Não se passa um dia sem que estes centos de milhares de homens, mulheres e crianças – expulsos das suas terras pela guerra e o saque dos recursos naturais do seu país pelas potências imperialistas, entregues a guerras supostamente étnicas e manipulados por máfias de traficantes – não sejam apresentados pelos meios de comunicação oficiais, de maneira pérfida, como factor potencial de desestabilização de todo o continente europeu, semeando assim o veneno do racismo e da xenofobia.

São os mesmos chefes de Estado e de governo que, à imagem do Governo francês, lançaram os seus exércitos para a África e o Médio Oriente, provocando deslocações forçadas de populações. Chefes de Estado que, paralelamente, se apressaram em destruir a legislação laboral nos seus países, para preparar neles “o acolhimento” humanitário de uma mão-de-obra escrava… e que se atrevem a acusar os povos da Europa de racismo e de xenofobia.

São os mesmíssimos chefes de Estado e de governo que, em nome deste “acolhimento humanitário”, intimam os países da África do Norte a organizar “plataformas de desembarque” que não podem ser senão “campos de detenção”.

Em nome da ampliação da União Europeia e dos seus “valores humanistas”, lançaram-se como aves de rapina, na década de 1990, sobre a indústria e as infraestruturas da Polónia, da Hungria, da República Checa,… para privatizá-las e desmantelá-las.

Levaram centenas de milhões de operários qualificados ao desemprego, obrigaram a juventude destes países a emigrar. Espezinharam a aspiração legítima dos trabalhadores destes países a obter direitos e um estatuto de vida similar aos dos seus irmãos do Oeste, após a queda do Muro de Berlim.

E são estes senhores que se atrevem a acusar os trabalhadores e povos da Europa do Leste de racismo e xenofobia.

Para garantir ao capital financeiro o pagamento da dívida dos Estados, aplicaram à Grécia um programa de austeridade que não tem paralelo em tempos de paz. Submeteram Portugal e Espanha a verdadeiros “planos de ajustamento”. Hoje, ameaçam directamente a Itália. E são eles que acusam os povos grego, italiano,… de xenofobia.

São eles e unicamente eles os responsáveis de que tenham acedido ao poder os Orbán, Salvini e companhia!

Agem como se a causa da crise que a Europa atravessa fosse a chegada de algumas centenas de milhar de refugiados. Com um único propósito: fazer desaparecer as verdadeiras causas do desconjuntar do continente europeu.

Passaram dez anos desde que rebentou a crise financeira de 2008, e Trichet – o então Presidente do Banco Central Europeu (BCE) – está alarmadíssimo. Acaba de declarar que a situação actual é mais perigosa que a existente há dez anos.

Todos captam os sinais de que, em todo o continente, todos os povos rejeitam cada vez mais a política imposta pelo capital financeiro. Temem, acima de tudo, um levantamento destes povos contra a política assassina ditada pelo capital financeiro e executada pelos diversos governos, que pretextam estar “obrigados” a pôr em marcha estes planos por causa das instituições da União Europeia.

Procuram desactivar preventivamente este levantamento. Procuram desactivá-lo antes que tenha podido tomar forma. Esta é a causa da vergonhosa encenação a que assistimos sobre o tema “Todos contra o populismo!”, e que deve servir de eixo para a campanha das eleições europeias.

Haveria, por um lado, os partidários de um mundo “aberto” empenhados em salvar as instituições da União Europeia, instrumento do capital financeiro, cerrando fileiras em torno do duo Macron-Merkel; e, por outro lado, o mundo do “recuo nacionalista e xenófobo”.

Esta falsa alternativa tem por objectivo desviar a classe operária e os povos da Europa da luta para fazer recuar e derrotar a ofensiva em curso, arremetendo contra os fundamentos do sistema de exploração capitalista e detendo a política de intervenção militar das grandes potências imperialistas.

Não há saída nem no acompanhamento “humanista” da política de deslocação de populações pelo imperialismo, nem no beco sem saída do recuo para dentro das fronteiras de cada país.

A indústria e a agricultura das nações europeias têm a sua existência ameaçada pelo desmantelamento de que são objecto por parte dos monopólios que dominam o mercado mundial. A indústria e a agricultura das nações europeias não têm dimensão suficiente para enfrentar estes monopólios imperialistas.

As forças produtivas asfixiam no quadro estreito dos Estados nacionais. Não pode haver volta atrás.

A aspiração dos povos a recuperar a sua soberania só poderá ser realizada através do combate da classe operária para arrancar, à escala de toda a Europa, o poder das mãos do capital financeiro com a finalidade de reorganizar, a nível de todo o continente, os transportes, a energia, a indústria e as infraestruturas, pondo-as ao serviço de todos os povos e de todos os proletários, seja qual for a sua origem.

Talvez nunca tenham tido tão candente actualidade as formulações usadas por Trotski (na década de 30 do século passado): “Para salvar a sociedade, escreveu ele, não é necessário parar o desenvolvimento da técnica, nem encerrar as fábricas, nem conceder subsídios aos agricultores para sabotar a agricultura, nem converter um terço dos trabalhadores em mendigos, nem recorrer a loucos para desempenharem o papel de ditadores. Todas estas medidas, opostas aos interesses da sociedade, são inúteis. O que é indispensável e urgente é separar os meios de produção dos seus proprietários parasitários actuais e organizar a sociedade com um plano racional. Com isso seria possível, por fim, curar realmente a sociedade dos seus males. Os que sabem trabalhar encontrariam trabalho. A duração da jornada laboral diminuiria gradualmente. As necessidades de todos os membros da sociedade encontrariam cada vez mais possibilidades de satisfação.”

Não há verdadeiro combate para socorrer os “refugiados” – nossos irmãos de classe – que possa ser separado do combate político da classe operária para derrubar a ordem estabelecida, criar empregos, construir milhões de habitações e reconstruir as infraestruturas deficientes dos serviços públicos abandonados pelo capital.

Somente a luta da classe operária e dos povos da Europa para construir os Estados Unidos Socialistas da Europa, sobre as ruínas do Estado burguês em crise, será capaz de abrir uma saída à crise em que se está a afundar o continente.

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(1) Declaração do Secretariado Internacional da 4ª Internacional sobre a questão dos refugiados e “migrantes” na Europa, publicada a 6 de Setembro de 2018.

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