Brasil: A destruição do Museu Nacional, um retrato do país (1)

Image: Firefighters try to extinguish a fire at the National Museum of Brazil in Rio de Janeiro

O desaparecimento do valoroso acervo é responsabilidade da política golpista.

Na noite de 2 de Setembro, o Museu Nacional sediado no Rio de Janeiro foi destruído pelo fogo. Perdemos o 5º maior acervo do mundo, um dos acervos mais importantes do país, de valor inestimável para nós, brasileiros, e para toda a humanidade. Perdemos o fóssil humano mais antigo localizado nas Américas, Luzia, múmias indígenas e egípcias, entre outros.

O Museu Nacional abrigava vinte milhões de itens, duas valiosas bibliotecas e espaços destinados à investigação e extensão, além de programas de pós-graduação de excelência da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Citamos como exemplo o Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social – sobretudo pelos trabalhos de Etnologia indígena – responsável pela produção mais avançada na área das Ciências Humanas, no país hoje, e que conferiu um lugar de destaque mundial à nossa produção intelectual.

O Museu Nacional era um dos prédios mais populares do Rio. Fazia parte da formação dos alunos de escolas públicas de Educação básica. Muitos estudantes entravam em contacto, pela primeira vez, com espaços de conservação da memória, da história, da cultura, da arte e da ciência do país e do mundo através da sua visita.

Em 2018, 54 mil reais para manutenção!

Embora querido e de grande valor para a cultura e ciência do país, todos os que visitavam o Museu – que, em 1808, abrigou a família Real Portuguesa – sabiam que ele funcionava à míngua, num prédio em péssimas condições, com instalações precárias e infestado de térmitas. Este ano, o Museu recebeu apenas 54 mil reais (pouco mais de 11 mil euros!) para a sua manutenção.

Os jornais de todo o mundo divulgaram a notícia. A comoção da perda foi tornada maior perante os parcos recursos do Corpo de Bombeiros da PM do RJ para enfrentar a magnitude do incêndio. A grande imprensa teve a coragem de dar eco a manifestações pró-privatização que apontam a tragédia como exemplo de incapacidade administrativa do poder público. Paulo Knauss, director do Museu Histórico Nacional, declarou: “O nosso país está carente de uma política que defenda os nossos museus” (G1, 2/9).

Embora a imprensa omita esse facto, o Partido dos Trabalhadores é o único partido que enumera, com clareza, os seus compromissos com a preservação do património público e dos museus, em particular: “Retomaremos, de forma activa as políticas para o património e museus, através do IPHAN (Instituto do Património Histórico e Artístico Nacional) e do IBraM (Instituto Brasileiro de Museus). Essas duas instituições serão dotadas das condições para que conduzam iniciativas amplas e diversificadas de protecção e promoção do património cultural e de fortalecimento da política nacional de museus” (Plano Lula de Governo).

No dia 3 de Setembro, a polícia de Crivella (Perfeito do Rio de Janeiro) lançou gás pimenta e bateu em manifestantes revoltados que protestavam em frente ao Museu, denunciando os cortes de Temer e a PEC 241/55 dos gastos, na Quinta da Boa Vista. No mesmo dia, houve manifestação também na Cinelândia – ao apelo da UNE (União Nacional dos Estudantes), UEE (União Estadual dos Estudantes) e da ANPG (Associação Nacional de Pós-Graduandos) – com milhares de participantes, sobretudo estudantes.

Ao contrário do que dizem Temer, Crivella e demais administradores ignorantes, não é possível recuperar o Museu Nacional. Infelizmente, o que se perdeu no incêndio nunca mais poderá ser recomposto. Este é o legado macabro dos golpistas. O Museu Nacional transformou-se numa ruína, uma chaga vinda deste momento infeliz da nossa História.

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(1) Transcrevemos este artigo, da autoria de Áurea Alves, publicado no jornal “O Trabalho”, edição nº 835, de 6 de Setembro de 2018. Este jornal é da responsabilidade da Secção brasileira da 4ª Internacional (cujos militantes fazem parte da Corrente do Partido dos Trabalhadores – PT, com essa mesma designação).

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