Reino-Unido: crise aberta na cúpula do Partido Conservador

Manif_Londres

Manifestação em Londres, a 13 de Julho, contra a visita de Trump.

No passado fim-de-semana, parecia que Theresa May tinha conseguido manter a unidade do Partido Conservador e do Governo. Ela tinha reunido, durante um dia inteiro, os membros do Governo na residência de campo do Primeiro-ministro, em Chequers, para os convencer a apoiarem o Livro branco sobre a saída da UE, que contém as propostas concretas apresentadas pelo Governo inglês aos negociadores da UE. Após um dia de negociações – onde foi pedido aos ministros para deixarem o seu computador portátil à porta da reunião… para evitar fugas de informação (!) – os partidários do “Brexit duro” pareciam ter aceite o plano proposto, que previa, para manter o acesso do Reino-Unido ao Mercado Comum, um alinhamento em relação às normas europeias sobre a transacção de bens.

Contudo, no domingo à noite, David Davis – ministro encarregue da saída do Reino-Unido da UE – demitiu-se explicando, na sua carta de demissão, que, embora desejando o sucesso do Governo, não podia defender um plano no qual não acreditava.

No dia seguinte, foi Boris Johnson – ministro dos Negócios Estrangeiros e figura de proa da campanha a favor do Brexit – que se demitiu, denunciando um plano que reduziria o Reino-Unido “ao papel de colónia”, um plano “que me está entalado na garganta”. Em seguida, dois dirigentes nacionais do Partido Conservador também se demitiram, o que foi interpretado pelo círculo próximo de May como uma tentativa de desestabilização para provocar eleições internas visando substituí-la.

Este novo episódio da crise já aguda do Partido Conservador – e, portanto, do Estado britânico – faz temer uma onda de choque continental, atingindo todos os governos fragilizados de uma União Europeia feita em cacos.

Logo após o anúncio do seu plano, May recebeu o apoio de Merkel, o que é lógico porque o afundamento do Governo britânico colocaria em perigo, evidentemente, todas as actuais negociações. Ora o que está em jogo nestas negociações é muito mais do que a mera saída do Reino-Unido da UE.

Com efeito, nessa mesma semana estava a ter lugar a Cimeira da NATO, em Bruxelas, antes da visita oficial de Donald Trump ao Reino-Unido. Esta Cimeira realizou-se após a decisão dos EUA de tomarem medidas proteccionistas contra as importações vindas dos países da UE, em particular os automóveis e o aço da Alemanha. Trump – que veio à Europa exigir que os seus aliados consagrem 4% do seu PIB ao Orçamento da NATO – declarou que “o povo votou a favor da ruptura [da ligação do Reino Unido com a UE]”, acrescentando: “Penso que é o que irá ser feito; mas talvez seja seguido um outro caminho. E não sei se foi para isso que eles [os Britânicos] votaram.”

Logo a seguir, recebido por May, ele declarou – numa entrevista ao “jornal dos escândalos”, o Sun – que May não tinha escutado os seus conselhos sobre o Brexit e que Boris Johnson daria um excelente Primeiro-ministro, tendo em seguida dado o dito por não dito…

Após dois dias – durante os quais dezenas de milhares de pessoas se manifestaram contra a sua visita (mais de 100 mil em Londres, ver foto) – outro jornal inglês, The Guardian, anunciava: “Trump partiu após ter provocado uma destruição diplomática”.

O Presidente dos EUA veio à Europa para fazer pressão sobre todos os chefes de Estado da UE, visando impor uma remodelação das relações entre imperialismos, em função das necessidades do imperialismo norte-americano.

O plano de saída da UE finalmente apresentado por May – que prevê um acesso ao Mercado Comum similar ao acordo que a UE assinou com a Ucrânia ou a Geórgia – não resolve nada. Apesar das palavras tranquilizadoras de May, continua a haver numerosas questões em suspenso, como por exemplo: a possibilidade de assinar acordos de livre-comércio sem a UE, com os EUA em particular; as regras aplicáveis aos serviços e, portanto à finança (sabendo que a City de Londres é a principal praça financeira mundial); ou, ainda a imigração, tanto a da Europa do Leste, como a da África e do Médio-Oriente, sobre a qual os países da UE não podem pôr-se de acordo (dossiê sobre o qual Trump juntou óleo ao fogo que já havia).

Pelo seu lado, o Partido Trabalhista (Labour Party) está dividido sobre a questão da saída da UE e não apela a eleições antecipadas para expulsar, imediatamente, os Conservadores do poder. Uma parte da direita “blairista” faz campanha – com o fito de desestabilizar Jeremy Corbyn – por um segundo referendo pela manutenção na UE, ao lado dos Verdes e dos Liberais-Democratas.

Stephen Kinnock, deputado blairista, não esconde o seu apoio ao Governo: “Não penso que valha a pena falar em eleições gerais (…). Penso que é necessário unirmo-nos à volta de um Brexit baseado na adesão à Zona Económica Europeia.”

Contudo, os militantes do Labour e dos sindicatos querem expulsar May do poder e a maioria aspira a um governo do Partido Trabalhista, dirigido por Corbyn, que renacionalize os caminhos-de-ferro, renacionalize e defenda Sistema de Saúde Pública (NHS), renacionalize a habitação social e acabe com as leis anti-sindicais.

Estas medidas, mesmo sendo parciais, opõem-se à vontade do capital financeiro de acabar com todas as conquistas operárias. Um tal programa, para ser aplicado, terá que afrontar o Patronato e os banqueiros da City, bem como os seus seguidores – estejam eles ao lado da UE, ou sejam “brexiters” partidários de acordos de livre-comércio com os EUA e da reconquista dos mercados na Ásia e na África.

Correspondente do Labour News


O Labour News é um Boletim editado por militantes do Partido Trabalhista que são simpatizantes da 4ª Internacional. Este artigo foi traduzido de Informations ouvrières – Informações operárias, o semanário do Partido Operário Independente, de França – edição nº 512, de 18 de Julho de 2018.

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