Pavor

Por Didier Brémaud
(Membro do Secretariado Nacional do Partido Operário Independente)

    Uma vez mais somos tomados de assombro perante esta terrível carnificina. Mais de oitenta mortos, mais de cento e trinta feridos, muitos de extrema gravidade. A barbárie. Apenas há uns dias houve trezentos mortos num atentado em Bagdad. Algum tempo antes tinha sido Kabul, Bruxelas, Costa de Marfim, Burkina Faso… Os países do Médio-Oriente e da África afundam-se, arrastando na sua esteira a França, os EUA, a Bélgica e toda a União Europeia, na qual todos os governos estão em crise, nomeadamente o do Estado espanhol e o da Grã-Bretanha (o último em data)…

    À noite, a seguir à tragédia de Nice, François Hollande fez uma declaração anunciando o prolongamento do estado de emergência por três meses, o apelo aos reservistas das Forças Armadas e a intensificação “das nossas acções na Síria e no Iraque”. A 16 de Novembro de 2015, três dias despois dos atentados de Paris e do Estádio de França, tinha feito pouco mais ou menos o mesmo anúncio perante el Parlamento reunido en Congresso (isto é, em conjunto com o Senado): estado de emergência, aumento dos efectivos das forças da ordem e intensificação de los ataques na Síria e no Iraque. Com a ameaça da perda de nacionalidade para os emigrantes “suspeitos”, que sabemos no que deu.

    Uma vez mais, François Hollande apelou à união nacional, mas essa união estilhaçou-se, não somente por causa das críticas da oposição, mas também pelas discordâncias dentro do próprio Governo (entre o Primeiro-ministro e o ministro do Interior).

    Não foi o próprio François Hollande quem estabeleceu a relação entre as “acções militares francesas” – dirigidas contra a Síria e o Iraquee os atentados mortíferos que cobrem de luto o nosso país desde há meses? Será que “acções militares” melhoraram a segurança das populações desses países? As centenas de milhares de refugiados que fogem desse inferno constituem uma resposta directa a esta pergunta.

    O estado de emergência deveria reforçar a segurança da população em França. Mas, o que está a acontecer? Primeiro, houve perseguições e detenções arbitrárias. A seguircom o pretexto dos arruaceiros, mas em nome do estado de emergênciao Governo tentou proibir a manifestação de 23 de Junho contra a reforma do Código do Trabalho. Desde então, as manifestações contra essa reforma são severamente vigiadas e controladas pelas forças da ordem, de tal modo que muitos trabalhadores não puderam juntar-se aos manifestantes. Constatemos simplesmente esta evidência: nem todas as concentrações estão submetidas às mesmas pressões.

    A reforma do Código do Trabalho foi aprovada sem votação, em virtude do artigo 49.3 da Constituição. Se for aplicada, esta reforma fará regressar as conquistas operárias à época anterior às convenções colectivas e aos sindicatos! O Governo é ultraminoritário e sabe-o. A crise de desmembramento devasta o PS que já nem se atreve a reunir-se; à Direita, os candidatos às primárias acotovelam-se e também ela se dilacera; todo o edifício da Vª República vacila, arrastando a União Europeia para perigosas oscilações, que o brexit amplifica ainda mais…

    Nesta situação, a convocação de uma jornada de mobilização, a 15 de Setembro, contra a reforma do Código do Trabalho, pela sua revogaçãofeita pela CGT, FO, FSU, Solidaires, Unef, Fidl e UNLaparece como um factor de ordem.

    O assombro e a indignaçãosuscitados pelo atentado de Nicelevam, então, a esta outra pergunta: e se a chave de toda a situação se encontrasse nas mãos da classe operária e das suas organizações?

(Editorial do nº 411 de Informations Ouvrières
Informações operárias, de 20 de Julho de 2016)

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