França: Novo recuo do Governo

Os trabalhadores e as suas organizações não cedem perante Hollande

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As 7 organizações sindicais e de jovens que continuam a apelar à mobilização pela rejeição da reforma do código do trabalho (CGT, CGT-FO, FSU, Solidaires, Unef, UNL e Fidl) organizaram um meeting histórico em Paris, no passado dia 5 de Julho.

O resultado do referendo no Reino Unido abre uma nova etapa na decomposição da União Europeia e das suas instituições, que já estavam numa situação crítica perante a resistência dos povos e os riscos de explosão social.

Um resultado que encontra um eco especial em França, em plena mobilização contra a revisão do Código do Trabalho.

Esta onda de choque tem lugar no mesmo momento em que, na França – um dos principais países da UE – a mobilização dos trabalhadores com as suas organizações tem o Governo encostado às cordas. Este Governo – em crise, rejeitado e isolado – recorre, em desespero, aos mecanismos antidemocráticos da Vª República: estado de emergência, artigo 49.3 da Constituição gaullista, ameaça de proibição de manifestações,…

A firmeza da frente unida sindical obrigou o Governo a recuar e autorizar a manifestação de 23 de Junho. Na defesa desta liberdade democrática a manifestar há que assinalar o papel desempenhado pelo Apelo de dez organizações políticas “Unidos para dizer NÃO”.

Este Apelo, após denunciar as trapalhices do Governo ao procurar desacreditar as organizações operárias, chegando a identificá-las com terroristas, conclui:

“As organizações políticas signatárias pedem a François Hollande que pare com os seus ataques ao movimento sindical e ao mundo laboral.

Defendemos outra política, respeitadora dos assalariados e não guiada pelos interesses das grandes empresas.

Recordamos que três das cinco Confederações sindicais rejeitam a reforma laboral e que sete sindicatos operários e associações de jovens convocam as manifestações.

Denunciamos os intoleráveis ataques contra os sindicatos e, em particular, contra a CGT.

Apelamos à rejeição de qualquer ataque ao direito de manifestação e a uma mobilização ainda com maior força, em conjunto com os sindicalistas, em próximas convocatórias.

Exigimos a retirada da reforma laboral, única decisão razoável capaz de acalmar as tensões sociais, de que o Governo é o principal responsável.”

A debilidade do Governo é enorme, o que o leva a tentar mostrar maior firmeza. “Não haverá retirada do texto nem modificação da sua filosofia, nem reformulação dos artigos que constituem o seu eixo”, disse Valls (o Primeiro-ministro). Acrescentando que o projecto de lei voltará à Assembleia Nacional.

A situação de desordem é da responsabilidade do próprio Governo, que aposta cinicamente na putrefacção e na decomposição sociais. Mas são precisamente as organizações sindicais que assumem a responsabilidade de ser um factor de ordem, colocando-se à cabeça da defesa das liberdades e dos direitos democráticos, a começar pelo direito de manifestação.

Apesar do bombardeamento mediático contra os sindicatos, não parece que os trabalhadores franceses se estejam a deixar enganar: 60% dos franceses – segundo uma consulta realizada pelo Instituto de sondagens OuestFrance – consideram justificada a movimentação contra a reforma laboral, embora as preguntas que a sondagem colocou sejam tendenciosas, orientadas para os actos dos “violentos”. Segundo este Instituto de sondagens: “O Governo, envolvido num braço-de-ferro com a CGT, contava com um retrocesso ou, pelo menos, uma diminuição do apoio ou da aprovação da opinião pública em relação aos protestos. Este fenómeno não teve lugar”.

Segundo uma outra sondagem, realizada a 20 de Junho, Valls atinge um “recorde de impopularidade”, apenas com 20% de opiniões favoráveis (sendo que Hollande ainda tem menos – 16%).

“Com um poder executivo mais debilitado do que nunca, ninguém pode assegurar hoje como terminará a reforma laboral”, opina o editorialista do jornal francês Le Figaro (18 de Junho).

Nice: Novo acto de terror usado para justificar tanto a política de guerra da NATO e do Governo francês, como a restrição às liberdades

Sendo esta a situação política em França, é lógica e pertinente a pergunta: o morticínio cometido em Nice – vitimando muitas dezenas de pessoas de forma brutal e aleatória – não terá como finalidade dar um novo “balão de oxigénio” ao governo de Hollande, para tentar levar por diante o seu ataque ao Código do Trabalho e às organizações sindicais?

A Direcção da Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses (CGTP) levanta uma ponta do véu ao afirmar, na sua Mensagem de solidariedade às Confederações sindicais de França (de 15 de Julho): “A CGTP-IN repudia todas as formas de terrorismo, pois são dirigidas de forma indiscriminada contra populações indefesas. Se se vier a confirmar que esta acção criminosa está ligada aos grupos terroristas que operam na região do Médio Oriente, mas também na Europa, o que afirmamos é que só o fim das guerras nesses países bem como o fim das ingerências e agressões militares e a resolução pacífica dos conflitos podem contribuir para uma paz justa e duradoura e para a segurança dos cidadãos.”

Mas, não será preciso ir mais longe identificando qual o papel do governo de Hollande nessa política de guerra (e no seio da NATO) e ligá-la à guerra de classe que ele conduz contra os trabalhadores franceses e as suas organizações?

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